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Economia

Mercados da Praia e Assomada em tempo de seca: Santiago continua a exportar frescos para outras ilhas

Quem visita os dois principais mercados da ilha de Santiago, na Praia e na Assomada, não diz que Cabo Verde se encontra em plena “seca severa”. As vendedeiras confessam que não contavam com tantos frescos, mantendo-se os preços, de um modo geral, acessíveis, havendo até casos em que certos produtos estão mais baratos. O que explica tamanho milagre?
Apesar da seca que se regista no país e consequente falta da água para a rega, verifica-se uma produção razoável de hortaliças e frutas na ilha de Santiago. Prova disso é a quantidade de frescos disponíveis nos principais mercados de frutas e legumes na cidade da Praia e na Assomada (Santa Catarina).
Numa ronda matinal pelo mercado do Platô, na quinta-feira da semana passada, 31 de Maio, A NAÇÃO constatou que as próprias vendedeiras se mostram satisfeitas e surpresas com a quantidade e a qualidade de produtos que têm chegado ao mercado, apesar da falta de chuva registada em 2017, tida por muitos como a mais severa dos últimos 40 ou 50 anos.
Maria de Fátima Correia, “Tinha”, rabidante há 20 anos, natural de Renque Purga, concelho de Santa Cruz, diz que diariamente abastece o mercado do Platô com hortaliças e frutas. “Tinha” conta que se abastece nos agricultores da Ribeira Seca e Macatí, em Santa Cruz, para revender às rabidantes no mercado do Platô.
“Nesta época estou a vender pepino, abobrinha e melancia. Apesar da pouca água, a produção de legumes está razoável. Água na barragem de Poilão já secou, é verdade, mas há furos que ainda estão com água. Vários agricultores compram água, em Macatí, para irrigar as suas parcelas em Ribeira Seca”.
E quanto ao preço dos produtos, “Tinha” considera que estão relativamente baratos, tendo em vista, sobretudo, o período da seca que o país, Santiago em particular, atravessa este ano. “Os produtos, de um modo geral, estão baratos. A produção está razoável, o que se verifica é que não há muito poder de compra. Como não há trabalho, as pessoas não têm como comprar caso colocarmos os produtos a um preço exagerado. Por isso, temos que equilibrar de forma a que todos saiam a ganhar e consigam levar pão para a sua mesa e ainda arcar com as despesas de educação e saúde da família”.
“Tinha” avança que compra um quilo de abobrinha por 60 escudos nos agricultores e vende às comerciantes, na Praia, por 80 escudos; compra pepino por 80 e vende por 100, o tomate por 50 e vende por 70 escudos.
Por seu turno, Any Conceição Borges, vendedeira no mercado da Platô, há 10 anos, considera que nos últimos dias, apesar de haver muito produto no mercado e num preço acessível, a venda está fraca. “Não há dinheiro. Por isso as pessoas vêm e compram o mínimo possível. Tendo em consideração que este ano não choveu, o preço está razoável, a quantidade de verduras que estamos a ver no mercado, neste momento, nem parece que estamos num período de seca”.
Adelaide Tavares, de Ponta D’ Água, é uma outra vendedeira que labuta no mercado de Platô há 15 anos. Também ela confessa que esperava menos produtos hortícolas no mercado, dado que não choveu.
“Deus é grande e não nos tirou a mão totalmente. Não nos deu chuva mas também não deixou faltar água nas nascentes, graças a isso, temos um mercado farto com frescos de vários tipos e qualidade. Olhando para as prateleiras nem parece que estamos a viver um período de seca”, aponta. De acordo com Adelaide, o preço varia consoante a quantidade do produto no mercado. No seu caso, os produtos que vende são provenientes de Santa Cruz, São Domingos e Pico Leão (Ribeira Grande).
Adelaide não esconde a sua tristeza por falta de água na barragem de Poilão. “Espero que o Governo aproveite para fazer o desassoreamento da barragem e que Deus nos dê chuva em abundância este ano, para a barragem novamente cheia. É pena ver aquilo tudo seco”.
