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Política

Tolentino ensaia “diplomacia com prestação de contas”

O corpo diplomático cabo-verdiano vai passar por uma nova série de mexidas. Os embaixadores Cristina Pereira (Berlim) e José Silva (São Tomé) estão já de volta à casa, pelo que se impõe encontrar quem os substitua. Mas mais do que novas nomeações, a palavra de ordem no MIREX é que ninguém mais vai ou regressa do exterior “sem prestar contas” do trabalho feito.
Nova série de nomeações de embaixadores está a ser preparada pelo Ministério das Relações Exteriores (MIREX), tendo em conta que vários diplomatas colocados no estrangeiro já cumpriram, ou estão em vias de cumprir, o seu tempo de missão. Um dos que se encontrava nessa situação é José Silva, colocado há mais de uma década em São Tomé e Príncipe, como cônsul-geral, que acaba de regressar à sede.
Um outro caso de regresso à casa é o de Cristina Pereira, embaixadora em Berlim, Alemanha, no seu caso a seu pedido, antes mesmo de concluir três anos no lugar. Razões pessoais, soube o A NAÇAO, estão por trás desse retorno.
Outras movimentações
Júlio Morais (China), colocado também há mais de 10 anos na China, é um outro caso de que se fala como estando de malas feitas para retornar à casa. Morais, note-se, é também embaixador de Cabo Verde no Japão. China e Japão são tidos, por razões óbvias, dois importantes parceiros deste arquipélago.
Note-se que a par de embaixadores há outras categorias – cônsules, secretários e até pessoal menor – que deverão também ser alvo de transferências e nomeações, momento este em que normalmente coloca os funcionários do MIREX na expectativa de uma “boa colocação”.
Porém, soube o A NAÇÃO, mais do que discutir quem vai ou quem vem, o tipo de representação de Cabo Verde no exterior está a ser neste momento “devidamente” ponderado pelo ministro Jorge Tolentino e a sua equipa, no sentido de conferir a esta nova “dança de diplomatas” um cariz mais profundo ou estratégico.
Desde logo, e na linha do que vinha sendo gizado há já alguns anos, ver, na presente etapa do desenvolvimento de Cabo Verde, onde convém realmente ter representações e que tipo de representações. Isto tendo em mira os altos custos que qualquer missão externa significa para os fracos recursos financeiros do país.
“Continuamos sem uma presença forte em Adis Abeba, Etiópia (sede da União Africana), da mesma forma que  continuamos ausentes também de Abuja, Nigéria, um país importante na nossa própria sub-região, o que não deixa de fazer muito sentido, tendo em conta a dimensão desse país”, constata um veterano do Palácio das Comunidades.
“Aliás, de um modo geral, a nossa presença em África continua a ser desguarnecida, o que não deixa de ser preocupante”, acrescenta o mesma fonte, salientando que o grosso dos diplomatas cabo-verdianos concentra-se na Europa, muitas vezes, “na mesma região” geográfica, “o que não faz muito sentido nos dias que correm”.
Carta de missão
O certo é que, acordo com as fontes deste jornal, mais do que nomear novos embaixadores, a actual política do MIREX encarnada por Jorge Tolentino passa, acima de tudo, por atribuir a cada novo representante de Cabo Verde no exterior a sua respectiva “carta de missão”, isto é, um “caderno de encargos” que o titular deverá cumprir e pela qual deverá responder durante e no fim do seu trabalho. “Em função do desempenho assim será avaliado”, resume um dos interlocutores deste jornal.
A primeira experiência do género é Jorge Borges, ex-MIREX, colocado em Janeiro passado em Bruxelas depois de alguns anos como ministro dessa pasta. “Ele é o primeiro embaixador a sair com uma Carta de Missão, um documento que, por ser o primeiro na história da nossa diplomacia, poderá ser melhorado com o tempo”, explicou um colega seu ao A NAÇÃO.
Com tal instrumento, no dizer das nossas fontes, o embaixador deixa de estar por sua própria conta, como até aqui vinha acontecendo. “Até aqui o desempenho de cada embaixador acabava por ser do próprio visado – se for dinâmico isso reflectia-se no seu trabalho, caso contrário, limitava-se a cumprir o tempo de estada, o que para um país como Cabo Verde não faz muito sentido”.
A carta de missão, pelo que este jornal apurou também, faz parte de um dos princípios já consensualizados a nível do Conselho Diplomático, órgão de consulta do ministro das Relações Exteriores, que acaba de ser reactivado ao fim de mais de 10 anos de inoperância. Instituído no tempo de Victor Borges, nunca mais funcionou, cabendo a Jorge Tolentino a sua reactivação no passado dia 31 de Março, com uma reunião onde várias questões relativas à política externa e ao funcionamento do MIREX foram passadas a limpo.
A ideia forte neste momento, designadamente no que toca às próximas colocações, é que ninguém começa qualquer nova missão como embaixador sem uma carta de missão. “E ninguém termina ou fecha a missão sem apresentar contas é também um outro princípio assente, doravante. Há missões que há anos não apresentam uma conta sequer, coisa que o Tribunal de Contas já nos chamou, muitas vezes, a atenção”, sublinha um dos informantes deste jornal, para quem, com Jorge Tolentino, o MIREX está a passar por uma “melhoria silenciosa”.
“Para todos os efeitos”, explica a referida fonte, “ele é um quadro da casa, conhece bem o sector, e sabe o que deve ser feito para melhorar o que é preciso melhorar. Aliás, esta é a principal marca do Tolentino por onde tem passado, diga-se também. Foi assim quando esteve na Cultura, foi assim com ele na Defesa, por isso estamos esperançados que ele consiga o mesmo agora que está no MIREX”, conclui.

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