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Opinião

Algumas reflexões sobre o culto do homem forte

Arsénio Fermino de Pina*

Ao longo da leitura de “A História Oculta dos Anos Kennedy”, de David Talbot, publicada em 2007, agora traduzida e publicada pela revista Sábado, fui tendo a percepção de que estamos, actualmente, revivendo a época terrível dos irmãos Kennedy, John e Robert, devido à debilidade intelectual, disfarçada em homens fortes, de governantes das grandes potências, ao ambiente neoliberal de capitalismo selvagem com predomínio financeiro na esfera política e económica, à promiscuidade obscena entre a política, os grandes interesses económicos e a banca, interesses de tamanha grandeza que ultrapassam o poder económico de certos Estados. Em consequência dessa promiscuidade, o predomínio da corrupção, da fuga de capitais e ao pagamento de impostos facilitada por sucursais bancários chamados offshores, paraísos fiscais, facilitada pela ausência de regulação das actividades económicas imposta pelo neoliberalismo e pela degradação da ética e moral de alguns políticos.

Vivemos no mundo dos Trump e de Bibi Netanyahu, de teocracias árabes armadas até aos dentes protegidas por quem lhes compra armas, teocracias sem constituições nem parlamentos, não respeitando os direitos humanos, e ainda novos “homens fortes” com pendor para a extrema-direita nos países da ex-União Soviética, desiludidos do comunismo, riscos de contaminação de países como a Austria e quase certeza de contaminação da Itália na sua coligação governamental recente com a extrema-direita. O risco maior é Trump se deixar levar por Bibi e o príncipe herdeiro da Arábia Saudita, por se encontrar rodeado de ministros, assessores e militares favoráveis ao uso da força em detrimento da negociação. Alguns observadores estão mesmo convencidos de que Trump, na sua inclinação de contrariar tudo quanto fez Obama, por não possuir nenhum bom senso nem experiência política e diplomática, desejar construir um novo Médio Oriente, utilizando Israel, a Arábia Saudita e Egipto (=sunitas) contra o Irão (xiita), o que levaria, seguramente, a piorar a situação no Médio Oriente, por o Irão se estender militarmente até à Síria e este país ser aliado e zona de influência da Rússia, tacitamente aceite pelos EUA.

No tempo do Presidente John Kennedy, tanto na crise de Berlim (1961) como na dos misseis em Cuba, as altas patentes militares exigiam uso da força nuclear, num ataque de surpresa, tentando convencer o Presidente de que a União Soviética não iria ripostar, quando, numa conferência em Havana, em 2002, assinalando o quadragésimo aniversário da crise dos mísseis cubanos, os antigos funcionários de Kennedy ficaram atónitos quando souberam, através dos seus homólogos russos, que as forças nucleares russas estavam prontas a disparar durante o confronto. Havia 40.000 soldados em Cuba, e não dez ou doze mil como acreditavam os militares. O Estado-Maior americano garantia não haver ogivas nucleares em Cuba nessa altura, o que era falso. Kennedy resolveu as duas situações sem guerra: em Berlim, com uma ponte aérea, e em Cuba, dialogando telefonicamente com Kruchev, chegando a um acordo. Presume-se que se fosse Nixon presidente na altura, este teria aprovado a posição de força dos militares, motivando uma catástrofe incomensurável para todo o mundo. O estatuto de herói de guerra de Kennedy permitiu-lhe desafiar o Estado-Maior das Forças Armadas, apoiado por colaboradores jovens, universitários, a quem tratavam “como irmãos e membros da família”; esses “homens fortes” comparavam John Kennedy a Chamberlain a lidar com Hitler, brando de mais, um medricas. Será que se pode esperar de Trump o bom senso manifestado por Kennedy em situações similares? Obviamente que não, por ser um governante que rasga acordos internacionais que levaram anos a ser atingidos, somente por terem sido obtidos pelo seu antecessor. É da mesma cepa de Bibi Netanyahu, e a sua última decisão de transferir a Embaixada dos EUA de Telavive para Jerusalém dá uma ideia da sua falta de senso. A actuação do Governo de Bibi fez desaparecer toda a simpatia conquistada por Israel, pelos seus ideais iniciais baseados numa democracia de inspiração socialista. Com Trump, Bibi sente-se seguro, por lhe aparar todos os golpes, e garantir o não cumprimento das decisões do Conselho de Segurança das Nações Unidas, utilizando o seu direito de veto.

Os assessores de Trump são todos da linha dura pertencendo a chefias militares já criticadas pelo antigo Presidente Eisenhower no seu discurso de despedida da Casa Branca, denunciando o “Complexo Militar-Industrial (e “congressional”, palavra retirada à última hora do rascunho do discurso, por conveniente pudor)”. Os mesmos assessores e tipos militares que, em conluio com a CIA, levaram Bush filho a cometer o enorme erro de destruir o regime do Iraque com o falso pretexto de possuir armas de destruição maciça inventado pela CIA e companhia limitada.

