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A cidades e seus quase cinemas 

Por: Filinto Elísio

Largo dos Prazeres 

Bem ao pé de casa, mais precisamente no Largo dos Prazeres, a praceta já apinhada de turistas. Sempre achei bestial chamar-se o cemitério “dos Prazeres” e como isso remete à Nossa Senhora da Boa Morte, na cidade de Redenção (Brasil). Fila que nunca mais acaba para o elétrico 28E e o “amarelo da Carris” há de os levar ao Martim Moniz. Não posso deixar de recordar e de rir sem qualquer siso, revivendo a crónica de Fernando Assis Pacheco, in “O Homem na Cidade”. E as duas senhoras que se digladiam durante a trajetória no “amarelo dos anos 60”. Mais não digo, do conto, para que o leiam…

Nova África – para além do além

O século XXI é, para muitos, a era da África. Da Nova África. De vez em quando, retoma-se este ideário da Nova África, mas a ambição que se formula não engloba de forma consequente os direitos humanos, a defesa da democracia e do Estado de direito, e a promoção da liberdade, do diálogo intercultural e da fraternidade entre os cidadãos africanos. Seria essencial que a voz dos cidadãos e as suas legítimas aspirações ressoassem mais não só pelo mundo, mas também (e sobretudo) pelos nossos países. A Nova África, para que seja realmente nova a nível continental, precisa de se transformar mais decididamente através de uma agenda de desenvolvimento sustentável, apartando-se, de permeio, do ‘endocolonialismo das elites’ e do absentismo democrático. Há riscos? Claro que há riscos. Em verdade, a tentação para se manter o estado das coisas, a desculpabilização histórica a evitar mudanças estruturais e a reserva com que muitas vezes se encaram as ideias representam, elas próprias, o maior risco para a realização da Nova África. Impõe-se ir para além do além, como sentenciou o poeta senegalês Birago Diop: “Nós vamos pelas sendas / Pelas sendas e pelas estradas / Para além do mar e mais além, mais longe ainda / Para além do mar e para além do além”. Go Africa!

Retorno à “Paz de Deus”

Cabo Verde era retratada na famosa morna como terra de “esse Paz de Deus”. Todavia, o recrudescimento da criminalidade e da insegurança vem dizer que os versos da morna é distante utopia. A realidade nos bate de frente e nos assalta nas esquinas. O que fazer? Agravar as penas para crimes violentos e de sangue? Não será pouco, mas configurará suficiente? Vemo-la suficiente enquanto medida isolada? Tolerância zero das forças da ordem e dos tribunais, desde que guarnecida com medidas ativas de integração social e de educação cidadã. Há uma mudança de paradigma e de abordagem a ousar. Sobretudo, há que não resignar, nem baixar a guarda. Estará em causa a defesa de valores da paz, da convivialidade e da civilidade, bem como da integridade individual, familiar e social, algo que, sabemos, não tem preço. Nestes tempos em que se nos estalou o “ovo da serpente”, o nosso dever é pela inversão consequente das coisas. E longe já vai a Morabeza. A propósito, alguém a viu por aí?

História de cinema

Já ouviram falar de Marcelino Manuel da Graça (nascido a 25 de Janeiro de 1881, na ilha da Brava e falecido a 12 de Janeiro de 1960 em New Bedford), mais conhecido por Sweet Daddy Grace? Ele foi um maiores líderes religiosos da América, no século XX, tendo deixado mais de três milhões de seguidores e uma fortuna avaliada em 80 milhões de USD. Em 1919, Daddy Grace construiu o seu primeiro templo, o “House of Prayer”, em West Wareham, Massachusetts, dando expressão à congregação apostólica United House of Prayer for all People. Conhecido por uns como um tipo excêntrico e para outros um “profeta do outro lado do mar”, weet Daddy Grace, aliás Marcelino Manuel da Graça, é uma história digna de cinema. Cinema a sério, se me faço entender.

Praaia

Vê-se que releio “Luaanda”, de Luandino Vieira. Ali cidade-musseque, cidade imunda, cidade-mundo. Aqui cidade-desigual, no tribunos do feio e do grotesco, para o gáudio de uma elite feita à pressa. Praaia, minha cidade (por mais voltas que dê não terei outra), mais fria e brumosa que habitualmente. Da manifestação dos taxistas a estrangular o Plateau e como antevejo do miradouro à construção de uma ponte a caminhar-se para o ilhéu. Praaia, cidade minha (como amiúde no poema de Jorge Carlos Fonseca), amada visceralmente. Sei que não compreenderão alhos à mistura com bugalhos e que a citação à farta dos poetas cansa-vos sobremaneira. Entrementes, João Vário era às tantas num poema assim:

(…)

E tudo é crime, ou crime sempre, crime ou crime,

Criminosissimamente crime

(…)…

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