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São Vicente

“Escravos” no alto mar: Contratos e vistos sob suspeita de “falsificação”

Os contratos de quatro tripulantes que partiram do Mindelo a bordo do rebocador turco Sir Michael rumo à Turquia não possuem carimbo de nenhuma instituição. Além disso, suspeita-se de que os vistos colocados nos respectivos passaportes sejam falsificados. A saga desses marítimos, que chegaram a fazer trabalho “escravo” no alto mar, assume contornos policiais, tendo a Tunísia apreendido um dos tankers que Sir Michael rebocava desde a Nigéria.
José Manuel Santos Boaventura, que chegou a ser dado como desaparecido pelos companheiros dessa aventura, conta ao A NAÇÃO que depois que passou de Sir Michael para um rebocador italiano ficou à deriva duas vezes. Na primeira vez por um período de quatro dias e, na segunda, três dias. Nesse meio tempo, viu a Tunísia apreender um tanker que entretanto Sir Michael rebocava desde a Nigéria e que se soltou no alto de mar.
“Nós fomos salvos por um rebocador de Malta, denominado Leon, que nos levou – eu e um nigeriano – para Itália depois de nos separarmos do companheiro de Sir Michael. Mas o tanker ficou por lá porque, certamente, e os tunisinos suspeitaram das movimentações que fazíamos para o tentar recuperar. Tratando-se de uma zona de muita passagem de droga, fizeram mesmo a apreensão do tanker”, conta José Boaventura, que diz ter “penado horas seguidas” a limpar tanques de combustíveis na viagem entre Cabo Verde e Nigéria sem nenhuma protecção e sem receber um tostão pelo trabalho extra.
Ou seja, Boaventura fazia um trabalho duro que, segundo  entendidos, só deveria ser executado num estaleiro naval com a devida protecção, dormia pouco e voltou a Cabo Verde, após prestar serviço em outros navios, sem ver concretizada a promessa de que teria remuneração extra. E tem pouca esperança de receber o dinheiro porque o contrato que ele e colegas firmaram directamente com o capitão do Sir Michael, que assina como Sendar Halil Ibrahim, não tem qualquer suporte institucional.
Aliás, como este jornal pôde verificar, o suposto contrato não passa de um amontoado de folhas escritas em turco com tradução para o inglês no qual o capitão, que terá sumido assim que Sir Michael chegou à Turquia, compromete-se a pagar José Boaventura 850 dólares norte-americanos por um mês de labor durante a viagem que se iniciou em Setembro do ano passado e terminaria em Dezembro último.
Falsificação?
A questão mostra-se complexa em várias dimensões, pois, além dos documentos de contornos pouco claros e de indícios de trabalho “escravo” no alto mar, suspeita-se de que os vistos existentes nos passaportes dos marítimos sejam falsificados. Para já, são colocados descuidadamente no sentido inverso ao cabeçalho dos passaportes, o que motivou desconfiança dos marítimos que só tiveram acesso ao documento de viagem quando já estavam a caminho do aeroporto de regresso a Cabo Verde.
Por causa desses sinais, assim que o A NAÇÃO teve acesso aos passaportes enviou, através do cônsul honorário, cópias à Embaixada da Turquia, com sede em Dacar e acreditada em Cabo Verde, para se averiguar a autenticidade dos vistos. Mas até ao fecho desta edição, ainda não havia qualquer reacção da Embaixada.
A história desses marítimos veio a público na edição deste Jornal de 15 de Janeiro passado. Logo depois, a Embaixada da Turquia quis saber em que circunstância os tripulantes de Sir Michael partiram de São Vicente e os contornos da saga desses homens que passaram maus bocados durante a viagem. Feito o pedido, este jornal retomou a investigação e descobriu em resposta que a uma solicitação da Capitania dos Portos de Barlavento, o agente do turco rebocador, que assina pelo nome de Gokhan Kazaz, informou que emitiu duas passagens em nome de João Rocha, que se encontrava nos estaleiros de Istambul, e de José Manuel Santos Boaventura, que desapareceu dos olhos dos companheiros no largo da Tunísia quando Sir Michael teve problemas com dois tankers que rebocava.
Na verdade, foram quatro contratados em São Vicente – Ailton Neves, Victor (este natural da Guiné Bissau), José Boaventura e João Rocha – para levar o rebocador para Turquia. Partiram do Porto Grande mas desviaram a rota para Nigéria e Gana, onde rebocaram dois tankers e rumaram de seguida à Europa.
Conta o jovem Ailton, um dos dois que regressaram a Cabo Verde no início de Janeiro após pedir ajuda à polícia turca, que tiveram muitos problemas na viagem, perderam um dos tankers devido ao mau tempo e passaram 10 dias a tentar recuperá-lo. Foram obrigados a fazer manobras perigosas e depois de algum tempo receberam ordens para seguir viagem porque um rebocador italiano, para onde foi transferido José Boaventura, mais conhecido por Naiss Expediente, tentaria o tanker.
Chegando ao estaleiro Tersane, em Istambul, depois do rebocador Sir Michael “mudar de bandeira por três vezes” durante a viagem – saiu de Cabo Verde com a bandeira da Tanzânia, depois colocou a de Honduras e quando chegou à Turquia mostrava a de Panamá – Ailton, Victor e João Rocha pediram informações de Naiss Expediente aos agentes turcos, mas foi-lhes recusada qualquer notícia. Entretanto, começaram a perceber que teriam dificuldades em sair da Turquia, porque, logo assim que chegaram ao destino, o capitão do rebocador terá sumido e tiveram os seus documentos, cédula e passaporte, retidos.
Dias difíceis
Os marítimos cabo-verdianos e o guineense passaram dias em Tersane a pão e sumo, até resolverem pedir ajuda a um conhecido turco para entrar em contacto com a polícia do distrito de Tuzla. Só após a pressão da polícia, Ailton e Victor conseguiram recuperar os documentos e regressaram a Cabo Verde, com vida, no passado 7 de Janeiro. Para trás deixaram João Rocha, de 62 anos, que entretanto já retornou também ao país depois de passar mais uns dias em Istambul. Assim como José Ventura, que antes passou por Itália de onde ainda ajuda a rebocador outro barco para a Turquia.
Sobreviventes de dias difíceis, assim que chegaram a São Vicente, Ailton e Victor deram o caso a conhecer às autoridades marítimas e batalham agora para receber o dinheiro do trabalho extra. Mas restam-lhes poucas esperanças de alcançar tal propósito. Como lição, fica o alerta da Capitania dos Portos de Barlavento  de que os marítimos devem contactar as autoridades marítimas cabo-verdianas antes de assinarem qualquer contrato para trabalharem no estrangeiro porque podem cair em enrascadas como a desses tripulantes de Sir Michael.
 
 

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