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Política

Associações: Partidarização, de bestial a besta

Nessa inversão de marcha, os autarcas ligados ao MpD, que estimularam as associações e que de algumas delas serviram para fazer política, passaram a criticá-las.
Outros, como Francisco Tavares em Santa Catarina, ilha de Santiago, adoptaram estratégia diferente: lá onde havia associação mais próxima do PAICV, influenciaram o surgimento de outra que lhes fosse favorável.
Achada Tossa, Santa Catarina, constitui um exemplo de tal estratégia. A Associação para o Desenvolvimento de Achada Tossa (ADAT), foi criada em 2004, ainda João Baptista Freire (PAICV) era presidente da Câmara Municipal de Santa Catarina (CMSC), dava as cartas. Contudo, em 2008, logo após Francisco Tavares (MpD) chegar à CMSC, surgiu nova associação dirigida por um simpatizante do MpD, para fazer contraponto à ADAT, presidida por Arnaldo Brito, que por sinal é um militante de PAICV.
Situação idêntica aconteceu em Ribeirão Manuel/Tomba Touro, também em Santa Catarina. Ali existia a Associação para o Desenvolvimento de Ribeirão Manuel e Tomba Touro. Mas, com a mudança no poder local, foi criada a Associação “Brianda”, que passou a ser dirigida por pessoas de confiança do MPD.
Em outro registo, dirigentes associativos tidos como próximos do MpD foram afugentados das associações e até acusados de desviar dinheiro. António Carente, um dos mais conhecidos dirigentes comunitários em Santo Antão, foi um dos que mais sofreu com a excessiva partidarização das ACDs. Considerado até 2001 exemplo pelo trabalho que desenvolvia na AmiRibeirão, através da qual implementou projectos agrícolas que fizeram dos antes ressequidos campos da Ribeirão terrenos produtivos, passou a partir daquela data a ser acusado de desviar recursos da própria associação que ajudou a erguer em 1992.
Passando de bestial à “besta”, Carente teve de abandonar a presidência da AmiRibeirão de 2002 a 2006 e hoje não esconde que essa partidarização das ACDs deixa amargos de boca e um rasto de desvios. “Aquilo que aconteceu comigo pertence ao passado, mas as marcas da partidarização ficaram. Veja o caso da OADISA, durante o tempo de campanha, alguns políticos aproximavam-se dela pediam que se abrisse frentes de trabalho sem cobertura orçamental. Consequência: os políticos depois iam embora, as dívidas da OADISA não pararam de crescer até à falência da associação”, observa Carente.
O colapso da OADISA aconteceria por volta de 2012, quando as dívidas atingiram cerca de 20 mil contos, os funcionários deixaram de receber e os financiamentos não chegaram aos destinos certos. Até hoje, por exemplo, ainda não se conseguiu justificar o paradeiro de um financiamento, no valor de 1500 contos, proveniente do Instituto Português de Apoio ao Desenvolvimento (IPAD) para projectos em Santo Antão porque os relatórios nunca foram conhecidos.
O Tribunal da Ponta do Sol ordenou mesmo o arresto de todos os equipamentos da sede da OADISA para assegurar o pagamento de funcionários e outras despesas. Mas ninguém foi responsabilizado pela má gestão da OADISA, criada para ajudar a mobilizar recursos para o desenvolvimento de projectos comunitários.
Na verdade, a OADISA é apenas o caso mais visível dos desvios e da nefasta partidarização das associações em Cabo Verde. Em muitos outros pontos do arquipélago, as associações tornam-se também fontes de renda para muitos dirigentes que não só passaram a receber salário mensal por um trabalho que deveria ser feito à base do voluntariado como começaram a fazer uso de vários expedientes para sugar os recursos mobilizados.
 

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