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“O albergue espanhol” e a Crítica da Razão Canónica

Fonseca propõe-nos uma leitura aberta, diríamos mesmo escancarada, tanto que implica a leitura paradoxal - umas vezes enciclopédica e, de o ser, outras vezes labiríntica

Por: Filinto Elísio

Romance ou poesia? Texto poético ou novelístico? Poema longo, para além dos versos, ou escrita descomprometida com as camisas-de-força das análises literárias, senão mesmo desafiantes de quaisquer hermenêuticas que lhe queiram resumir ao género? Sem assumirmos o reino das certezas, preferimos antes seguir pelas vielas das interrogações e interpelar nesta obra o desafio da Modernidade.

Nas conferências de 1943, reunidas mais tarde em livro intitulado “Poesia de solidão e poesia de comunhão”, Octávio Paz definiria a literatura moderna como um Jano dividido simultaneamente entre a tradição e a ruptura, característica que amiúde vira nos poetas espanhóis São João da Cruz e Quevedo e que, aliás, definem não apenas a literatura, mas a própria modernidade, sistema operativo das significações estéticas e da relação dialética entre velho-novo, temporal-intemporal, local-universal, contrários que se auto-fundamentam.

Temos em “O albergue espanhol”, de Jorge Carlos Fonseca, o protótipo de um livro-modernidade que se consubstancia, de forma quase antropofágica, na escrita-mundo, também aqui sistema operativo a misturar e a inter-relacionar escritas de índole narrativa, poética e ensaística, algo que, desestabilizando cânones, é pura Critica da Razão Canónica. A leitura deste livro faz lembrar o manifesto de Amin Maalouf e Éduard Glissant, em “Le Monde des livres”, que proclamava a invasão das modernas literaturas das margens ao Cânone Ocidental, instituído por Harold Bloom. Proclamaram em tal afrontamento que os livros modernos já interpelam todo o sistema literário instituído com um novo hibridismo de escrita em que os géneros e as “personagens” são, na sua pluralidade e diversidade, protótipos -mundo

Jorge Carlos Fonseca apossa-se do universo do inter-género e do trans-género (literário, naturalmente), não só vaticinado por Maalouf e Glissant, mas já cogitado na literatura cabo-verdiana contemporânea por João Vário, na série “Exemplos” e, depois, por Arménio Vieira em “No inferno”, assim como deste autor na saga do brumário, a saber “O Brumário”, “Derivações do Brumário”, “Fantasmas e Fantasias do Brumário”, e, mais recentemente, no “Silvenius – Antologia Poética”.

Fonseca propõe-nos uma leitura aberta, diríamos mesmo escancarada, tanto que implica a leitura paradoxal – umas vezes enciclopédica e, de o ser, outras vezes labiríntica. Exige a reconversão do leitor ao campo do diálogo intertextual e à sobreposição das análises, palimpsesto nas formas e na “fragilização”, pela diluição, dos sujeitos que engendram todo o simbólico-interpretativo, o político existencial, o lógico-geométrico, e o telúrico-cosmológico do livro.

Um livro composto de poemas e de prosa em pontos fixos (as metanarrativas), em que as personagens – numa alegoria de “Todos os Nomes”, de José saramago – experimentam uma espécie de “crise da representação” e estão sitiadas em tramas múltiplas, sob o mote (e claramente o modo) da interrupção da continuidade. As personagens neste livro não cumprem totalmente a modelação de musa, quando em lineamento poético, nem se prolongam em estado de criatura, quando em lineamento prosaico, já que ausente o tempo linear, progressivo e contingente.

Não poucas vezes, e no diálogo com o autor sobre a crítica textual e a exposição da malha intertextual, portanto comparatista, optámos por aceitar o hibridismo como a classificação mais ajustada e mais aproximada a uma obra de géneros múltiplos. Uma incessante procura de géneros a coabitarem-se, registo que nos remeteu à releitura de Ítalo Calvino, em “Se um viajante numa noite de inverno”, no que esta obra interroga sobre as possibilidades e limites interpretativos dos textos literários, mormente os de narrativa ficcional. Romance anómalo que decidiu «albergar» poemas, mas também com recursos ensaísticos de notas de rodapé. O analista José Cunha, perante a obra, cogitou classificá-la de interpenetração de prosa e poesia (de proesia) ou de poema ou romance (de poemance/romancema).

O Programador, pretensa personagem, e sua autodestruição criativa instalam neste livro, não uma versiprosa, em como no-la concebia Carlos Drummond de Andrade, mas um jogo de alteridade, diria mesmo de “outridade”, de géneros – escrita híbrida e instigante -, com recurso às remissivas e às notas explicativas, e que apela também e sobremodo ao ensaio, dir-se-ia ao mise-en-abyme da própria literatura, porquanto interpõe (programando sempre) o fazer literário sob o prismático da crítica da literatura, de forma geral, e da crítica do romance, em especifico.

Um livro bem urdido, visceralmente singular, que rompe modelos e desafia formatos, convidando os leitores a abrirem a mente para as perspectivas não tradicionais de literatura – com início, meio e fim, tempo vincado e espaço definido –, sem estórias a desaguarem, no sentido longitudinal, no estuário das certezas  e das evidências. O livro, para além de toda a sua “superfície textual”, é um apelo ao leitor para o universo (plural e diverso) de significações.

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