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Sal: apanha e falta de areia ameaçam sustentabilidade da economia turística e ambiental

Aquele que é tido como o postal turístico mais vendido de Cabo Verde tem vindo a perder areal. Uma situação que, a agravar-se, não abona a favor da sustentabilidade ambiental e turística da ilha do Sal.

A apanha desenfreada de inertes em algumas zonas da ilha do Sal e a perda de massa de areia, em certas áreas da praia de Santa de Maria, está a preocupar operadores e a Câmara de Turismo de Cabo Verde (CTCV).  A sustentabilidade daquela que é a praia mais frequentada por turistas no país, o cartão postal mais vendido do arquipélago, está em risco.

Para uns é alarmante, enquanto outros procuram desvalorizar o facto. Mas o certo é que um olhar mais atento daqueles que há vários anos frequentam a praia de Santa Maria não deixa margem para dúvidas. Aquele que é tido como o postal turístico mais vendido de Cabo Verde tem vindo a perder areal, ou massa de areia, tecnicamente falando.

Uma situação que, a agravar-se, não abona a favor da sustentabilidade ambiental e turística da ilha do Sal. Isto tendo em conta que esta praia recebe, diariamente, milhares de banhistas, dentro e fora da chamada época alta.

Ao que tudo indica, e conforme informações apuradas pelo A NAÇÃO junto de várias instituições ligadas ao sector, a situação piorou em determinadas áreas de Santa Maria, após a passagem do furacão Fred, em 2015. Na altura, além da deslocação massiva de areal, o mau tempo destruiu, de forma abrupta, o pontão de Santa Maria, que até hoje ca- rece de intervenções de fundo, apesar dos principais estragos terem sido minimizados.

Câmara do Turismo preocupada

Mas, voltando à areia, quer a perda de massa quer a sua apanha desenfreada, em al- gumas localidades, estão a preocupar seriamente operadores turísticos e a própria Câmara do Turismo de Cabo Verde. Um dos locais onde a perda de areal tem sido mais visível é na praia junto ao hotel Odjo d’Água, onde a administra- ção do próprio hotel acabou por tomar medidas para tentar estancar a perda de areia, mas também a praia de António Sousa, junto ao bar do campeão mundial de windsurf Josh Angulo. Neste último caso, este jornal sabe que foi utilizada areia que havia sido retirada das obras do complexo New Horizons, na Ponta Sinó, para compensar a perda e tentar repor a extensão de areal.

O certo é que, apesar de ainda não ser alarmante, a situação não deixa de ser preo- cupante. Inclusive, num email a que este jornal teve acesso, datado de 29 de Março e enviado por Humberto Lélis, da CTCV, ao presidente da Câmara Municipal do Sal, Júlio Lopes, a instituição presidida por Gualberto do Rosário mostra-se apreensiva com a situação.

“Já recentemente um especialista internacional alertou para a perda da massa de areia na praia de Santa Maria e que, a continuar assim, coloca-se em evidência a manu- tenção deste importante activo e património que susten- ta o nosso turismo”, escreveu Humberto Lélis.

No mesmo email, esse responsável diz ainda que, “após alguma acalmia, retomou-se nos tempos mais recentes a apanha desenfreada de areia na zona adjacente à Costa de Fragata, exactamente na denominada Zona Corredor de Areia. Isto acontece todos os dias e são dezenas de camiões que circulam com toda a impunidade na estrada Santa Maria–Espargos. Estou a crer da necessidade da CMS, conjuntamente com o Ministério da Agricultura e Ambiente (MAA) tomarem medidas urgentes porque a situação é extremamente preocupante”, denuncia.

Entretanto, conforme informações apuradas por esta reportagem, o problema da falta de areia, quer na praia de Santa Maria, quer por causa da retoma da apanha desse inerte para a construção civil, foi debatido na última reunião do Conselho Directivo da Câmara de Turis- mo, que decorreu, na ilha, no passado dia 7 deste mês.

No encontro, os membros da CTCV reiteraram a sua preocupação com a degradação da praia mais turística do país e na acta da reunião ficou patente a “necessidade de intervenção na praia de Santa Maria”, matéria sobre a qual “ainda não houve concretização por parte das autoridades”. Por isso mesmo, a CTCV promete “voltar a insistir” com as autoridades compe- tentes, “perante a continuação da degradação desta importante infraestrutura”.

Autarquia quer fiscalização mais apertada

Quem parece não estar indiferente ao problema é o edil Júlio Lopes. Contactado pelo A NAÇÃO, o mesmo começa por dizer que, apesar de não ser especialista na matéria, “não há problemas de falta de areia na praia de Santa Maria”, e que parece tratar-se de um problema de sazonalida- de, em que, geralmente, “há areia que é levada no Inverno e que volta no Verão”.

Quanto à apanha de areia, a reacção é bem diferente e o próprio Júlio Lopes reconhece os constrangimentos e as consequências da falta de fiscali- zação. “É preciso sermos mais duros na fiscalização, sobretudo nas zonas proibidas. As pessoas apanham areia em horas impróprias, o que dificulta a fiscalização”, diz.

Júlio Lopes defende que quando surpreendidos pela fiscalização, os camiões “devem ser apreendidos”, além de se “reforçar as punições” como forma de se “mudar” comportamentos.

AMP defende estudos aprofundados

Armindo de Sousa Graça, delegado no Sal da Agência Marítima Portuária (AMP), mostra-se igualmente preocupado com os fenómenos de perda de areia naquela ilha. Nesse sentido, defende estudos aprofundados, o quanto antes.“Estudos para tentar saber exactamente o que está a acontecer, determinar os fenómenos e as causas, e o que poderá ser feito para mitigar essa situação. Pen- so que os estudos devem passar por aí”, explica.

O delegado da AMP admite que o problema da falta de areia começa na Praia de António Sousa e vai, praticamente, até ao Odjo d ́Água, junto ao Porto Antigo, onde existe também esse problema e que “é preocupante”.

Armindo reconhece ainda que em frente ao hotel Morabeza, “também já se nota” a falta de areia, mas que “não é tão relevante” quanto à situação na praia junto ao Odjo d ́Água, por exemplo. Porém, diz ainda não estar em condições de avançar quando será feito o estudo, nem por quem.

“Vai ser feito um estudo, não sei quando, nem se é a AMP, juntamente com a Direcção-Geral do Ambiente (DGA), sobre essa problemática natural da perda de areia, que ultrapassa muitas vezes a acção humana”, avança.

Quanto à apanha ilegal de areia na ilha, que está a preocupar a CTCV e até a CMS, esse responsável desdramatiza. “Não tenho conhecimento de apanha de areia ilegal nas praias do Sal, e em Santa Ma- ria não acontece. Onde se apanha areia na ilha do Sal é nas dunas, onde, se a memória não me falha, chegou a haver uma autorização da DGA para a apanha, junto à zona dos aerogeradores. É lá que se tem apanhado areia. Já na zona de Parda, é uma zona mais descarpada, que poderá ter areia junto à ribeira, ou em zonas que ficam fora da orla marítima, aí, provavelmente, poderá ha- ver uma ou outra pessoa que poderá estar a extrair areia. Mas, não tenho essa informação oficial para dizer”.

Armindo de Sousa Graça conclui dizendo que, contudo, quem faz a “fiscalização directa é a polícia marítima, a polícia nacional”.

Gisela Coelho

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