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Verdade e Justiça para David Solazzo

Por: Maria de Lourdes

“O grande temor é que o governo local – da Ilha do Fogo- querer apagar os holofotes do caso para não prejudicar ainda mais o turismo, num arquipélago com índice de criminalidade muito elevado”. (“Studio Aperto” do dia 3 de Abril ).

São com estas palavras que exprimem forte desconfiança quanto à real vontade das autoridades cabo-verdianas em colaborar com as italianas, que podem gerar no telespectador muitas dúvidas quanto à seriedade das investigações realizadas sobre a morte do jovem italiano David Solazzo, ocorrida a 1 de maio de 2019 na ilha do Fogo.

O autor do citado programa transmitiu uma imagem negativa de Cabo Verde ao  atribuir ao nosso Pais uma “elevada taxa de criminalidade”.

David, que trabalhava como cooperante do COSPE na ilha do Fogo, era um jovem florentino, conhecido e qualificado por todos com os mais belos adjectivos que se podem encontrar no vasto dicionário da língua italiana.

A notícia da morte de David é bem conhecida em Cabo Verde porque foi veiculada por todos os meios de comunicação, mas a notícia em Itália atingiu um nível de envolvimento nacional extraordinário . Televisão nacional e regional, rádio, jornais social media transmitem e falam de David com uma emocçao muito forte, de forma muito tocante, como quando falamos sobre o desaparecimento de um filho muito querido e muito especial.

A família Solazzo continua de forma incansável à procura da verdade sobre a morte do seu querido David, que tinha apenas 31 anos, encontrado morto no dia da festa mais importante para os habitantes do Fogo: a tradicional festa de S. Filipe ou Festa das Bandeiras, que todos os anos atrai milhares de cabo-verdianos, principalmente da diáspora e dos Estados Unidos. A preparação desta festa Começa quase um mês antes para culminar no 1º de Maio. No dia 30 de Abril, já de madrugada David depois de conviver com os amigos, voltou para casa no meio da noite. Na manha de 1º de Maio, ele foi encontrado numa poça de sangue dentro da sua casa em S. Filipe. Neste 1º de maio, são dois anos da trágica morte de David sem que um culpado ainda tenha sido encontrado, segundo a irmã de david.

Duas teses em confronto: a dos investigadores da ilha do Fogo e a da família Solazzo .

De acordo com a autópsia efectuada a David, tanto em Cabo Verde como em Itália, parece que a morte do jovem cooperante ocorreu devido ao corte de três veias, uma das quais foi fatal, e portanto morreu de hemorragia.

Mas aqui termina a concordância entre as teses enunciadas pelas autoridades cabo-verdianas e as defendidas pelas autoridades italianas e pela família Solazzo.

De facto, a irmã de David, que entrevistei,  Alessandra Solazzo, que esteve em Cabo Verde depois da morte do irmão, diz que segundo a tese dos investigadores da ilha do Fogo, David partiu o vidro da janela, para entrar no edifício onde ele vivia porque não tinha as chaves. Teria assim causado a si mesmo os cortes que cortaram as veias do braço. David teria encontrado a morte pelo esvaziamento em sangue e, portanto, seria um acidente doméstico.

A família Solazzo não aceita esta versão que definem como simplista e incorrecta. Segunda Alessandra provavelmente havia alguém com David na entrada do edifício, naquela noite, talvez alguém esperando por ele, ou um ladrão ou alguém que David conhecesse: há muitas mais hipóteses plausíveis do que a do acidente doméstico.

Por exemplo: as chaves foram encontradas inseridas na fechadura da porta de seu apartamento, então David estava com as chaves e as usou para entrar em casa.

Não só. Ele era uma pessoa calma e tranquila e não era de sua natureza ter comportamentos inesperados e violentos.

Além disso, trazia consigo o telemóvel e poderia ter ligado aos seus colegas  caso tivesse fora de casa sem as chaves.

Todos esses elementos confirmam que a reconstrução das autoridades locais não tem lógica e é totalmente contraditória, diz Alessandra.

A coisa mais incrível foi constatar que depois de encontrar o corpo de David, sangrando até a morte, a Polícia Científica não foi chamada ao local para realizar todas as perícias necessárias e a casa de David, ainda cheia de sangue por toda lado, foi então liberada e aberta apenas 48 horas após sua morte.

