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In Memoriam de Alfredo Cruz, Fefa de Monte Sossego

O passamento de meu camarada e amigo Fefa de Monte Sossego não me deixa um vazio. Não me deixa porque levarei sempre comigo o que com ele aprendi; trarei sempre comigo o seu exemplo para suportar e dar a volta às horas aziagas

Por: Mário Matos

A notícia chegou-me na sexta-feira. O telefone tocou. Atendi. Era o Benvindo. Perguntou-me se já sabia do nosso Fefa; que sabendo ser dia de tratamento, foi protelando o telefonema. Interrompi-o. O Fefa faleceu? Perguntei de chofre, com o coração pequeno como uma ervilha, porque foi essa a dedução das suas palavras. Confirmou. Acabámos de o enterrar. Curto silêncio meu, digerindo a infausta e dolorosa notícia. Trocámos mais umas frases sobre a família, a mulher e os filhos do Fefa e marcamos para o dia seguinte uma conversa mais demorada.

Alferdo “Fefa” Cruz

Alfredo Cruz, Fefa de Wilson, Fefa de Millers, Fefa de ENACOL e Fefa de Monte Sossego, são os nomes por que foi conhecido, nomes que, em parte, marcam um rico itinerário de vida. Alfredo Cruz era daquelas pessoas que, cruzando com as nossas vidas, jamais podia deixar-nos indiferentes.

Um dos membros da primeira hora do sindicalismo pós “25 de Abril”, militante convicto do PAIGC/CV desde o período de transição para a Independência, dedicou à militância política parte importante da sua vida, de corpo e alma e com uma férrea vontade e resiliência, mesmo em momentos mais difíceis, mesmo com a saúde débil.

Fefa foi dos mais destacados camaradas que a vida me proporcionou conhecer e partilhar caminhos de luta, de vitórias e derrotas, em S. Vicente. Se pensar num exemplo de militante abnegado, desinteressado de cargos, honrarias e benesses, o Fefa é dos que me vêm logo à mente. Frontal e desassombrado na fala, exemplo de lealdade e de dignidade, não hesitava perante ninguém quando a sua consciência exigia ser crítico. Solidário até dizer basta, como todas as pessoas leais, partilhava ideia e experiências sem nenhuma vocação para o estrelato.

Encarnou aquilo que hoje está-se a transformar num bem precioso porque não abundante: o verdadeiro espírito de militância. Dedicação a causas. Amor e respeito por princípios. Orientação por valores. É preciso dizer que Fefa Cruz terá sido dos operários cabo-verdianos como uma verdadeira consciência de classe, que demonstrou ao longo da vida. Assumiu-se sempre como um operário e um militante com uma enorme sede de aprendizagem.

A minha relação com Fefa foi feita de camaradagem, amizade e especial afecto. Aliás, confessou-me sermos parentes, coisa que não vou aprofundar aqui mas que muito me orgulhou, já forte e longa era a nossa amizade.

Devo-lhe – desconfio que ele não gostaria do verbo – e muito, uma dedicação extraordinária à minha campanha para a Presidência da Câmara Municipal de S. Vicente. Igualmente, o PAICV é-lhe devedor de um raro trabalho de militância activa, de trabalho político na comunidade, ali no rés-do-chão da vida do seu amado e emblemático bairro, Monte Sossego. A ideia de trabalho político junto da comunidade encontrava em Fefa um cultor exemplar. Tinha método, conteúdo político esclarecido, espírito de diálogo, firmeza de carácter e uma enorme determinação.

Um exemplo: nos finais de 90 e no ano 2000, o militante do PAICV Fefa Cruz, sem necessariamente comandos e nem orientações e por ser, também, uma espécie de intelectual orgânico, fazia fotocópias, às suas expensas, de páginas de jornais com artigos e reportagens que traziam ao de cima os erros e falhas da governação de então, andava de mercearia em mercearia, de botequim em botequim, palmilhando o seu Monte Sossego que tão bem conhecia, distribuindo as fotocópias, chamando a atenção para o seu conteúdo, esclarecendo aqui, debatendo acolá.

Dava a sua opinião com vivacidade, naquele jeito seu enfático e frontal, com a franqueza e o desassombro a que nos habituou, respeitando sempre a posição do interlocutor. Fefa era um doutrinador nato no sentido mais nobre do conceito, apelando sempre e com veemência para que as pessoas pensassem com as suas próprias cabeças, para que fossem autónomas no pensamento. Por vezes, exasperava ante a indiferença de alguns, detestando a posição “tónte ta dáme”. Queria empenho crítico, não interessava se o interlocutor dele discordasse.

O passamento de meu camarada e amigo Fefa de Monte Sossego não me deixa um vazio. Não me deixa porque levarei sempre comigo o que com ele aprendi; trarei sempre comigo o seu exemplo para suportar e dar a volta às horas aziagas; preencherei a sua ausência com a sua lembrança, a sua voz de fumador inveterado ecoando nos meus ouvidos, a sua gargalhada franca a lembrar-me que vale a pena a luta por causas. Fefa estará, pois, sempre comigo.

Os meus sentidos pêsames à família que perdeu ente tão especial.

Luz sempre no teu Caminho, Amigo e Camarada!

marzim54@gmail.com

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