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Cartas de Lisboa (com Manoel de Barros, o poeta)

Talvez fosse a maneira que a mãe encontrou para aumentar as pessoas daquele lugar que era lacuna de gente

Filinto Elísio

21. SAB | Dar entidade pessoal ao dia

 

Olha-se de esguelha | e de soslaio como gostas que diga | para o entrevistado | Palavra que não impressionam as luzes da ribalta | nem envaidece o pisar nos tapetes vermelhos | Prefere-se a tua gargalhada diante disso tudo | e em termos de asneiras aquilo não deixa pedra sobre pedra | come-as todas e sem dar cavaco ao bom senso | Vê-se ele ao espelho e põe-se a matraquear | de forma caleidoscópica | seu repertório requentado | Hás de rir estar o dia entregue à bicharada | mas agora é sábado e o gato permanece estirado em sua “siesta” | Permanece o bichano no seu sono dos justos | alheio à arte de infantilizar formigas | que é o que apetece a estas horas | Já o Pranchinha (se por cá estivesse) destrinçava celebridades das fulanidades | e tal como no poema de Manoel de Barros dava entidade pessoal ao dia | Bem a este modo:

 

(…)

Depois de ter entrado para rã, para árvore, para pedra
– meu avô começou a dar germínios.

Queria ter filhos com uma árvore.
Sonhava de pegar um casal de lobisomem para ir
vender na cidade.

Meu avô ampliava a solidão.

No fim da tarde, nossa mãe aparecia nos fundos do
quintal : Meus filhos, o dia já envelheceu, entrem pra
dentro.

Um lagarto atravessou meu olho e entrou para o mato.

Se diz que o lagarto entrou nas folhas, que folhou.

Aí a nossa mãe deu entidade pessoal ao dia.

Ela deu ser ao dia,
e ele envelheceu como um homem envelhece.

Talvez fosse a maneira
que  a  mãe encontrou  para  aumentar
as pessoas daquele lugar
que era lacuna de gente.

 

22. DOM | Lisboa: Revolução de Outubro

 

Pelo Centenário da Revolução de Outubro | e os 100 anos que abalaram o mundo | acontecem reflexões e debates um pouco por todo o lado | Impõe-se-nos “assuntar” as várias perspetivas | algumas até dialógicas | contraditórias mesmo | sobre a problemática | Com mente aberta e desempoeirada | perante os vários tons “dessa cinza” | Em Lisboa | as conferências de Alberto Toscano (University of London) e Yuri Slezkine (University of California – Berkeley) | prometem.

 

23. SEG | Livros & seus “aprendimentos”

 

Temos em mãos os exemplares de “Rua Antes do Céu” | do poeta José Luiz Tavares | Prémio BCA de Literatura | com a Academia Cabo-verdiana de Letras | É mais uma (27ª) publicação da Rosa de Porcelana Editora | desta feita numa parceria com a editora Abysmo | O lançamento deste livro será no dia 31 de outubro | pelas 19 horas | no auditório do BCA/Garantia/Promotora | cidade da Praia | O escritor Jorge Carlos Fonseca fará as honras de releitura da obra | em mesa composta pelo escritor David Hopffer Almada (ACL) e pelo administrador bancário António Castro Guerra (Prémio BCA) | A não perder…


*****
Em Cabo Verde | no dia 27 de outubro | apresentaremos a nossa edição da obra “Chá do Príncipe” | da escritora Olinda Beja | Lançámo-lo há dias no Funchal esses contos de e sobre São Tomé e Príncipe | Na cidade da Praia | a sessão acontecerá na Biblioteca Nacional | pelas 17H30 com apresentação da escritora Vera Duarte | Todos estão convidados…


*****
Manoel de Barros | poeta que nos encanta | dissera numa entrevista:

(…)

“Quanto às funções da poesia… Creio que a principal é a de promover o arejamento das palavras, inventando para elas novos relacionamentos, para que os idiomas não morram a morte por fórmulas, por lugares comuns. Os governos mais sábios deveriam contratar os poetas para esse trabalho de restituir a virgindade a certas palavras ou expressões, que estão morrendo cariadas, corroídas pelo uso em clichês”.

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