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Cultura

Tereru di Amizadi: Casa de todos onde ninguém é dono

A cena está a tornar-se cada vez mais comum: todas as quintas-feiras, na Uni-CV, estudantes, professores e convidados reúnem-se para a celebração de um ritual, em plena luz do dia, na qual todos participam activamente. Agrupam-se, num espaço a céu aberto, para discutir ou debater os mais variados assuntos. É o “Tereru di Amizadi”.
No início era um grupo reduzido que entretanto foi crescendo e continua a crescer. A cerimónia, com cantos e danças, tem atraído pessoas inclusive sem vínculos com a Universidade de Cabo Verde. O rito acontece debaixo de uma árvore, que ostenta a placa: “Tereru di Amizadi”.
O espaço foi criado por Romeu de Lurdes e Edson Gomes, dois jovens estudantes, que, pouco a pouco, foi despertando o interesse de outros alunos e artistas. “Tereru di Amizadi” é hoje uma mistura de música, dança, declamação de poemas e debates. Cuscuz e chá também fazem parte do cardápio.
Romeu de Lurdes explica que há muito frequentava o local, onde o chão é dividido entre calcetas e terra batida, mas a ideia de transformar o lugar veio de repente. “Estive naquele sítio a lanchar e a pensar o que se pode fazer ali. É que no Centro de Juventude, da Praia, temos um espaço do tipo. Mas logo no início não tive coragem de avançar. A vida universitária é bastante agitada”, conta.
Entretanto, o que veio dar um empurrão à ideia foi um encontro com Kaká Barbosa, no lugar que passaria a chamar-se Tereru di Amizadi. “Convidámos Káka para vir conviver connosco, mas não poderíamos recebê-lo no anfiteatro, nem noutro espaço ao lado da cantina, que são supostamente os ideais”, diz o entrevistado do A NAÇÃO. “Fizemos a nossa reunião e o encontro foi fantástico. Kaká salientou que o melhor lugar para ‘konbersu é baxu pé di pó’. Isso transmitiu-me muita confiança. E partimos para acção”, relembra.
ARQUITECTURA
A animação inicia-se às 14 horas com “Sanbuna”, momento dedicado à poesia e à música. Artistas, até mesmo alunos, arriscam em soltar a voz. Cada um dos presentes declama ao seu estilo, mas todos conquistam sorrisos e aplausos. E de seguida é a vez de “Nobresa”, com a apresentação de uma figura africana que se destacou durante a vida.
Edson Gomes, estudante e dinamizador também do espaço, prepara-se, durante a semana, para na quinta-feira dar a conhecer a “nobresa africana” aos presentes. Tereru di Amizadi prossegue com “lengalenga”, adivinhas e anedotas. E encerra com “konbersu sabi”. Aqui os presentes debatem e interagem com convidados, deliciando-se com o tradicional cuscuz e chá.
Os dinamizadores afirmam que, com o Tereru di Amizade, pretendem fazer com que a “universidade”, neste caso a Uni-CV, seja “mais universal”, isto é, ir além do programa das disciplinas. “Já estão a nascer novos e grandes poetas. Pessoas que escrevem para declamarem no Tereru. Há estudantes que tinham complexos de falarem em público, mas que hoje enfrentam a multidão sem problemas. Há casos também de gente fora da universidade que mostra interesse em participar do encontro”, afirma Romeu.
PARTICIPAÇÃO DOS ARTISTAS
Inaugurado a 27 de Novembro de 2014, Tereru di Amizade recebe, todas as semanas, dezenas de estudantes e professores, como também personalidades sonantes da cultura destas ilhas. Mizá, Tradison di terra, Abraão Vicente, Ferro Gaita, Zezé di nha Rinalda, Ceuzany, Bob Mascarenhas e, entre outros, Gylito são alguns nomes que já marcaram presença e partilharam a sua experiência de vida. “Criar este espaço é uma boa iniciativa. A universidade é o lugar em que as ideias nascem e o Tereru serve para divulgar e partilhar estas ideias”, diz Princezito.
“Penso que isso é que faz a universidade ser academia e universidade. Um espaço de partilha, mas não uma partilha inocente e desinteressada. Vi que há muitos estudantes interessados e com talento de fazer perguntas. Pessoas que não questionam não estão preparados para estar na academia”, sublinha Abraão Vicente.
Para Romeu di Lurdes, Tereru di Amizadi tem trabalhado na confraternização entre os estudantes e os artistas. “Os artistas representam-nos enquanto cabo-verdianos, é bom saber o que pensam, o que estão a fazer, etc. No Tereru tiramos fotos, partilhamos experiências, cantamos e declamamos poemas”, salienta.
OUTROS PROJECTOS
Já para este novo ano, os organizadores de Tereru di Amizade pretendem realizar uma oficina de artesanato, para dar a conhecer aos estudantes uma “mais-valia” no mercado de trabalho.
“Já contactei os artesões, estamos à procura de patrocínio. Essa formação será bastante importante, porque, para além de estarmos habilitados a trabalhar na nossa área de formação universitária, estaremos aptos a criar como artesões. Será uma mais-valia e menos probabilidade de sermos desempregados”, acredita Romeu de Lurdes.
DP

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