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Opinião

Em busca de uma ideologia perdida

Carlos Sá Nogueira

O país vive um ambiente de efervescência ou de turbulência, mercê de um processo inusitado que tem mais de emocional do que de político.

O aproveitamento ou empolamento político que se fez das últimas movimentações de carácter cívico tem a ver com motivações avulsas que, em derradeiro, se consubstanciaram num único episódio – a manifestação de 30 de Março.

Na verdade, não é preciso ser-se analista ou bruxo para alcançar que a persistente e obsessiva manobra populista de Janira H. Almada (JHA), por sinal iniciada desde o anúncio da vacatura do lugar de presidente do PAICV, se deve ao quadro de afirmação política deficitária que a persegue e ao vazio ideológico que a envolve.

Estamos em face de uma chefe partidário que, ao demarcar-se da matriz ideológica e identitária do seu partido, se apresenta carente de ideias, de bandeiras e de apoio de importantes unidades de segmento qualitativo do PAICV.

Assim, despida da dimensão patrimonial e ideológica do seu partido, a senhora Hopffer. Almada parte para uma aventura política de alcance imprevisível e preocupante, em que a permeabilidade, a aleatoriedade e a promiscuidade políticas se erguem como traços dominantes e motivacionais.

Para a novel presidente do partido do Governo, as referências, o percurso e os valores, a par da coerência, a identidade e os padrões comportamentais deixam de fazer sentido quando o que está em causa é a conquista do poder.

A aspirante à chefia do Governo, no pleito de 2016, quer fazer passar a ideia de que é um corpo fora do sistema, enterrando a cabeça na areia à imagem de uma avestruz, e renegando a realidade que decisivamente se empenhou em construir, enquanto um dos protagonistas mais visíveis do Governo e seu porta-voz.

Aliança atabalhoada

A novel líder do PAICV corre sérios riscos de ser considerada, quer do ponto de vista partidário, quer do ângulo do seu Governo, como figura que atraiçoou a árvore genealógica da família tambarina, a que pertence. Basta que nos atentemos às alianças que, atabalhoadamente, pretende construir, sem se ater às balizas ideológicas e ao quadro de valores e de procedimentos estatuídos nos Estatutos e Programa do partido que dirige.

JHA quer romper-se com o passado sistémico a que está intrinsecamente ligada, apostando na memória curta para se desenvencilhar de certos embaraços governativos e partidários.

Para tanto, a líder do PAICV não se importa de se escudar em manifestações de aparência espontânea, arvorando-se em “defensora” da classe desfavorecida, num afã de rotura instantânea com o passado recente, onde não só foi (continua a ser) partidária fervorosa, como governante com assento privilegiado em sede de concertação social. E nesta última qualidade não se lhe conhece (e nem se lhe reconhece) com rasgos de inteligência e de liderança em defesa de melhores condições de vida da população, tampouco no capítulo de melhorias de condições salariais para os mais vulneráveis.

Atrás de uma manifestação de cariz cívico e de contornos reivindicativos, JHA aparece, em jeito de malabarismo e cinismo político, a secundar a manifestação, confundindo-se com ela e aproveitando-se, oportunisticamente, das próprias bandeiras do movimento e da agenda desenhada, circunstancialmente, pelos atores cívicos.

É assim que JHA protagoniza um golpe, a um tempo institucional e social, apropriando-se do processo reivindicativo e dos seus ingredientes.

É esta a forma que JHA escolheu para fazer política. Sem ideias e sem bandeiras, ela parte para o oportunismo, hipocrisia e parasitismo políticos, navegando à vista e apoderando-se, de forma gratuita e perigosa, de tudo o que lhe serve de trampolim para alcançar o poder. Poder por poder, poder a qualquer preço!

A líder do PAICV e seus correligionários não querem trabalhar e suar para objetivos nobres. Querem, é ser levado ao colo de alguém ou de alguma coisa. Privilegiando a guerrilha institucional, e porque não eleitoral, JHA dá sinais evidentes de que não sabe laborar na transparência, no institucionalismo e na legitimação construída, pela convicção e pela confrontação de ideias. Prefere a demagogia e a utilização de expedientes políticos pela calada da noite, onde todos os gatos tendem a ser pardos.

A governante e líder do partido da situação em vez de debater, prefere abater, utilizando armas apolíticas e antidemocráticas, que, muito embora pareçam ser eficazes num primeiro momento, se erguem como um verdadeiro rastilho de impacto incontrolável e efeitos nocivos, na construção da paz social e na preservação da estabilidade a todos os níveis. O país não precisa de políticos desta estirpe, qual vírus que se instalou no organismo social para contaminar a democracia e desacreditar as instituições da república, recorrendo a processos pseudodemocráticos.

