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Opinião

Televisão, um difícil caso de amor

1. No passado 21 de Novembro assinalou-se o dia mundial da Televisão. A data foi instituída pela ONU, em 1996, como forma de incentivar os estados membros à troca de programas sobre temas que interpelam a paz, a segurança, o desenvolvimento social e económico e o reforço do intercâmbio Cultural. A ideia básica é comunicar por um mundo melhor: melhor cidadania, melhor educação, mais cultura e união entre os povos.

Li algures que um povo vencido jamais será unido, e isso fez-me pensar em muita coisa, acreditando sempre que comunicar é vencer! A televisão continua a dividir mares e a caminhar entre o ódio obsessivo e um amor incontrolável.

Todos os dias chovem encantos e críticas, justas e injustas, boas e más. A cada dia ela chega às nossas casas com novas histórias, cores diferentes, e um babel de emoções. De hora em hora fica-se com a promessa de regresso no dia seguinte para mais um encontro e partilhas novas. Saltitamos de canal em canal, surfamos pelas grandes metrópoles, mas dificilmente sobrevivemos sem os nossos retalhos caseiros e os sotaques das nossas províncias, tanto rurais como urbanos.

Criticamos, esbravejamos, mas não perdemos um único berro a partir dos nossos palanques; estamos a par de cada tropeço, de cada assunto que perturba os nossos dias. Cabe a nós todos, portanto, refletir sobre essa relação forte e quase madura, (já lá vão trinta anos) que apesar de infeliz, em alguns casos, parece não ter fim!

2. Reflectir sobre a história e os desafios da televisão com uma conferência, se propôs, nesse dia, a Presidência do Conselho de Ministros, tutela da comunicação social. Mas que reflexão? Na abertura do evento, o novel ministro fez questão de dizer que nesse percurso de trinta anos a televisão em Cabo Verde deu um contributo incomensurável à sociedade, graças ao envolvimento de vários actores: políticos, empresariais, profissionais e muitos outros. Um repto justo!

3. Uma justa reflexão, pelo seu teor naturalmente crítico, dispensa amarras: ela é abrangente. Impõe-se, de facto, refletir todos os momentos dos trinta anos da aventura televisiva em Cabo Verde: os ideais, a ousadia, os retrocessos, os desafios, as conquistas e os vícios decorrentes de qualquer percurso.

Refletir numa perspectiva inclusiva, mostrando a pluralidade das intervenções. Não esquecer, por exemplo, de que a criação da RTC, em 1997, que implicou a fusão da rádio e da televisão públicas, foi pensada e implementada por sujeitos em contextos bem determinados. Quantas revelações teria a fazer o primeiro director da TEVEC?! E as mulheres que fizeram e fazem televisão, isso numa altura em que o debate sobre género ganha consistência; e os repórteres de imagem?

O Governo poderia fazer bem melhor se montasse uma conferência mais inclusiva e plural que reflectisse o puzzle, apanágio, aliás, da gramática do audiovisual. Afinal, a história nada mais é do que a justiça sobre o tempo.

Margarida Fontes

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