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Por que motivo se prolongou o sofrimento da família da Edvânea?

Por: Luís Carvalho

Uns dizem que é por incompetência, outros alegam que se trata de uma investigação complexa, enquanto eu prefiro abster-me de tecer quaisquer considerações. O assunto é muito sério. Todavia pergunto por que razão se prolongou, por demasiado tempo, julgo eu, o sofrimento da família da Edvânea, quando já se conhecia o resultado da perícia feita em Portugal das ossadas humanas encontradas em Janeiro, na localidade de Ponta Bicuda, Achada Grande-Trás, Praia.

 Infelizmente, no dia 13 de Julho, acabou a esperança de a menina de 10 anos ser ainda encontrada com vida. A Polícia Judiciária (PJ) comunicava aos pais que as ossadas identificadas em Ponta Bicuda, por um grupo de cidadãos à procura de búzios no mar, pertenciam à Edvânea, menina-princesa de todos nós.

 Segundo Maurício de Carvalho, um jornalista português aposentado, com uma larga experiência em jornalismo investigativo, mais de uma década a viver neste arquipélago, há muito que se sabia o que só agora foi divulgado.  Nenhum de nós entendeu a estratégia.

A mim, o comunicado da PJ deixou-me preocupado. A nota diz que se está perante um caso de homicídio, pelo que, doravante, “as investigações serão direccionadas neste sentido com vista à descoberta do (s), autor (és) deste crime”. Com isto fica claro e cristalino que as averiguações não terão seguido o caminho que devia ter percorrido.

Devo confessar que assumi o desaparecimento da Edvânea como causa minha. Havia prometido, que se dependesse de mim, o seu caso nunca cairia no esquecimento. Fiz tudo? Acho que não. Mas, em cada 14 de cada mês fiz questão de publicar na Inforpress ou na minha conta pessoal do Facebook algumas notas para lembrar que a Edvânea tinha saído do seu aposento, em plena luz do dia, para fazer um mandado da mãe em casa de uma vizinha, a poucos metros de distância, e nunca mais voltou. Regressaram, sim, os seus restos mortais que já repousam no Cemitério de Achada de S. Filipe. Uma viagem sem regresso.

 Muitas pessoas quiseram marcar a sua presença no último adeus à Edvânea, independentemente de conhecerem ou não os familiares. É a solidariedade que falou mais alto.

 No momento em que o seu féretro baixava à terra, ninguém conseguiu conter lágrimas que correram pelos rostos de crianças, jovens e adultos que acompanharam à nossa menina à sua última morada. Este seria um momento em que toda a Cidade da Praia devia vir à rua render a sua última homenagem a esta criança que, antes de morrer nas mãos do(s) criminoso(s), terá sofrido muito.

 O dia 14 de Novembro de 2017 ficará tristemente na memória da família, porque foi nessa data que a filha desapareceu, assim como o 14 de Julho de 2018, dia em que foram sepultados os seus restos mortais. Nesse dia completaria oito meses fora de casa.

 Foram oito meses de angustia e de espera que chegasse a boa notícia sobre a menina do bairro de Eugénio Lima.

  A meu ver, o desaparecimento da Edvânea só começou a merecer mais atenção depois de um veemente apelo do Presidente da República, Jorge Carlos Fonseca, a exigir que as autoridades competentes esclarecessem o caso, ainda que fosse com o apoio de peritos internacionais.  À voz do Chefe de Estado associaram-se outras, como a da Primeira-Dama, Lígia Fonseca, do Cardeal Dom Arlindo Furtado, e de líderes políticos.

 Assim, a 06 de Fevereiro, em nota de imprensa, o Ministério Público anunciou a criação de uma equipa conjunta de magistrados, Polícia Nacional e Polícia Judiciária para investigar o desaparecimento de crianças na Cidade da Praia já que havia registo de quatro casos suspeitos de sequestro.

A 22 de Fevereiro, em declarações à imprensa, o ministro da Administração Interna, Paulo Rocha, deixou transparecer que aquelas crianças podiam estar prestes a serem libertadas, ao afirmar que quem as tem na sua posse sabia que estava “a ser caçado nessa altura”.

No dia 10 de Maio, o Procurador-Geral da República (PGR), Óscar Tavares, talvez atraiçoado pelas investigações, que não foram direccionadas como devia ser, garantiu aos jornalistas que o processo sobre o desaparecimento de pessoas em Cabo Verde tinha avançado do ponto de vista da investigação e que havia índicos de que as mesmas pudessem estar vivas. Só que a Edvânea já estava morta.  E, agora, temo que as outras crianças tenham o mesmo destino.

Algumas figuras do país escapam ilesas, em termos de consequências políticas, porque estamos em Cabo Verde, meu País, minha Pátria.

Estranhamente, a governante que detém a tutela de investigação pouco ou nada se pronunciou sobre os casos do desaparecimento de pessoas nestas ilhas do atlântico médio.

Descansa em paz, Edvânea!

Abraçámos a tua misteriosa morte como uma causa nossa!

À terra, apenas entregamos o teu corpo!

Que Deus, na Sua infinita bondade, te acolha nos Seus braços!

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