Home » Opinião » Olhar 15

Olhar 15

Natacha Magalhães

Maio nos traz um Camões, o segundo para a nossa literatura, esta que se faz na grande língua que é o português. As outras também o são, mas delas não somos obrigados a dominar. Já a nossa, sim. Obrigatoriamente.

1.Estamos em maio. Diz-se que é costume, em maio, se plantar um “Maio” ou seja uma “árvore de Maio” em honra de alguém. Alguém não plantou uma árvore em nossa honra. Mas atribuíram-nos um Camões, o maior premio literário da Lusofonia. É mister parabenizar o vencedor, o escritor Germano Almeida. Mas o Prémio Camões 2018, concedido ao contador de estórias, é o reconhecimento da literatura cabo-verdiana e prova que podemos ambicionar e ousar ir mais longe e levar a nossa literatura para além das ilhas. E se em maio não “há moças e rapazes para “girar o Maio” ao som dos pífanos e tambores”, ao redor da “árvore de Maio”, que seja um momento para nos encher de orgulho e nos unir nesses tempos turbulentos.   

 

2.Maio também tem sido um mês bastante fértil em iniciativas ligadas à promoção do empreendedorismo, da criatividade, da inovação e da promoção da utilização das novas tecnologias de comunicação. Iniciativas que mostram como aquelas podem ser aproveitadas para a maximização dos negócios e projeção de marcas e de como uma pequena ideia pode se transformar num grande negócio. Mas quero aqui repisar num aspeto que venho falando há já algum tempo. Sim, é preciso estimular tudo isso. Ousar e empreender. Transformar sonhos em negócios rentáveis e sustentáveis. E porque não, como disse o vice-primeiro ministro, termos jovens milionários em Cabo Verde? Isso seria sonhar e pensar em grande. Todavia, que sonhos poderão se tornar reais se os sonhos dos empreendedores dessa terra “morrem” nos bancos, não de areia, mas os comerciais? A CV Garante, criada pelo anterior governo, veio não se sabe para quê. Depois de anos a existir apenas como entidade para, essencialmente, pagar salários, eis que agora, o governo avança com Pro Capital e assegura que já há fundos disponíveis. Há que se avançar e rapidamente. Caso contraio, não há iniciativas nem sonhos que valham e resistam sem capital.

 

3.Dá uma imensa tristeza. A imagem que vem circulando por esses dias nas redes sociais: a da barragem do Poilão completamente seca e assoreada, mostra-nos a dimensão da escassez hídrica que o país atravessa. Uma coisa é certa. A agricultura, em Cabo Verde, terá que mudar. É ponto assente. Já não se pode compadecer com práticas agrícolas que não apenas consomem muita agua, como se desse recurso tivéssemos abundância, como temos que nos render às evidencias claras: as mudanças climáticas estão aí, à vista de quem quer ver e finge que não. já não podemos estimular uma agricultura que, por um lado, não é rentável, e que por outro, demanda muita agua. E mais. Temos que evitar desinformação. Não há agua. Ou pelo menos não como havia antes e, assim sendo, cabe a todos fazerem a sua parte. A tendência é olharmos apenas para um lado do problema. Se não há agua, cabe ao Governo resolver o problema. Para isso, existe um Programa de Emergência.  Porém, há ainda tradicionais práticas nada consentâneas com o momento que o país atravessa. A rega por alagamento, o semear culturas de ciclo vegetativo longo, regas diárias e durante todo o ciclo de vida das culturas, a má utilização das infraestruturas – por exemplo, há quem danifique os motores por má utilização –  e o não cumprimento de certos deveres, nomeadamente o pagamento da água, são algumas delas. Naturalmente, em cenários de seca, os conflitos agudizam-se e os ânimos exaltam-se. E os agricultores sabem onde irem para fazerem valer as suas reivindicações e pressionar. E, em abono da verdade, têm-no conseguido. Mas é preciso alguma pedagogia e é imperativo que, para a agricultura, comecemos a promover mudanças nas práticas atuais. Cabe, tanto ao governo como às associações dos agricultores, aos operadores dos serviços de agua e às famílias assumirem-se como parte do todo e fazerem a sua parte. O que vem pela frente, ninguém sabe.

