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Farol de Boi um século de história votado à indiferença

Um dos maiores bens histórico-patrimoniais de Santo Antão, mais precisamente do concelho do Paul é...

Um dos maiores bens histórico-patrimoniais de Santo Antão, mais precisamente do concelho do Paul é, indubitavelmente, o farol Fontes Pereira de Melo, popularmente conhecido por “Farol de Boi”, nome que advém da sua proximidade ao Ilhéu de Boi, que lhe fica defronte.

Outrora importante instrumento de navegação que assinalava a entrada norte do Canal de São Vicente, não passa, hoje, de uma estrutura em ruínas cujos tempos áureos residem, agora, apenas na memória das gentes mais antigas de Pontinha de Janela, localidade que já deveu, em tempos passados, a sua relativa celebridade à importância do farol.

Esse antigo guia da navegação atlântica apresenta, actualmente, evidentes sinais de abandono e de uma quase total degradação, acentuada pelo vandalismo de que foi sendo alvo ao longo de décadas.

Mandado construir por Portaria Régia de 2 de Abril de 1884, entrou em funcionamento apenas dois anos depois, a 15 de Maio de 1886, circunstância que traduz a importância que lhe foi desde logo atribuída, sabendo-se que a esse tempo, particularmente numa província pobre como Cabo Verde, poucas obras públicas eram erigidas com tanta celeridade.

Durante cerca de um século, com a sua potente lanterna alimentada a petróleo e um alcance de cerca de 30 milhas e com o seu complexo mecanismo rotativo de cabos, roldanas e rodas dentadas que funcionava a manivela, o “Farol de Boi” desempenhou cabalmente o seu papel. 

Quantos naufrágios não terá impedido e quantas vidas não terá salvo, avisando as embarcações da proximidade de terra que, sem essa providencial sinalização, podia ser sinónimo de desastre?

O “Farol de Boi”, apesar do estado em que se encontra, ainda consegue mostrar sinais da sua passada grandiosidade monumental, nomeadamente a torre octogonal de quase 11 metros de altura, a escadaria interior espiralada construída em sólido ferro fundido, as vigias em arco, o mecanismo rotativo, os cristais das lentes da lanterna de 4,5 metros no seu habitáculo envidraçado com placas de grande espessura, e a cúpula metálica com o seu cata-vento dançando ao sabor das brisas oceânicas.

O resto, os metais preciosos como o bronze, a madeira das estruturas interiores e tudo o que pudesse ser desmontado e tivesse alguma utilidade foi levado por mãos de pessoas que nunca se questionaram sobre a gravidade da destruição causada. 

Muita gente já viveu sob o amparo do Fontes Pereira de Melo e as recordações estão ainda frescas na memória, por exemplo, da septuagenária Cândida Teodora Neves, que depois de muito perguntar por pessoas que nos pudessem contar um pouco da história humana do farol, fomos descobrir na sua modesta casa situada em Pontinha de Janela.

Nha Candinha, como é mais conhecida, falou dos tempos em que a casa de seis assoalhadas atribuída ao faroleiro tinha gente e muita vida, a alegria reinava e o farol lançava, todas as noites, a sua luz sobre o mar circundante.

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Fui para lá ainda menina, com 9 anos, sob a protecção do Sr. Djoca Leite, faroleiro à época. Ali cresci e tive os meus dois filhos, e só abandonei o farol aos 25 anos para vir morar onde estou agora”, recorda.

Para além de outros afazeres, Nha Candinha também “desempenhou” um pouco o ofício de faroleiro. Algumas vezes, subia à torre para “dar corda” ao mecanismo de rotação para que a luz potente pudesse espraiar-se em aviso à navegação.

Habitante, desde sempre, da localidade de Pontinha de Janela, Cândida Teodora Neves recorda momentos e nomes de pessoas, nomeadamente, para além de Djoca Leite, outros faroleiros que aí serviram, como Joaquim Melo e, antes dele, o pai, José Boaventura, e Lilinha Costa, todos já falecidos.         

Como falecido parece também já estar o antigo “Farol de Boi”, hoje substituído por uma modesta estrutura alimentada a energia solar e que, mesmo assim, se encontra desactivada em virtude do vandalismo de que foi alvo.

Nos últimos anos, algumas vozes têm-se levantado a favor do farol secular, mas infelizmente, até agora, nada se fez para a sua recuperação ou simples preservação. O que a acção perversa do homem iniciou o tempo acabará por completar, a menos que quem de direito diga basta e resolva agir a bem de um dos mais importantes monumentos históricos de Santo Antão.

Orlando Rodrigues

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