Santa Catarina
Anilda Borges, vendedeira de legumes no mercado da Assomada há oito anos, afirma que não tem faltado produtos hortícolas. “Todas as quartas-feiras e sábado chegam ao mercado boa quantidade de produtos providentes da Ribeira dos Engenhos, Boa Entrada, Flamengos, São Salvador do Mundo, São Lourenço dos Órgãos e Santa Cruz”.
Também aqui o preço varia, consoante a quantidade de produto no mercado. “Quando há muito, o preço baixa e quando há pouco o preço soube. No entanto, de um modo geral, registou-se uma baixa de preço comparativamente com final de 2017”, afirma.
Agricultores em conflito
Victor Varela, agricultor de Santa Cruz, que cultiva no perímetro agrícola de Macati, afirma que neste momento a produção de legumes está razoável. Mas avança que a situação tende a piorar com a secagem da barragem de Poilão e, consequentemente, diminuição do nível de água nos poços e furos. “Neste momento já estamos a verificar conflitos frequentes, entre os agricultores, por causa da falta de água”, alerta.
Um outro problema, não menos grave, é o retorno da “salitração” na água, o que tinha deixado de acontecer com a barragem do Poilão. “Recentemente, o presidente da ANAS (Agência Nacional de Água e Saneamento) esteve em Santa Cruz e nos disse que nível de sal voltou a aumentar de um litro para cada metro cúbico de água para novo litros por cada metro cúbico”.
“Estamos a ver que, por causa disso, as bananeiras já estão a adoecer”, acrescenta. “Por causa disso, a quantidade de banana já diminuiu no mercado e o preço aumentou. O mesmo se passa com a mandioca, uma vez que tanto a mandioca como a banana demoram um ano para reproduzir, após serem plantados”.
Oportunidade para limpar a barragem
Victor defende que o Governo tem neste momento uma excelente oportunidade para desassorear a barragem de Poilão. “Em termos de altura, a barragem tem uma capacidade de armazenagem de 18 metros, a medição feita há uns anos aponta uma redução para 15 metros. Isso demonstra que a infra-estruturas tinha, na altura, cerca de três metros de terra na albufeira. O Governo deve aproveitar antes que volte a chover para limpar a zona de armazenamento de água. A barragem já provou que é coisa boa para quem vive da terra”, defende este agricultor.
Preocupado com a situação, Victor sugere, ainda, que o Governo deve aproveitar a ajuda internacional para fazer o desassoreamento de Poilão. “O dinheiro do vale-cheque e crédito agrícola, que praticamente ninguém utilizou por falta de condições, deve ser utilizado, juntamente com os fundos destinados a trabalhos de mitigação do mau ano agrícola para desassorear a barragem”.
Por seu turno, Sérgio Gomes, um jovem agricultor da localidade de Mantaba nos Engenhos, concelho de Santa Catarina, revela que ciente do período de seca registada no país fez um forte investimento para aproveitar água do nascente disponível para rega na região.
“Graças a Deus, em Mantaba, não temos falta de água para a rega. Mal me apercebei que em muitas localidades os agricultores iam ter dificuldades em produzir, devido à seca, fiz um forte investimento para aproveitar a baixa de produção. Recorri a crédito junto da OMCV para construir um reservatório mobilização de água e comprar tubos para rega gota a gota e com isso alarguei área do cultivo e diversifiquei os produtos. A produção foi boa e por sorte não tivemos praga. Por isso o investimento está a ser rentável”, confessa.
Sérgio adianta que teve uma boa produção de cebola, batata comum, abobrinha, tomate, feijão sapatinha, pepino e cenoura. Conforme este jovem agricultor, à semelhança dele, vários outros agricultores da Ribeira dos Engenhos, que dispõem de água, fizeram o mesmo, fazendo um forte investimento. E por isso, garante, tem abastecido o mercado da Assomada com legumes frescos.
Santiago abastece outras ilhas
Além do mercado local, boa parte de frescos produzidos na ilha de Santiago continuam a ser enviados para as ilhas da Boa Vista, Sal e São Vicente, ilhas turísticas e com pouca ou nula produção agrícola.
Carina Helena Rodrigues, residente no Bairro de Terra Branca, é uma das comerciantes que, para além de vender legumes e frutas no mercado do Platô, há 12 anos, também envia hortaliças para Sal, Boa Vista e São Vicente, para os seus clientes revenderem. “Estamos num ano de seca, mas temos que louvar a Deus por não estar a faltar produtos. Se bem que, os últimos dias, alguns produtos sofreram um ligeiro aumento do preço”.