 

4.Visualize a cena. Às vezes, há coisas que só visualizando é que nos fazem ter a real dimensão dos factos e acontecimentos. Depois seja empático. A empatia, essa capacidade de nos colocarmos no lugar e na “pele” dos outros. Agora sim, veja. Uma vítima de esfaqueamento, e que por isso exige uma rápida evacuação, porque se trata de uma emergência, não consegue ser evacuada para um dos centros hospitalares do país, nem mesmo a pedido de um delegado de saúde, porque a companhia área, a única que opera no país, se recusa a fazê-lo. Os motivos? Ainda ninguém sabe, ninguém se dignou a vir explicar, como se de coisa pouca se tratasse. Apenas o que sabemos é que a Direção Nacional da saúde instaurou um inquérito para apurar os reias motivos que ditaram a decisão da companhia em deixar em terra um passageiro cujo estado o colocvaam na lista dos prioritários. Resultado? O ferido teve que ser evacuado…num pequeno barco, sem condições de segurança.  Continue a visualizar. Dessa é uma mulher. Grávida, em trabalho de parto. Da ilha do Maio. teve que ser evacuada de bote em estado delicado. Resultado? O bebé não resistiu. Da mulher pouco mais soube porque não foi noticia, exceto um pequeno apontamento do jornalista correspondente da ilha. Essas coisas que continuam a acontecer nos indignam profundamente porque estamos a lidar com a vida de seres humanos, pessoas na sua mais completa fragilidade. São acontecimentos que nos levam a questionar afinal em que pé anda a politica de transporte, eu me tempos, diz-se ter melhorado. Perante tais acontecimentos, é coerente se falar em melhorias? Quando, efetivamente, teremos um sistema de transportes para situações de emergência? E a companhia aérea, não teria nesse caso, no quadro do monopólio absoluto que tem, que prestar tais serviços?

 

5. Por último, mas não menos importante o assunto da semana, o mais debatido nas redes sociais. O discurso do primeiro ministro, no Horasis Global Meeting. Não seria caso, não fosse Ulisses Correia e Silva o chefe do governo de uma nação que quer se tornar num polo de atração de investimentos estrangeiros. De resto, o PM nunca seria obrigado a falar perfeitamente o inglês. Não é anglófono e, pelo que se sabe, não estudou em Harvard ou Cambridge. Mas em comunicação há aquilo que chamamos de assertividade. E é unicamente nessa ótica que analiso a intervenção do PM. Cabe aos bons lideres e bons políticos serem bons comunicadores. Uma comunicação assertiva gera empatia e conexão. É imperativo que o sejam para puderem transmitir com clareza e precisão as suas ideias. Para não confundirem quem os ouve; para mostrarem confiança e convicção naquilo que dizem. Ulisses não tinha obrigação de ser um grande orador, de discursar por meia hora ou mais para mostrar dotes de bom comunicador. Porém, tinha que fazê-lo assertivamente. Foi positivo? Foi. Mostrou autoconfiança, expressou aquilo que queria, e que foi “vender” o país como um destino atrativo ao investimento estrangeiro? Foi aqui, o PM não esteve bem. O facto de optar por intervir numa língua que não domina – e para tal não era obrigado – limitou-lhe e muito a comunicação. Não foi muito preciso, e, economicamente falando, perdeu uma oportunidade de discorrer mais sobre as nossas vantagens comparativas e competitivas do país.  Acredito que haveria mais coisas a serem ditas e talvez as que foram referidas, pudessem terem sido ditas com maior amplitude e alcance. Mas não é um fim do mundo que o PM não domine o inglês. Contudo, é preciso ver que Ulisses Correia e Silva não é qualquer um. E na qualidade de quem é deve cuidar deste aspeto. Nada que um tradutor, que aliás ele tem direito, não resolvesse. Ou uma cábula onde constasse os principais pontos da sua comunicação.

PartilheTweet about this on TwitterShare on FacebookShare on Google+Email this to someone

Comentário

Publicidade