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Opinião

Parabéns ao novo conselho de administração da Electra

César Isabel da Cruz
Eu queria parabenizar o novo Conselho de Administração (CA) da Electra pela sua nomeação, embora saiba que, como soe dizer-se, as… mudam mas a… é a mesma. Em relação a essa empresa já tenho bastas provas disso. Este já é o terceiro Conselho de Administração, e continuo aguardando uma resposta, um simples sim ou não, a uma proposta que formulei à empresa, por escrito, a 14/07/2016, após sucessivos e infrutíferos contactos verbais com o então Administrador residente no Mindelo, desde finais de 2015 até essa data. Essa mesma proposta, e outros elementos novos, foram posteriormente enviados a outros membros do Conselho de Administração, incluindo o PCA.
Eu propus-me como agente de cobrança da Electra, impondo-me como condição retroceder à empresa o produto das cobranças de um dia no dia seguinte, para além de prestar garantia bancária adequada ao nível das cobranças, de forma a eliminar quaisquer riscos para a empresa. Para além disso, prometia disponibilizar aos clientes condições de atendimento condignas, condizentes com uma boa imagem que se quererá da empresa.
Não obstante tudo isso, apesar de muita insistência, verbalmente e por escrito, mais de dois anos depois, não consigo obter da empresa uma resposta, um simples sim ou não. Os “eleitos” do CA da Electra acham-se acima de simples mortais e não podem perder o seu tempo sagrado com zé-ninguém. Se fosse do Presidente da República de Cabo Verde, de certeza, eu já teria tido uma resposta.
Depois de tanto tempo, acabei por concluir que querem vencer-me por desgaste, ignorando-me até que eu desista. Eu falo por mim mas sei de outro pretendente, pelo menos um, antes de mim, que foi tirado do caminho e desistiu. E tudo isso para proteger a “panilinha” de uma funcionária da sede da empresa, cujo monopólio, enquanto agente de cobrança da Electra, querem salvaguardar a todo o custo. Não sei se o cheiro que exala dessa panelinha será tão agradável que os inebria a todos, ou se será outro o caso. Mas a verdade é que, apesar de os ter advertido, inicialmente de forma velada, e posteriormente de forma explícita, de que essa situação é irregular, anti-ética, que existe conflito de agência no contrato de prestação de serviços entre a empresa e uma funcionária da sua sede, fazem-se desentendidos.
É certo que essa questão, o conflito de interesses, deveria ser acautelada pelas auditorias da empresa. Digo auditorias, porque a empresa tem auditoria, tanto interna como externa. Será que também elas se sentem inebriadas pelo cheiro da “panilinha”, ou é simplesmente incúria, “laisser faire, laisser passer”? Ou será que advertiram a Administração e esta faz ouvidos de mercador?
A questão dos conflitos de agência, pelos riscos que acarretam para as empresas (e logo para os seus accionistas), são objecto de especial atenção da auditoria. Também, as NRF – Normas de Relato Financeiro – exigem que sejam divulgadas no Anexo (relatório exaustivo sobre as contas, que é parte integrante das demonstrações financeiras das empresas) todas as transacções e os saldos dessas mesmas transacções entre as empresas e as suas partes relacionadas (órgãos de gestão e de fiscalização, trabalhadores, empresa-mãe, e empresas participadas, bem como com todas as entidades directa ou indirectamente com elas relacionadas – empresas, cônjuges, parentes, etc.). A análise dos conflitos de agência nas empresas assumiu especial relevância após o colapso da Enrom, que arrastou consigo o seu auditor, a Artur Anderson, devido a conflitos de agência com os seus executivos, administradores, pessoal, e inclusive, e principalmente, com o próprio auditor.
A Enrom Corporation era uma das maiores empresas de gás natural e electricidade dos Estados Unidos. Em 2000 era um conglomerado gigantesco constando no ranking da Global Fortune 500, como a 16ª maior empresa do mundo e a 7ª dos EUA, sendo a 1ª no sector de energia. Em Agosto de 2000, levantaram-se suspeitas sobre informações manipuladas pela Enron com partes relacionadas. Descobertos, os problemas da contabilidade criativa da empresa despoletam uma série de acontecimentos que culminam com a sua falência, decretada em Dezembro de 2001. A falência da Enron é considerada a maior da história dos EUA.
