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Opinião

De 2015 para 2016, apesar de tudo – no fim -, a esperança

Pedro Moreira

Como já vem sendo praxe, quase litúrgica, eis o momento de lançar um olhar retrospetivo, mesmo que breve, sobre o que foi o ano findo, neste caso, o 2015, e, num relance, perspetivar o ano que chega, o 2016, em forma de simples crónica, em todo o caso, sempre com a responsabilidade e o sentido do dever cívico que uma cidadania presente e ativa impõe, o que, não facilitando a empreitada, torna-a, contudo, mais tratável e, até certo ponto, oportuno, útil e algo aprazível.

Pretendendo cingir-se, sobretudo, a factos, mais do que às figuras, convém notar que não estou fazendo uso de nenhuma criteriosidade na escolha e ordenação dos mesmos, a não ser o de poder construir uma narrativa com os mesmos, cronicando, claro.

2015, um ano a não esquecer, tão cedo

Era mais do que previsível, 2015 não ser um ano fácil – longe disso -, como, aliás, eu escrevera, aqui, neste espaço, no ano passado: um ano que a ser “sem consensos, precisaria de bons sensos e muita esperança”1. Em jeito de síntese, diria que, entre poucos consensos, imperou algum bom senso e a esperança, que já teve melhores anos, acaba por “salvar” o ano, não fosse este país o que o saudoso Norberto Tavares cantou e imortalizou, no sempre reconfortante hino, “nos Cabo Verdi di Speransa”.

Efetivamente, mais por más do que boas razões, 2015 foi um ano para não esquecer, tão cedo; iniciou sob um manto negro que já vinha do último terço de 2014, provando que, realmente, uma desgraça nunca vem só; nem duas.

De um mau ano agrícola, com gados em morticínio pela fome, a fazer lembrar as piores estiagens das olvidadas obras de Manuel Lopes ou alguns áridos poemas de Jorge Barbosa, à fúria do vulcão de Fogo2 a arder, com nuvens de cinza tóxica se espalhando pelas ilhas e o chão em brasa de Chã das Caldeiras, qual dor “di nos armuns di Fogo,” por todos reivindicada, sobretaxada e vendida por uns, juntava-se a desgraça fria e afogada de náufragos desafortunados do Navio Vicente, mortos-culpados por certificar, sem óbitos e sem direitos. Num zás, a Ilha do Fogo e todo Cabo Verde tornavam-se celebridades de dor e solidariedade a nível global ao que todos os cabo-verdianos e os nossos amigos responderam, prontamente e com esperança, enquanto, no terreno, “ainda”, tarda-se em ver igual resposta, na prontidão e eficácia.

Entre desgraças, desventuras e trica-trica políticas…

Passado o início do ano e o manto rubro-negro que pairou sobre as terras e mares da Ilha do Fogo, foi tempo de alguma acalmia batendo fundo na alma do ilhéu, sempre em busca de um ancoradouro para a sua esperança. Na sequência de muitas negociações, de avanços e recuos exasperantes e intermináveis, no quadro de um tal malfadado pacote negocial, os partidos do arco da governação conseguiram um histórico acordo político-parlamentar para a eleição da composição dos órgãos externos ao parlamento.

No seguimento, o Parlamento, ainda, viria aprovar, na globalidade e por unanimidade, o novo Regimento da Assembleia Nacional, num subpacote da Reforma do Parlamento, que nunca mais acabava/acabou, feito à medida e sonho não só da Comissão Eventual de Reforma do Parlamento, como de todos os deputados da VIII legislatura.

Foi acalmia de pouca dura. Na aprovação do Estatutos dos Titulares de Cargos Políticos (ETCP), quando chegou-se às polvorosas questões de remunerações e benefícios sociais e outros, numa situação de falta de melhor comunicação dos sujeitos parlamentares com a sociedade civil, viu-se um verdadeiro “tranca-pé” dado pela Janira Hopffer Almada (JHA) a Ulisses Correia e Silva (UCS) o que contribuiu para despoletar uma das maiores crises políticas jamais vistas, em democracia em Cabo Verde. De facto, ela não “comprou,” na globalidade, o pacote de acordo antes feito com José Maria Neves (JMN), os grupos parlamentares votavam por unanimidade o pacote acordado e o Presidente da República (PR), acabou por vetar e devolver o ETCP ao parlamento, qual granada armada e acionada que ninguém queria entre mãos.

