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Opinião

Dom Arlindo Furtado e as escolhas do Papa Francisco

Felisberto Vieira*

Constitui motivo de orgulho nacional e de regozijo dos católicos cabo-verdianos o fato de, a partir de agora, Cabo Verde ser uma das sedes cardinalícias da Igreja Católica. É que no próximo sábado, na Basílica Vaticana, o Papa Francisco presidirá o Consistório ordinário para a criação de vinte novos cardeais. Dom Arlindo Furtado, Bispo da Diocese de Santiago, encontra-se em Roma, onde lhe vai ser atribuído oficialmente o cargo de Cardeal.

Antes de mais, embora dispense apresentação, impõe-se algumas notas sobre este novo Cardeal. Arlindo Gomes Furtado nasceu a 4 de Outubro de 1949, em Figueira das Naus, ilha de Santiago. Fez seus estudos liceais no Seminário Menor de São José e foi ordenado Diácono pelo Senhor Bispo Dom Paulino Livramento Évora, no mesmo Seminário. No dia 18 de Julho de 1976 foi ordenado Padre na Paróquia de Santa Catarina. Depois da ordenação, foi nomeado Vigário Paroquial de Nossa Senhora da Graça. De 1978 a 1986 exerceu a função de Reitor do Seminário Menor de São José em Cabo Verde.

Em Agosto de 1986, ele partiu para Roma. Licenciou-se em Ciências Bíblicas pelo Instituto Bíblico de Roma. De 1991 a 1995 leccionou as cadeiras de Grego Bíblico, Hebraico, História e Geografia do Povo Bíblico e mais algumas cadeiras do Antigo Testamento, no Instituto Superior de Estudos Teológicos de Coimbra. Durante a sua estadia na diocese de Coimbra, foi administrador paroquial de duas comunidades, Amel e Vila Pouca. Até 2004 foi Vigário Geral da Diocese de Cabo Verde. Em 22 de Fevereiro de 2004, foi ordenado Bispo por Dom Paulino Livramento Évora, em verdade o 34º Bispo de Cabo Verde e o segundo de nacionalidade cabo-verdiana.

E agora, retomando o objeto deste artigo, o nosso “Padre de Ribeira das Naus” tornou-se um dos cardeais eleitores em Roma. Tudo isso me faz cair numa enorme introspecção sobre a importância e a transcendência do que nos acontece enquanto cabo-verdianos. O mesmo sentimento que me atravessou quando, em 1989, o Papa João Paulo II visitou Cabo Verde, instante que marcou um antes e depois no espírito de todos os cabo-verdianos. Como encarar este novo momento?

De ponto, esta investidura – “um acontecimento histórico que engrandece Cabo Verde”, como no-lo afirmou o próprio Dom Arlindo Furtado -, vem reconhecer o papel evangelizador da Diocese de Ribeira Grande de Santiago de Cabo Verde, elevada a essa categoria, por força da ereção do bispado por Dom João III, em 1532, e confirmada pela Bula Pro Excellenti Proeminentia do Papa Clemente VII, em 1533, e com circunscrição não só às ilhas cabo-verdianas como também à sub-região da África Ocidental, que, na altura, ia do rio Senegal até ao Cabo das Palmas, mais precisamente à entrada do Golfo da Guiné e com uma penetração nas profundidades do continente até 350 léguas.

Igualmente, o ato acrescenta consistência à Concordata entre o Vaticano e o Estado de Cabo Verde (que é laico, mas de povo maioritariamente católico), assinada em 2013, altura em que o arcebispo Dominique Manberti, Secretário de Estado do Vaticano, asseverava que o Catolicismo fazia  “parte integrante da identidade de Cabo Verde desde o século XV”. Por ocasião da assinatura, Dom Ildo Fortes, Bispo do Mindelo, sentenciara que “Nós somos pioneiros aqui na nossa zona de África, aqui na África Ocidental, somos o primeiro país a assinar um acordo com o Vaticano. Dado que a Igreja Católica, os seus fiéis, constituem a maior parte dos cabo-verdianos, situamo-nos nos 77% de católicos, é normal o reconhecimento claro e explícito por parte do Estado da Igreja e do seu papel”.

Refira-se que a assinatura da Concordata de Cabo Verde foi amiúde acompanhada com atenção e interesse pela Conferência Episcopal de Angola e São Tomé e Príncipe, denotando claramente o papel “despoletador” de Cabo Verde na promoção da Fé Católica. Os Bispos, em tal  Conferência Episcopal, destacaram ainda a necessidade de “alcançar-se um acordo concordatário entre o Estado angolano e o Estado do Vaticano”.
Antes de Cabo Verde, o único país africano de língua portuguesa a assinar um regime concordatário com a Santa Sé fora Moçambique.

Naturalmente que a nomeação não foi um ato isolado e cumpria a uma viragem na Igreja, claramente liderada pelo novo Papa. As “escolhas de Francisco” demonstram um esforço para reconhecer as realidades muito diferentes da Igreja, trazendo “bispos pastores” que representam o mundo na sua pluralidade e diversidade, ou que estão à frente de dioceses mais pequenas ou que nunca tiveram um cardeal. Segundo a versão do Vaticano, a nomeação dos novos cardeais vem cumprir um firme propósito do Papa em olhar para as “periferias existenciais”, não se vinculando apenas às tradições das ‘sedes cardinalícias’, nem ao hábito de fortalecer os sacerdotes de Roma, tanto que entre os novos cardeais está somente um da Cúria Romana. É um momento sublime, para não dizer divino.

Termino, fazendo referência à carta que o Papa Francisco escreveu aos novos cardeais (e, consequentemente, a Dom Arlindo Furtado), para enfatizar as novas responsabilidades perante a Igreja. O Papa dirigiu-se aos cardeais, nestes termos: “A Igreja ‘chama-te para servires’, uma vez mais, com humildade”. Assim, o cardinalato que ora Dom Arlindo Furtado assume e que Cabo Verde detém, com orgulho e regozijo, não deve ser visto como um prémio, mas como um serviço que antes de mais é ser testemunha de Cristo.

 Bem-aventurado País este nosso, que, no ano do seu Quadragésimo Aniversário da Independência Nacional, tem um filho entre as escolhas do Papa Francisco e nos dá a responsabilidade de fazer parte ativa de uma Igreja descentralizada e representada de forma cada vez mais universal. Assumamos esta missão com humildade!

*Sociólogo

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