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Opinião

A política e os seu interpretes no divã

 

Por: Arsénio Fermino de Pina*

Quando se fala de divã pensa-se de imediato no diagnóstico e tratamento psicanalítico e psiquiátrico. É precisamente do que necessita a política e os políticos nos dias de hoje, tanto a Leste como a Oeste, mesmo depois do fim da Guerra Fria. Vou seguir o psicanalista Gérard Haddad, tentando decifrar os acontecimentos políticos que são o reflexo de paixões e angústias humanas bastas vezes inconscientes. Este psicanalista, discípulo de Jacques Lacan, tem-me regalado com observações cintilantes na forma bastante, pertinentes no conteúdo, razão por que o apresento aos leitores que não se conformam com a superficialidade da maioria das imagens e falsas notícias que nos impingem sob pressões de grupos de interesse ou preconceitos de alguns meios de comunicação social, por vezes relacionados com a propriedade e controlo dos mesmos, que nada têm a ver com a promoção da democracia como “governo pelo debate”; a desinformação é por vezes habilmente introduzida em debates públicos, com grandes implicações eleitorais, através da advocacia empresarial disfarçada pelos comentadores políticos que dominam os programas televisivos e pertencem todos a escritórios de avogados. É pena essa dependência por os media serem essenciais em democracia, uma instituição chave para o desenvolvimento, na medida em que ajuda a ultrapassar os dogmas através do debate e da crítica serena, sem insultos nem linguagem desbragada.

Comecemos com o prato forte da política nos nossos dias, o nacionalismo chauvinista, o mais curto caminho para a barbárie, como nos diz Haddad, que parece transpor-se para os quatro cantos do mundo, tendo à cabeça a figura decididamente obscena do actual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A adjectivação do nacionalismo (chauvinista) deriva de Nicolas Chauvin, exemplo de soldado entusiasta do Império Napoleónico. É evidente ser respeitável e legítima uma certa estima de si próprio, bem como o amor ao país, mas as hipertrofias desses sentimentos abrem uma perigosa caixa de Pandora.

Relativamente às ideologias nacionalistas, essas estruturas são o que Segismundo Freud definia como narcisismo. O nacionalismo é, seguramente, uma metamorfose do narcisismo. Quem conhece a obra de Freud sabe que ele utilizou muitas figuras da mitologia grega. Narciso – que deu origem ao narcisismo – pertence a essa mitologia; não tendo correspondido ao amor da ninfa Eco, foi condenado pelos deuses a contentar-se com um insaciável amor à sua própria imagem reflectida num espelho (narcisismo). A mãe Terra converteu-o numa flor. Freud utilizou o narcisismo como perversão sexual, uma fixação de uma fase de transição da infância, em si normal nesta fase por ser passageira.

O narcisismo e a sua sócia, a rivalidade, são a origem da agressividade humana, como nos diz Haddad Está é geralmente contida em certos limites pelo princípio da realidade, bem como pelos grandes valores do discurso das Luzes que, associados aos ideais do Renascimento, permitiram construir a civilização ocidental: prestígio da verdadeira vida intelectual não conspurcada pelos media inquinados, valores da solidariedade e da curiosidade pela diferença.

Assim sendo, ou podendo ser, qual o motivo do hipernacionalismo, do chauvinismo, que enxameia a Europa dilacerada por surtos populistas e pela reemergência do nacionalismo exacerbado pela ascensão no poder dos populistas italianos? Dificuldades económicas, em boa parte, mas sobretudo a desvalorização dos valores humanos em proveito dos sucessos financeiros obtidos através da brutalidade dos negócios. Como dizia Lacan, discípulo de Freud, a melhor maneira de reconhecer um canalha é a sua manifestação anti-intelectual, a que acrescento anticientífica, por contestarem, negligenciarem e bloquearem a Ciência. Faço esse acrescento anticientífico para chamar a atenção para a ignorância dos canalhas. Se tivessem hábitos de leitura poderiam conhecer o cientista Carl Sagan que nos contou, num dos seus famosos livros, o que aconteceu há cerca de 2.500 anos nas ilhas gregas: na Jónia, na história das civilizações persa, fenícia, grega e egípcia, Hipócrates criou a Medicina, Anaximandro traçou a primeira carta das constelações, Empédocles pressentiu a evolução das espécies, Pitágoras fundou a Aritmética e Thales, a Geometria, Demócrito teve a intuição da estrutura atómica da matéria. Entrementes, um século mais tarde, as forças do obscurantismo apagaram tudo isso e foi preciso um lapso de dois mil anos para se reencontrar um primeiro renascimento da Ciência Moderna. Os novos obscurantistas (os canalhas), religiosos ou totalitários, estão dispostos a unir-se numa mesma divisa: obrigar a parar de pensar!

Infelizmente, os canalhas pululam de Washington a Jerusalém, Istambul, Teerão, Riade e noutras partes, como fautores de tensões e de guerras que temos na Síria, no Yémen, na Líbia, Gaza, Mali, Congo (ex-Zaire) e Nigéria, situações que levam a sofrimentos inqualificáveis, destruições, retrocessos civilizacionais, mortes de inocentes, quando pensávamos que a implosão da URSS, a falência do comunismo e o fim da Guerra Fria trariam paz e mais progresso.

O diagnóstico psicanalítico-psiquiátrico parece-me evidente, mas difícil o tratamento, o qual irá demorar muito tempo, com sequelas graves, sendo, portanto, o prognóstico bastante reservado por a doença (a política) e as vítimas voluntárias (os maus políticos) estarem resistentes à terapêutica mais adequada, preferindo soluções mágicas ou milagrosas que conduzem, geralmente, a hecatombes com sofrimento indizível das populações.

Parede. Setembro de 2018                                                           

    *Pediatra e sócio-honorário da Adeco   

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