Na época de Kennedy, além do Complexo Militar-Industrial e do Congresso, havia o director do FBI, Hoover, inimigo dos Kennedy, a CIA e a Mafia, esta ressentida com a ingratidão dos Kennedy, visto o pai dos Kennedy, Joe Kennedy, ter tido compromissos com a Mafia, que contribuíram para a eleição de John Kennedy a Presidente, facto que os filhos vieram a saber mais tarde, mas que não impediu a Robert Kennedy, enquanto consultor principal de um Comité Especial do Senado, o Comité sobre Extorsões, a enfrentar bandidos sindicalistas ligados à Mafia, como Joey Gallo e Jimmy Hoppa. Como procurador da República continuou essas actividades contra a Mafia e elementos da CIA que utilizavam esta e elementos anticastristas para golpes baixos. Bandidos que a CIA, quando havia possibilidade de serem interrogados por peritos do Ministério Público, eliminava. Lee Oswald, foi morto na presença de polícias por Jack Ruby, outro bandido pago para o efeito por Jimmy Hoppa, por recearem que pudesse falar. O Comité Church (1975) investigou os abusos do poder da CIA (que dispunha de 400 jornalistas avençados para desinformar a população), do FBI e de outras agências de informações, sendo as descobertas mais explosivas, os esforços da CIA para assassinar Lumumba, Rafael Trujillo, Ngo Dinh Diem, o general chileno do tempo de Allende, René Schneider e Fidel de Castro. Descobriu também que Lee Oswald tinha contactos com os serviços de informação. O famoso senador Fullbright afirmou que se vivia na base do que entendia ser uma cultura militar politizada bastante à direita, ostensivamente insubordinada. À semelhança do que aconteceu ao general De Gaulle, quando militares e políticos contra a independência da Argélia tentaram assassiná-lo, isso poderia acontecer a Kennedy, até porque a cultura política americana é de violência, o que realmente veio a acontecer, incluindo o irmão, Robert, quando estava a dois passos da Presidência. Só muito mais tarde, se veio a saber que o Relatório Warren se tinha enganado, afectada pela febre anticomunista engendrada pelo senador McCarthy, de “antes morto do que vermelho”, ao aceitar ter havido um único atirador (Lee Oswald). Houve um complot muito bem preparado pela CIA, anticastristas, militares e Mafia no assassinato de John Kennedy, precisamente por se terem apercebido de que o Presidente tinha em mente normalizar as relações dos EUA com Cuba e a União Soviética e de dar outro rumo à política dos Estados Unidos.

Em cada homem forte (Hitler, Mussolini, Estaline, Lenine, Ceauscescu, Mao, Pol Pot, Kadafi, Saddam, Ayatola Khoimeni, Idi Amin, Pinochet, Salazar, Franco, etc.) que surge a autoproclamar-se salvador ou vingador de qualquer coisa, está quase sempre um charlatão que só pensa no seu bem-estar e interesses pessoais, um corrupto a braços com a justiça, um sociopata ou um místico incarnando a vontade divina. Exemplos típicos nos nossos dias são: Trump, a versão boçal e estúpida dessa realidade, Netanyahu, um reacionário com problemas de justiça ligados a corrupção incluindo pessoas da família, o “monarca republicano” da Coreia do Norte e outros desiludidos do comunismo que entram no caminho do capitalismo selvagem como se tivessem descoberto o paraíso.

Resumindo diria que “os irmãos Kennedy enfrentaram os grandes demónios da América: o racismo, o moralismo e o puritanismo, o poder absoluto dos militares – o tal Complexo militar-industrial de que falava Eisenhower – o isolacionismo e o extremismo. Em tudo o resto pecaram e fizeram o que puderam. Mais bem do que mal”, como escreveu Francisco José Viegas no prefácio do livro a que me referi. Esses demónios reapareceram facilitados pela eleição de Trump.

Afinal, em que mundo vivemos? Para onde caminhamos com dirigentes do calibre dos “homens fortes” Trump e Netanyahu? Será que a luta contra o terrorismo justifica tudo, ou ter-se-ia metamorfoseado em luta entre sunitas e xiitas em benefício do actual Governo de Israrel? O terrorismo e a luta entre sunitas e xiitas não terão sido desencadeados pela estúpida teimosia do Primeiro-Ministro do Governo de Israel escorada numa coligação com religiosos ortodoxos e militares do tipo fascista, apoiada pelos EUA, de implantar colonatos em território palestiniano e a negar a existência do Estado da Palestina?

Parede, Maio de 2018                                                                        Arsénio Fermino de Pina

                                                                                                    (Pediatra e sócio honorário da Adeco)

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