A Artur Anderson era uma conceituada empresa norte americana de auditoria, uma das “big five” mundiais da auditoria. Para além de ser o auditor da Enrom, a A. Anderson prestava à mesma serviços de consultoria milionários. Com receio de perder os contratos de consultoria, fechou os olhos aos conflitos de agência e às manipulações contabilísticas da empresa. A Artur Anderson perdeu credibilidade e não pôde mais continuar no mercado, tendo encerrado as portas definitivamente, por falência em 2002.
Sendo um agente de cobrança funcionário da sede da empresa de que é agente, é natural que beneficie da complacência e cumplicidade dos seus colegas de trabalho do Departamento Financeiro, e prolongue o prazo de retrocessão das receitas cobradas à empresa, financiando-se a si próprio em primeiro lugar, em detrimento da Tesouraria da empresa sua agenciada. Pode por isso, com o dinheiro da sua Principal, fazer aplicações financeiras de curtíssimo prazo, ou investir no financiamento de uma outra actividade empresarial própria. Tudo está bem enquanto tudo corre bem. Mas, e se, p.e., o agente aplicar o dinheiro em algum investimento de curto prazo, de grande rentabilidade e de alto risco, e este correr mal? Como o agente é empregado da empresa, certamente ter-lhe-á sido poupado o custo de uma garantia bancária. Em caso de falência do agente, como é que a empresa recupera o seu dinheiro (dinheiro dos accionistas)? É a isso (mas não só) que se chama conflito de agência. Não digo que a questão se ponha, em relação à Electra e à sua funcionária-agente.
É só uma formulação teórica. Mas, o certo é que, em uma das minhas missivas ao anterior CA da Electra, dava-lhes conta da situação humilhante como eram atendidos os clientes da empresa, num posto de cobrança na Av. Invicta: um buraquinho, em que as pessoas aguardavam à porta, por falta de espaço no interior, expostos aos elementos, ainda mais correndo o risco de serem colhidos por algum carro desgovernado, numa via de grande circulação de viaturas. Eu, ainda eu não tive resposta à minha missiva. Em contrapartida, devidamente avisada a agente, o buraquinho foi encerrado e abriu-se um novo posto de cobrança em instalações agora inatacáveis. Em conclusão, usou-se a informação de um potencial concorrente para consolidar a posição da empregada-agente, que beneficia de informação privilegiada dos colegas (ou será da própria Administração?).
É claro que, enquanto cidadão, eu, todos nós, temos o direito de exigir, de velar para que aquilo que é património do Estado, logo de todos nós, seja gerido com ética e no interesse de todos nós, com tratamento igual a todos os concidadãos, por aqueles que disso foram incumbidos e para tal são pagos. Mas, pessoalmente, não tenho nada contra o empreendedorismo da funcionária de Electra, detentora do monopólio das agências de cobrança da empresa em S. Vicente. Se a Administração da empresa não vê mal nisso; se as auditorias da empresa, cuja missão é a salvaguarda do seu património, também não vêem mal nenhum nisso, quem sou eu? Mas, Renato Cardoso escreveu e Ildo Lobo cantou: “tude criston, tude simbron, tem direit na sê góta d’ága”; Txey escreveu e cantou: “kmê, dxá-me kmê tambê”. O problema é que, como cantou Zeca Afonso, em “‘Os Vampiros’, eles comem tudo, eles comem tudo, eles comem tudo e não deixam nada”. Com que direito, uma pessoa só pode ter emprego na Electra e ter mais três postos de cobrança da empresa, e eu, e outros que já manifestaram interesse, não podemos ter nem um só? Sem contar que a sua empresa, através da qual presta o serviço à Electra, enquadra-se numa das mais florescentes e atractivas actividades industriais em S. Vicente, e noutros pontos do país, que até atrai investidores estrangeiros: a indústria da panificação.
Concluindo, queria desejar sucessos ao novo Conselho de Administração da Electra, agradecendo-lhe que, finalmente, agora que ainda estão frescos no lugar (embora só haja uma entrada nova), se dignem olhar para o meu processo, e me dêem uma resposta. E termino com a mesma frase que utilizei no e-mail enviado à Directora Comercial da Electra Norte, a 21 de Fevereiro do corrente ano, com as necessárias adaptações: espero uma resposta favorável. Mas creiam que uma resposta negativa sempre será melhor do que esta exasperante e indefinida espera.
Mindelo, 08/03/2018

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