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Recordando B. Leza

Lembrar B.Leza é também recordar o “Bronze”, seu mítico violão com as cordas de “Tripa de Gato” - como então ele dizia -, mas, também, lembrar os chamados “meninos d’Casa de B.Leza”

Vicente Nobre

Quando Cabo Verde se prepara para receber, por parte da UNESCO, o galardão que reconhece e premeia a morna como Património Imaterial da Humanidade, achamos de bom tom associar esse reconhecimento aos 60 aos do falecimento daquele que deixou ao país, em quantidade e qualidade, a maior herança musical: naturalmente, a “Morna”.

Francisco Xavier da Cruz – B. Leza, faleceu no dia 14 de Junho de 1958, um sábado à tarde, na segunda enfermaria do Hospital de São Vicente, onde então se encontrava internado.

Contava 52 anos de idade. É dessa data a sua última composição musical: “Lua Nha Testemunha”.

A seu lado estava outro doente, que era corcunda. Conhecido por Djidjuco, tocador de cavaquinho, morador em Fonte Filipe, foi ele e mais ninguém quem a transmitiria para a posteridade.

A anteceder o noticiário das oito da noite, na então Radio Barlavento, em nota do dia, o Professor Doutor Baltazar Lopes da Silva anunciava a sua morte, ao mesmo tempo que lhe fazia o elogio fúnebre.

As suas composições – mornas – ultrapassam uma meia centena. Porque ele viveu apenas 52 anos, temos para nós que terá feito uma morna por cada ano de vida.

Ele próprio perdeu a conta dessas composições, uma vez que se lhe extraviou o “meu livrinho”, como pomposamente tratava a sua coletânea “Partícula da Lira Cabo-verdiana”, que editara por volta de mil novecentos e trinta e dois, juntamente com outros escritos, nomeadamente o manuscrito relativo à sua viagem e estadia em Portugal aquando da Exposição Colonial de 1940.

Precisamente por isso, quando nos primeiros anos de 1950, uma das casas comerciais de São Vicente pôs à venda no mercado, discos de 45 r.p.m., que haviam sido gravados em Portugal por Fernando Quejas e Marino Silva, ele teve grandes dificuldades em fazer valer os seus direitos autorais. E isto porque, aquelas mornas, não se encontravam registadas em seu nome, na Sociedade de Autores, que como é óbvio era sedeada em Portugal.

Em nosso entender, em B.Leza encontramos dois tipos de mornas. Ou sejam: aquelas mornas que ele fez porque se sentiu inspirado e aquelas outras que lhe foram solicitadas, por pessoas as mais diversas, mas sempre amigas, uma vez que ele, apesar de doente e sofredor, era uma pessoa meiga, de fino trato e de grande humanidade.

As pessoas que lhe pediam uma morna diziam-lhe porque queriam-na e, regra geral, era por motivo de uma paixão, gratidão, homenagem, viagem, etc…

Citamos a seguir algumas dessas mornas: “Brasil”, a pedido e sugestão do seu grande amigo e antigo companheiro de carteira do Liceu Infante D. Henrique, Dr. Júlio Monteiro, na altura Administrador do Concelho, em homenagem ao Professor Doutor Gilberto Freire, então de visita a Cabo Verde como convidado do então Governador Colonial.

B.Leza contava que quando foi ao Palácio, onde estava instalado, apresentar e executar essa morna, aquele professor lhe colocou um beijo na testa, ao mesmo tempo que lhe dizia que a referida morna, para ele, Gilberto Freire, passaria a ter tanto valor como a Comenda “Cruzeiro do Sul”, de que ele era detentor.

Já “Chã de Pedras”, “Fada”, “Distino di Omi”, “Mindunca”, “Talvez”, “Bia”, “Argentina”, foram-lhe solicitadas por Maria Augusta Tavares d’Almeida, Ricardino Santos “Tadina”, Armando Leite, também conhecido por Armando de Nha Eufémia ou Armando da Capitania, Djim Antunes e António Pereira da Silva.

Existem, outrossim, algumas mornas inéditas e não editadas, tal como a do Grupo Recreativo Lusitanos que ele compôs entre Agosto e Setembro de 1950, uma morna que está ligada aliás à nossa juventude, uma vez que pertencíamos ao referido grupo. Uma morna lindíssima-verso e música- que foi muitas vezes cantada na então na Radio Club Mindelo e Radio Barlavento, pelo Manuel de Auta, primeiro presidente do grupo.

A terminar diremos que lembrar B.Leza é também recordar o “Bronze”, seu mítico violão com as cordas de “Tripa de Gato” – como então ele dizia -, mas, também, lembrar os chamados “meninos d’Casa de B.Leza”.

Que não se pense contudo que era qualquer um. Nada disso. Eram filhos de familiares ou de alguém por quem ele tinha especial afeto.

Temos o Olavo Bilac, Filho de Fefe Gomes, seu colega dos Correios; os irmãos Juca e Caduca, filhos do seu compadre Italred, um oficial da Marinha Mercante; Djê e Pirra, filhos do seu primo Nin; Chiquinha de Júlio de Pina, sua sobrinha; Chiquinha de Bia d’ Ana, uma vizinha; e por último, a Titina Rodrigues, filha do seu amigo e vizinho, Toi Lulu, que ia com os seus livros com o objetivo de estudar e receber explicação, mas que acabava sempre no canto.

Dos rapazes, apenas o Juva não tocava o violão, enquanto que as duas “Chiquinhas” cantavam – e bem!

O Bilac fez três bonitas mornas: “Janela”, “Du” e “Distinto Negro”, enquanto o Caduta compôs a morna “Zinha”.

De referir ainda que usando o nome Frank Xavier da Cruz  – Frank era o nome por que era tratado pela própria mãe Rosa e outros familiares – publicou, em 1950, “Razão da Amizade Cabo-Verdiana pela Inglaterra”, um livro onde fala não só da presença dos ingleses em São Vicente, suas vivências e costumes, seus relacionamentos no dia-a-dia com o povo, que de uma forma natural pôde assimilar aqueles hábitos.

Esse livro foi editado no Rio de Janeiro para fugir então da medonha censura exercida pelo Governo Colonial fascista.

Nas páginas do mesmo livro encontramos o verso da morna “Hitler cá tá ganha guerra ni nada”, composta durante a Segunda Guerra Mundial, assim como os contatos que teve com a BBC já quando se encontrava internado no hospital.

Mindelo, 14 de junho de 2018

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