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Sociedade

Ribeira Grande de Santiago: Professores relatam casos de abusos do delegado e Maritza impede-o de falar

A relação está tensa entre o delegado do Ministério da Educação na Ribeira Grande de Santiago, Octávio Moniz, e os professores daquele município. Durante um encontro com a ministra Maritza Rozabal, alguns docentes relataram casos de alegado abuso de poder que que têm afectado o clima de trabalho. Rozabal diz que se vai abrir um processo para analisar esta situação.
O clima é tenso entre o delegado do Ministério da Educação (ME) na Ribeira Grande de Santiago e os professores que leccionam naquele concelho. O problema não é novo. A novidade é que desta feita um grupo desses profissionais aproveitou a visita da ministra Maritza Rozabal, ao concelho, para dar-lhe conta da sua insatisfação. O encontro aconteceu na segunda-feira, 12, numa sala da Escola Secundária de Salineiro e o verbo correu solto.
De um modo geral, os professores, na presença da ministra, denunciaram o que classificam como um clima de “instabilidade, ameaças, medo e perseguição”, provocado pelo delegado Octávio Moniz. No início do encontro, a Polícia Nacional chegou a ser chamada ao local, supostamente solicitada pelo referido delegado, para retirar do recinto o professor António Carlos, que tem sido acusado de desvio de dinheiro, pelo delegado, acusação esta que ele refutou. No entanto, depois de alguma discussão, o professor acabou por ficar na sala.
Aguinaldo Moreira, que falou em representação dos professores do Agrupamento Escolar do Porto Mosquito, diz que a Delegação do ME na Ribeira Grande tem passado, nos últimos tempos, por clima “nada abonatório” para a promoção da excelência educativa que se almeja atingir. Segundo conta, o clima reinante tem gerado “muita tensão psicológica, angústia, medo, intimidação, injúria, vexame, humilhação e até ameaças de morte”.
“O delegado tem ofendido a integridade moral dos professores, apelidando-os, inclusive, de ‘diabinhos infiltrados’. Estes factos têm gerado um ambiente tenso e hostil, sentimento de intimidade e desqualificação que têm reflectido na baixa autoestima pessoal e profissional. Não tem havido boas relações entre professores e delegado”, revela Aguinaldo Moreira.
Despedimentos
Conforme revela as nossas fontes, Octávio Moniz tem feito uma série de despedimentos, de forma arbitrária. Ana Paula dos Santos, professora do ensino básico, conta que no dia 06 de Março foi demitida das funções de Coordenadora do Agrupamento Escolar de Porto Mosquito, pelo referido responsável, pelo facto de pedir esclarecimento a respeito de receitas da cantina escolar.
“Questionei porque sou coordenadora e tenho contas a prestar. Descontente comigo, o delegado chamou-me à sua sala e a ‘sentença’ é que eu estava demitida. De seguida, fui expulsa da sua sala. No outro dia, chamei para a inspeção, também contactei o sindicato que representa os professores, e disseram-me para apresentar uma queixa por escrito que já está feita”, diz.
Dirigindo-se para a ministra, Ana Paula alerta que as preocupações são muitas e a situação do ensino na Ribeira Grande é “caótica” por causa da conduta do delegado do ME. “Vivemos num clima de instabilidade, ameaças, perseguição e medo, os professores têm medo de falar. A pessoa que deveria ser um líder, um modelo para os professores, é um autêntico ditador”, assevera.
Ainda, esta professora a única viatura existente na delegação é para o uso pessoal de Octávio Moniz. “Por causa disso, as escolas com professores recém-entrados no sistema raramente recebem apoio dos coordenadores pedagógicos, porque não há viatura, ela está o tempo todo ao serviço pessoal dele”, avisa.
No dizer de Ana Paula, são muitas as vítimas do abuso de poder do delegado do ME na Ribeira Grande. Uma responsável da cantina, que também interveio durante o encontro, relatou que foi demitida pela mesma razão. Segundo diz, numa reunião com todos os responsáveis de cantinas, ela deu a sua opinião sobre um determinado assunto e, por causa disso, foi demitida pelo delegado.
“O delegado chama os professores ao seu gabinete para qualquer assunto e humilha-os até ao ponto de chorarem. Em encontros com professores, ele nos humilha publicamente e até já nos chamou de ‘diabinhos infiltrados’”, lamenta a mesma professora.
“Conduta abusiva”
Por seu turno, Adelaide Moura, professora no Agrupamento Escolar do Porto Mosquito, diz que o delegado do ME, que deveria promover as boas relações interpessoais, “tem sido o protagonista principal de conflitos”. “Temos um delegado que escorraça pessoas e que quer ser o dono da verdade em tudo. A sua conduta abusiva trouxe consequências negativas no nosso ambiente de trabalho”, admite.
Relatando o seu caso, Adelaide Moura conta que, por exemplo, numa reunião o delegado disse que os polos são obrigados a fazerem actividades juntamente com a Escola de Salineiro. E mais, a escola que fizer actividades sozinha é penalizada na avaliação. “Critiquei isso e, como ‘sentença’, fui escorraçada para a escola de Chã Gonçalves. Tenho 25 anos de trabalho e já exerci cargo de vereadora na Ribeira Grande de Santiago. Eu falo sem medo e como forma de calar-me, o delegado desterrou-me para a escola de Chã Gonçalves”, afirma, revoltada.
Adelaide Moura aproveitou a presença da ministra Maritza Rozabal para solicitar uma tomada de decisão urgente para evitar males maiores. “Sei que depois disso vou ser perseguida”, concluiu.
Processo de análise
No fim do encontro, Maritza Rozabal disse que ainda não tem uma posição sobre este caso. “São questões sobre o exercício do poder e relacionamento com os docentes. Por isso, vamos analisar esta situação e desenvolver um processo de análise para entendermos melhor esta questão”, prometeu.
Curiosamente, o delegado do ME, Octávio Moniz, pediu a palavra para se defender, durante o mesmo encontro, mas foi impedido pela ministra. No fim, ao seu abordado pelo A NAÇÃO, garantiu-nos que irá reagir sobre o caso numa outro momento. “Por agora prefiro não dizer nada, num outro momento, talvez sim”, concluiu.
ACN

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