De permeio, o povo saiu à rua mostrando que, de facto, é quem mais ordena e, porque não existe “bela sem senão”, fica um pouco sem qualificativo esse assomo reivindicativo da sociedade civil, pseudocapitaneada por um tal de MAC 114 de que ninguém lembrava donde vinha o raio de denominação e que, por ironia do destino, acabou mesmo por ser um verdadeiro 114 3 donde retirou o nome. Como se apercebeu, uma grande franja da sociedade civil considerou-se ofendida na sua honra e consideração, com o enorme aumento de salário, mais o aumento do que salário, e reagiu à ofensa num gesto tão histórico como improvável, não fosse o empurrão, mais do que oportuna, da novel líder do PAICV, num verdadeiro golpe baixo – mesmo assim, com mestria – da JHA a UCS.

A novela do Fundo do Ambiente, definitivamente, acaba por ser a grande polémica de 2015. “Fundão” vem mostrar a política, no seu melhor ou pior (depende das perspetivas e o nível de humor ou ironia de cada um), dentro e fora de “portas,” ou, como teria dito Winston Churchil, na sua sábia bonomia, ao neto ou sobrinho, “na nossa bancada e na outra,” os inimigos e os adversários. Deixando, por ora, as questões da justiça para a justiça, sobram a política e a ética política, em presença. Para além disso, a parte substantiva da questão, por enquanto, vai passando ao lado das duas “bancadas” e, estranhamente, os verdadeiros interessados passam tétricos e silenciosos, vá-se lá saber, se consciente e intencionalmente, ou não. Por agora, apraz socorrer-me do aforismo popular para, inferir que, “na política como na vida, só não molha quem não anda à chuva”.

… acabou por salvar a esperança

Para alguns, a caminho de um annus horribilis, o último terço do ano veio trazer a esperança com que, afinal salvou-se o ano.

Fazendo alguma justiça, não deviam passar despercebidos as vitórias e sucessos de vários atletas, nomeadamente os paraolímpicos, com alguns momentos de ouro. Nelson Cruz e Crisolita Rodrigues conquistaram medalhas de prata enquanto, dentre os paralímpicos, Márcio Fernandes e Gracelino Barbosa foram ouros. Não será por acaso que, justamente, estes dois últimos foram laureados pelo PR com a Primeira Classe da Medalha de Mérito.

Entre factos e figuras de 2015, Sua Eminência Reverendíssima Dom Arlindo Cardeal Gomes Furtado, eleito e consagrado cardeal logo a abrir o ano é, para esta humilde crónica, a figura do ano deste minúsculo e periférico país, ao ser elevado a príncipe entre os príncipes da Igreja Católica.

Finalmente, esperanças que as fartas chuvas deste ano nos deixaram, com um bom ano agrícola e as barragens a transbordar; que o financiamento do Programa Casa Para Todos, afinal continua e, apesar de tudo, fazendo feliz muitas famílias, mesmo com algum atraso.

No fim de 2015, como diria Péguy, “… a esperança, diz Deus, essa sim causa-me espanto./ Essa sim é digna de espanto.”

(continua com “Perspectivas para 2016”)

 

1 Crónica neste jornal em 2014 sobre perspetivas para 2015.

2 Cuja erupção aconteceu de 23 de novembro de 2014 a 07 de fevereiro de 2015 (88 dias).

3 “Famoso” artigo do Regimento da Assembleia Nacional que permite os sujeitos parlamentares reagirem quando se sentirem ofendidos e ao qual recorrem, por tudo e por nada, para coisas outras.

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