Carina avança que prefere enviar boa parte dos produtos para as outras ilhas, onde há menos produção e o preço é mais atractivo. “As companhias marítimas estão a cobrar frete um pouco elevado, mas, mesmo assim, conseguimos lucrar melhor que aqui na Praia”, afirma.
Tomate, pepino, pimentão, melancia, repolho e banana (sobretudo verde) integram a lista das “exportações” de Santiago para aqueles mercados.
Manga e abacate, dois outros produtos que costumam igualmente ser fornecidos às outras ilhas, ao que tudo indica, não terão grande safra este ano. De acordo com um produtor, a par da seca, uma praga afectou gravemente a floração. Ainda assim, as primeiras mangas começaram já a chegar ao mercado, a preços ainda considerados elevados.
FAO alerta para possível crise alimentar
O relatório da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), divulgado na quinta-feira, 7, alerta que cerca de 20% da população cabo-verdiana ainda está em situação de insegurança alimentar.
Conforme o relatório, Cabo Verde faz parte dos 39 países que necessitam da ajuda externa para a produção agrícola e o abastecimento de alimentos, principalmente, por causa das mudanças climáticas e dos conflitos em diversas regiões do mundo.
No entanto, o representante da FAO em Cabo Verde, Remi Nono Wondim, considera que o país tem condições para erradicar a fome, já que, frisou, há vontade política e capacitação para se garantir a segurança alimentar e nutricional no futuro.
Wondim fez estas considerações à imprensa, na cidade da Praia, depois de participar no acto de abertura duma conferência sob o lema “Os desafios de uma agenda pública para a segurança alimentar e nutricional em Cabo Verde”, promovida pelo Ministério da Agricultura e Ambiente.
Na ocasião, aquele responsável assegurou que “a FAO vem trabalhando com o Governo de Cabo Verde no desenvolvimento de políticas, estratégias e programas no sector da segurança alimentar e nutricional”. Conforme Remi Nono “num país com uma população crescente como Cabo Verde, é preciso aprender a produzir mais com menos recursos”.
Governo nega crise alimentar
O primeiro-ministro Ulisses Correia e Silva assegurou que o país não está a atravessar uma crise alimentar. “Não há um problema de emergência alimentar, quer dizer de crise de alimentos para os cabo-verdianos, isto não existe”, afirmou em declarações à TCV.
No entender de UCS, a integração de Cabo Verde na referida lista da FAO resulta “do impacto da produção agrícola e pecuária e o efeito directo nas pessoas que vivem dessas actividades, devido, principalmente, ao mau ano agrícola de 2017”.
Importa referir que Cabo Verde atravessa uma das piores secas das últimas décadas. Para fazer face a esta situação o executivo decretou um programa de emergência para o qual mobilizou 10 milhões de euros junto dos parceiros internacionais. E em Fevereiro passado, um estudo do Escritório das Nações Unidas para Coordenação dos Assuntos Humanitários (OCHA), realizado no país, já apontava para que cerca de 140 mil pessoas estavam em risco de ficar em situação de vulnerabilidade nutricional aguda no país se não chovesse.
Preço actual de cada quilo do produto no mercado
Legumes:
Banana Verde – 100 escudos
Mandioca – 240 escudos
Pepino – 120 escudos
Pimentão – 200 escudos
Aboborinha – 100 escudos
Abóbora – 160 escudos
Cebola – 120 escudos
Batata – doce 180 escudos
Tomate – 100 escudos
Cenoura – 140 escudos
Repolho – 120 escudos
Cereais:
Milho nacional –
Feijão Pedra – 140 escudos Litro
Frutas:
Manga – 50 escudos cada unidade
Papaia – 180 escudos kg
Melancia -100 escudos kg
Pinhão – 120 escudos kg
Antes
Tomate – 180 escudos kg
Repolho – 200 escudos kg
Pimentão – 120 escudos kg
Banana – 50 escudos kg
Batata-doce – 150 escudos Kg
Mandioca – 140 escudos kg
Abóbora – 180 escudos Kg
Milho – 120 escudos Kg
Feijão – 100 escudos
 

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