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Política

2016: Previsão de disputa renhida no ano de todas as eleições em Cabo Verde

Cabo Verde realiza em 2016 eleições legislativas, autárquicas e presidenciais, disputa eleitoral que analistas locais estimam venha a ser a mais renhida dos últimos 15 anos e num contexto de maior contestação social.
A maratona eleitoral arranca a 20 de março com as legislativas, escrutínio em que o Partido Africano da Independência de Cabo Verde (PAICV), no governo desde 2001, e agora liderado por Janira Hoppfer Almada, vai tentar segurar o poder, depois de três maiorias absolutas consecutivas conquistadas pelo ainda primeiro-ministro José Maria Neves.
A atual ministra da Juventude, Emprego e Desenvolvimento dos Recurso Humanos ganhou a liderança do partido em janeiro e, em caso de vitória do PAICV, poderá tornar-se na primeira mulher a liderar o governo do país.
O Movimento para a Democracia (MpD) aposta no líder do partido e atual presidente da Câmara da Praia, Ulisses Correia e Silva, para regressar ao poder, 20 anos depois da última maioria qualificada conquistada então pelo histórico líder Carlos Veiga.
Analistas políticos ouvidos pela agência Lusa estimam que nas próximas eleições o cenário de maioria ou maioria absoluta de qualquer um dos partidos seja mais difícil de conseguir e não arriscam previsões sobre quem formará governo depois de 20 de março.
Manuel Brito-Semedo, professor e antropólogo cabo-verdiano, antevê uma “uma luta renhida e desesperada”, sobretudo por parte do PAICV.
“O PAICV tem todo o ADN de um partido único. Já vai em três mandatos e o discurso da presidente é de continuidade, de que estão no caminho certo”, disse, adiantando que a sociedade cabo-verdiana está cansada e quer mudanças.
“Percebo que há no ar um sentido de que é preciso mudar”, disse.
Por seu lado, o académico e antigo embaixador de Cabo Verde em Portugal, André Corsino Tolentino, adiantou à agência Lusa que o que está em causa é perceber se o PAICV e o MpD são diferentes na abordagem dos problemas.
“Em termos globais, o MpD utiliza praticamente a mesma linguagem que o PAICV. O MpD não apresenta, de forma inteligível e clara, soluções para os problemas que se possam chamar alternativas”, disse.
“Pelas sondagens conhecidas, se as eleições fossem hoje, tanto o MpD como o PAICV podiam ganhar. Provavelmente nenhum dos relativamente grandes partidos vai obter maioria absoluta e a maioria relativa projetaria um ou dois pequenos partidos, reduzindo a arrogância dos grandes e submetendo o país a uma nova prova”, acrescentou.
Estimou, nesse sentido, que a União Cabo-Verdiana Independente e Democrática (UCID) venha “a ter um papel crescente” e mostrou-se expectante quando à prestação eleitoral do novo partido, o Partido Popular, recentemente inscrito no Tribunal Constitucional.
Corsino Tolentino prevê ainda o aumento da contestação social na sociedade cabo-verdiana, depois de este ano e pela primeira vez, ter surgido no país um movimento organizado de contestação política, do número recorde de greves e dos inéditos pedidos de demissão de vários membros do Governo.
“Independente de quem seja o Governo a nível nacional ou municipal terão que se preparar para a contestação crescente. Há o aumento do desemprego e o aumento da consciência desse desemprego e isso cria uma tensão que não sabemos até onde o tecido social a aguentará”, considerou.
Para Brito-Semedo, o aumento de contestação resulta sobretudo da “acumulação de uma série de questões ” causadas pela “inépcia de ministros que não dialogam e não têm capacidade para resolver as coisas.”
“Já se “pediu a cabeça” de vários ministros, coisa nunca antes vista em Cabo Verde”, disse.
O próximo ano abre também a possibilidade de Cabo Verde eleger uma mulher como primeira-ministra, fator que os dois analistas consideram não terá grande impacto nas decisões dos eleitores.
“É uma grande conquista chegar uma mulher, mas não vamos eleger uma mulher por ser mulher ou uma jovem por ser jovem. Vamos eleger uma mulher com capacidade ou uma jovem com capacidade. Esta é que é a questão”, considerou Brito-Semedo.
No mesmo sentido, Corsino Tolentino defende que os critérios que contam na avaliação de um primeiro-ministro são a competência, a transparência ou a frontalidade e não o género.
“A partida não é garantia de nada nem pela positiva nem pela negativa, mas acho que terá significado político. Se virmos a proporção entre o masculino e o feminino na composição da população, será legítimo, justo e equitativo Cabo Verde ter uma primeira- ministra e ter dentro de alguns anos uma Presidente da República”, disse.
Mais para o final do ano de 2016, os eleitores cabo-verdianos serão também chamados a eleger o Presidente da República e, para já, tudo aponta para a recandidatura do atual chefe de Estado, Jorge Carlos Fonseca, da área do MpD.
No campo do PAICV, o nome de que mais se fala é do atual primeiro-ministro José Maria Neves, uma hipótese até ao momento nunca admitida abertamente pelo próprio, que por diversas vezes disse sobre o seu futuro, que regressará à docência.
“O comportamento da líder do PAICV e do líder do governo cheira a cumplicidade política. Só se fala de José Maria Neves candidato e o não dele próprio é cada vez menos categórico”, considera Corsino Tolentino, mostrando-se convencido que o atual primeiro-ministro irá defrontar Jorge Carlos Fonseca nas próximas presidenciais em Cabo Verde.
Manuel Brito-Semedo encara, por seu lado, uma eventual candidatura de José Maria Neves a Presidente da República como “uma ambição normal e legítima para um homem com o percurso político dele”.
Mostra-se contudo cético quando ao sucesso de uma candidatura já nas próximas eleições.
“Perdendo o PAICV fica muito mais difícil de imediato. De há uns tempos para cá José Maria Neves está com uma agenda própria. Diz que não quer ser candidato, mas não estou a vê-lo daqui a um ano como meu colega na Universidade de Cabo Verde. Isso não vai acontecer, ele tem grande capacidade e pode fazer outras coisas e preparar-se para depois ser Presidente da República. Entrar logo como Presidente da República, acho que não tem hipótese”, disse.
Entre as eleições legislativas e as presidenciais, o país irá ainda ser chamado a eleger os representantes nas câmaras locais, onde atualmente o MpD é maioritário.
Corsino Tolentino lamentou à Lusa a oportunidade perdida de fazer os três atos eleitorais num só dia, sugerido que durante o próximo mandato os deputados trabalhem nas necessárias alterações legislativas para que tal possa ser uma realidade nas eleições seguintes.
Fonte: Lusa

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