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Setembrino & Das preciosas

Numa sala bem composta e com diálogo orientado para o estético | marcado o ambiente pela ética do tempo redentor | cumpriu-se amiúde a data | sem negação manhosa | nem recordação vingativa

Filinto Elísio

À pedra do retorno, Mário,
Cantava-lhe o ruidoso dentro
Em seu labiríntico entorno…

O que é da resiliência da pedra,
Senão esta amorfa e fluída veia,
Que medra, em vida sua, inerte?

Djom & paludismo

Não há como nos fingirmos de mortos | quando a cidade vai tomada de assalto por mosquitos e andam acelerados os casos de paludismo | Nem há como acharmos de morabeza o Reino da Dinamarca | se os assassinos e os sequestradores | comem já soltos estes dias de azáguas | Duvidamos dê para ser feliz esse tratamento de gado à porta das embaixadas (cena 1: Praia; cena 2: Paris; mote: os sempre menos iguais que os outros animais) | Grata homenagem a João Manuel Varela | grata porque merecida e devida | porque de afrontamento contra o esquecimento | com que o escárnio será sempre o rei (nu e senhor) em tempos de estio | e de tanta incomodidade | quanto da legitimidade do que há sido anomalia | Sábio Djom | porque o que morre / é nosso | também nossa esta fétida cloaca | A complexa escrita de JMV | qual em seus heterónimos | mas essencialmente em João Vário | apartando-se do cânone histórico e da periodização cabo-verdiana | Sem se alienar da matriz de assaz sistema literário | Vário foi “exemplo” | em lacto e estrito sensos | da desconstrução da cronologia instituída | do não nativista | e do não claridoso e do não cantalutista | ou do nãomirabílico | Interpondo para as letras paradigmas novos e outros | Este Djom | que no Canto Primeiro | do poema Exemplo Geral | exemplificaria

 (…)

O que queríamos dizer está já morto;
que poderíamos, pois, agora
acrescentar a essa alegria?
Da condição da morte, o que morre
é nosso, e, além dele, dos bens nossos.

Porto Novo: da albergaria-mundo

31 de Agosto | data histórica em Santo Antão (e em Cabo Verde) | Efeméride ainda a reclamar toda a verdade (exaurida das múltiplas versões) | e sua consequente (mais que necessária) reconciliação existencial | Indo gente plural e vária dos três concelhos da ilha | para a sessão de lançamento/apresentação do livro “O albergue espanhol” | de Jorge Carlos Almeida Fonseca | as honras couberam ao ‘albergatore’ José Pedro Chantre Oliveira e a mim | ‘tirocinante apprendista’ desta obra complexa | que é de tudo – ‘crise’ de tempo, lugar e personagem, como circularidade da narração e interpenetração do objeto poético – uma proposta nova | Eis que se sublima pela leitura e pela releitura críticas | as que cogitaram Tzvetan Todorov e Jacques Derrida | Numa sala bem composta e com diálogo orientado para o estético | marcado o ambiente pela ética do tempo redentor | cumpriu-se amiúde a data | sem negação manhosa | nem recordação vingativa | para com o acontecimento…das calças roladas.

Setembrino: Minas de mim

 Ontem | na torna-viagem a Lisboa | a revista de bordo da TAP/Air Portugal | trazia-me uma pequena matéria sobre Minas Gerais | estado brasileiro onde estudei (quase no antanho) e fiz amigos ainda seguros | e no qual mantenho laços de afeto e (por conta de amar a Márcia) de família adoptada | Das cidades mineiras | oh cidadezinhas de MG | Ouro Preto enche-me de encanto patrimonial e histórico | e de lembranças (tão minhas e íntimas) que não acrescentariam se tornadas públicas | e Belo Horizonte com suas lendas urbanas e seus ipês floridos | de ter apreendido nos barzinhos da vida a ler a poesia de Carlos Drummond de Andrade e a prosa de Guimarães Rosa | de sentir a venal essência da interioridade e esta doravante recusa (inconfidente quase) da cidadania decorativa | Naturalmente que o texto era de promoção turística | e quem o fez recomendava roteiros e estalagens para visitantes | Todavia | suas entrelinhas desencravaram em mim uma canção de Milton Nascimento | e esta vontade (antes que nos anoiteça) da amar no albergue e nas cercanias da Praça da Liberdade | Seja | A minha identidade é múltipla e palimpsesto | é trans-textualidade e outridade | Como na música: sou também das Gerais…

Vida nova e à polinização

 O Denzel retorna a Boston | e o Pablo retoma as preparações em matemática e a natação | A Rosa de Porcelana Editora prepara (sem ironia) a sua ‘coleção outono/inverno’ | com mais lançamentos e novas edições | outras parcerias culturais e algumas participações em gestas culturais | A curadoria e a organização científica do Festival de Literatura-Mundo do Sal em agendamento de trabalho | para a edição de 2018 | Enquanto isso | fazemos um browsing aos acontecimentos | O mundo desigual e injusto | com bombas de hidrogénio e o aquecimento global | com a fome de uns e a fartura de outros | Enquanto isso | nas ilhas | continuamos a buscar um poema diferente para o povo das ilhas | Dispensando guilhotinas | ser-nos-ia despicienda a liberdade | a igualdade e a fraternidade? | Ser-nos-ia também crucial aprender a ser só | existencialmente a só ser? | E ainda arte | engenho e arte | para trabalhar e re-existir os livros que nos inquietam? | Se

outonais estas letras
viram palavras
*
os poetas moldam
formas às pedras
*
quando em verdade
cumprem ciclos
*
e como medram pétalas
à polinização.

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