Num ápice, a senhora Hopffer Almada transformou-se no arauto da discórdia irresolúvel e do conflito político de pendor arruaceiro. Em vez de desconstruir para construir, ela destrói. Para ela, vale mais ter o poder na rua de forma desordenada e descontrolada, para melhor poder induzir e manipular, à imagem do que faz com as associações de cariz social. Cabo Verde não precisa deste formato e, tampouco, destes processos onde a ordem e a paz social não vigoram.

É justamente nestes contextos que as pessoas não se ouvem, não se respeitam e nem se toleram. É precisamente nestes figurinos que a sociedade se torna permeável a todo o tipo de fenómenos antissociais e de devastação do património conquistado, semeando o vazio institucional e a desresponsabilização social.

“Golpe de Estado”

Num clima de absoluto desrespeito pelos colegas do seu partido e do governo, por um lado, e fustigada por uma oposição que não lhe reconhece estaleca nem perfil para conduzir o país, por outro lado, JHA prefere buscar suporte e legitimação na arruaça e na desordem social, recorrendo a atitudes que denunciam vontade de conspirar na escuridão e de realizar uma espécie de “golpe de Estado” sem armas, nem exercito.

Ao pretender desacreditar as instituições da república e os sujeitos políticos legitimamente eleitos pelo povo, a presidente do PAICV coloca-se como uma golpista, ao lado da subversão da ordem, protagonizando uma intentona que, a coberto de falsas cumplicidades sociais, tem unicamente o propósito de se fazer respeitar nos seus desígnios antidemocráticos e de busca desenfreada do poder.

A atual presidente do PAICV não está ao lado e nem do lado do povo. Está, sim, contra os políticos que não a deixam afirmar-se e chegar ao poder, por via de uma agenda parasitada e decalcada a partir de um formato cívico e circunstancial, que nada tem a ver com as suas deambulações políticas. E, para esse fim, nada como servir-se de um diploma legal para fazer valer os seus propósitos inconfessos.

Quem pôde observar os contornos e a natureza da manifestação, nos seus diversos slogans reivindicativos, tende a inferir que o movimento se constituiu por via de vários interesses e segmentos de motivação que não estavam necessariamente conjugados e imbricados.

O que se forjou, na verdade, foi um momento e uma oportunidade ideais para que diferentes grupos e sensibilidades pudessem exprimir, de forma específica e bem identificada, suas preocupações, descontentamentos, indignações, reservas e discordâncias, mas também desejos, aspirações e ambições.

É verdade que, nesse episódio, se pode igualmente destacar, a latere, incursões que escondem pretensões e ambições frustradas no quadro de lutas internas de cariz político-partidário, ao mesmo tempo que se pode identificar processos de constituição de poder de barganha, na mira de uma negociação política futura.

A aspirante à primeira-ministra teria sido mais justa, mais assertiva e menos hipócrita e perversa, se tivesse promovido uma manifestação em favor da melhoria das condições de vida dos trabalhadores e funcionários, reivindicando mais salário e conquistas sociais. Mas não o fez e preferiu enveredar-se pela via da capitalização do descontentamento face à classe política, num ato, temos de convir, de artifício político, não fosse ela parte integrante, efetiva e ativa dessa mesma classe.

O rosto pela pasta do emprego em Cabo Verde perdeu uma excelente oportunidade de lutar pelos mais desfavorecidos. Ela não lutou contra a imoralidade. Em boa verdade, a imoralidade reside nos índices dramáticos de desemprego, na marginalidade a que está votada a juventude, nas famílias que vivem abaixo do limiar da pobreza, na exclusão social e em outros estigmas e manifestações sociais inadmissíveis.

Sendo JHA uma das principais responsáveis por estes males sociais, é óbvio que ela jamais poderia conceber, tampouco protagonizar, uma manifestação pela causa dos mais vulneráveis, por sinal a que teria sido mais justa, oportuna e apropriada.

Do que é que a JHA tem vergonha, a ponto de renegar a sua família política, valores e paradigmas? Não temos dúvidas de que a JHA, pelo que é e foi, do ponto de vista social, comportamental e elitista, não poderia jamais identificar-se com os valores do “seu partido”, tampouco encarná-los numa perspetiva de continuidade e coerência.

A líder do PAICV corre a solo. Não tem matriz nem paradigma que se possa reputar de política e socialmente coerente e convincente. A sua única motivação é de cariz pessoal e a sua única orientação é de pendor populista, por conseguinte, de recurso demagógico.

Revelando-se como exímia incendiária, ela parece ter como única aposta deixar o país a arder numa fogueira política e social e depois empurrá-lo para um pântano político, enredado em incertezas, insegurança e promiscuidade política.                  

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