Mais. Em Setembro de 2019, verificamos que o perfil do meu irmão no Whatsapp foi cancelado (e também todas as mensagens do Whatsapp no telefone). Naquela altura, o telemóvel dele estava e está apreendido nas mãos das autoridades  de C V.

Durante os 5 dias que passei em CV – continua Alessandra Solazzo – encontrei-me duas vezes com a Procuradora encarregada das investigações, Paula Silva. A primeira vez em seu escritório em São Felipe e nesse caso sua atitude foi hostil, tanto que ela queria mandar-me embora. Além disso, quando a procuradora tentou mostrar-me imagens fotográficas da descoberta do corpo, ela extraiu um CD do arquivo, inseriu-o no PC, mas, para o seu espanto e embaraço, o CD estava vazio e ela não conseguiu dar um explicação que pudesse justificar onde foram parar as fotos.

Na segunda vez, nos encontramos em frente à casa de David porque o procurador deveria entregar-me as chaves do apartamento. Quando soube que era nossa intenção fazer um vídeo no interior do apartamento, seja ela que o Delegado de Polícia de S. Felipe que a acompanhava, impediu-nos de entrar em casa. Nessa altura não nos entregou as chaves como tinha sido combinado e sem nenhuma explicação plausível. Há muitas perguntas sem respostas.

A família Solazzo conseguiu envolver varias instituições italianas para pressionar o governo cabo-verdiano a colaborar na descoberta da verdade sobre a morte de David.

Alessandra Solazzo continua: Ainda estamos perguntando qual é a razão pela qual todos os vários pedidos do Ministério dos Negócios Estrangeiro da Itália, encaminhados pela Embaixada da Itália em Dakar ou directamente à autoridade judiciária de São Felipe, permanecem sem respostas.

Apesar do envolvimento das instituições italianas ao nível do Ministério dos Negócios Estrangeiros, da diplomacia italiana e cabo-verdiana, do envolvimento do Presidente da República Italiana e de Cabo Verde, do interrogatório parlamentar da deputada Boldrini, a intervenção directa do Ministro Di Maio, da magistratura italiana, do envolvimento do Município de Florença e da Região da Toscana, a mensagem da comunidade cabo-verdiana de Firenze, manifestação à frente do consulado honorário de Cabo Verde em Toscana. Nada aconteceu. Nenhuma reacção das autoridades de Cabo Verde.

Quero concluir esta entrevista com um apelo da família Solazzo à população do Fogo e às autoridades cabo-verdianas.

“Queremos agradecer mais uma vez à população do Fogo pelo seu carinho e amabilidade que nos dispensaram graças à relação que David tinha estabelecido nessa ilha. E para que a morte de David não seja esquecida e em vão é necessário o apoio da população na obtenção da verdade e para que se faça a justiça.

David trabalhou em países africanos, sempre em contacto com a população local e amava profundamente Cabo Verde.

Pedimos às autoridades cabo-verdianas a devolução dos bens pessoais de David, que ainda se encontram na sua posse: o telemóvel, o seu computador e a  máquina fotográfica.

Por último, que colaborem com as autoridades italianas no esclarecimento das causas da morte de David e dos responsáveis por tal atraso.

Recordamos aqui quem foi David Solazzo e o projecto que realizou na ilha do FogoCospe, a ONG pela qual David trabalhou, apresenta-o da seguinte forma: “David foi um excelente profissional, animado por uma grande paixão pelo seu trabalho. Gostou sempre do seu trabalho no terreno, entre as pessoas, ouvindo-as e aprendendo com elas e com elas procurando as soluções mais adequadas para enriquecer o projecto ”. “Rotas do Fogo” era o nome do projecto para o qual David esteve em Cabo Verde. Projecto que terminou a 31 de Julho de 2020. Foi um projecto modelo de reforço às organizações locais para o desenvolvimento do turismo rural e sustentável na ilha do Fogo. Os principais beneficiários do projecto são pequenas unidades agrícolas e empresas de turismo do Fogo. David esteve principalmente envolvido na construção do jardim Botânico de Monte Velha, a que hoje foi atribuído o seu nome: Jardim David Solazzo. COSPE tem uma base permanente na ilha do Fogo desde 1996.

Publicada na edição semanal do jornal A NAÇÃO, nº 711, de 15 de Abril de 2021

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