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Alguns comprimidos para as inquietações do dia-a-dia

A condição humana ajuda-nos a ser humildes e, o que é ainda mais importante, faz-nos ter consciência do quanto temos a melhorar

Clemente Garcia

Ultimamente tenho reflectido com bastante acuidade sobre um conjunto de situações que afligem o nosso quotidiano, inspirado em leituras atentas da filosofia de Nietzeche que nos ensina a combater as angústias e os medos dos nossos dias.

Esta breve incursão pela filosofia de Nietzsche ajuda-nos a tomar decisões, levantar os ânimos, reencontrar o rumo perdido e a relativizar a importância de todos aqueles incómodos que nos assolam no dia-a-dia.

Eis pois alguns tópicos que gostaria de compartilhar convosco.

1. ELOGIO E DESPREZO DA CLASSE POLÍTICA

A crítica dirigida aos políticos não é nova, mas a sua descrição permite conhecer a verdadeira natureza da política através dos seus detratores ao longo da história (Palonen, 2012). A novidade talvez seja que, graças ao poder multiplicador dos meios e das redes, a crítica adquiriu as dimensões de um autêntico linchamento. Que os políticos e as políticas deixam muito a desejar é uma evidência em torno da qual não merece a pena perder demasiado tempo. Tão-pouco é algo que deveria surpreender aqueles que sabem como funcionam outras profissões, nenhuma das quais está livre de ser seriamente repreendida. Em relação aos outros ofícios, também manifestamente melhoráveis, têm a sorte de estar menos expostos ao escrutínio público. Ora, a pergunta que se me oferece fazer é como se podem encontrar ainda candidatos para uma actividade tão vilipendiada, dura, competitiva, descontínua, esquadrinhada e pouco compreendida?

No entanto, convém avisar que a titude crítica em relação à política é um sinal de maturidade democrática e não a antessala do seu esgotamento.

2. UM HOMEM QUE SE CONSIDERASSE ABSOLUTAMENTE BOM SERIA ESPIRITUALMENTE UM IDIOTA

O ser humano é por natureza um ser imperfeito e quanto a isso não há nenhuma discussão, eis a razão por que passamos grande parte do nosso tempo a corrigir os nossos erros. Todavia, ouvimos, bastas vezes, pessoas que se autointitulam de omniscientes a fazer avaliação de toda a ordem, sobretudo nas redes sociais. Nas palavras de Margarida Vieitez, autora do livro “Perigo! Duas Caras” com a qual subscrevemos “…As redes sociais estão invadidas por Maxinarcisistas. Elas simbolizam para eles o mesmo que o pólen significa para as abelhas. Com uma diferença, as abelhas só picam quando são atacadas, eles podem picar e deixar o seu ferrão, mesmo não sendo atacados…”.

Ora, assumir a condição humana ajuda-nos a ser humildes e, o que é ainda mais importante, faz-nos ter consciência do quanto temos a melhorar. As pessoas inflexíveis que fazem questão de ser perfeitas sofrem perante as consequências dos seus actos imperfeitos. Costumam atribuir as culpas daquilo que corre mal aos outros e perdem as estribeiras quando alguém lhes assinala alguma falha que possam ter cometido.

O Conselho espiritual que Nietzsche dá neste caso, é o seguinte: não podemos aspirar a ser sempre bons e a fazer sempre tudo bem. Basta que estejamos dispostos a fazer hoje um pouco melhor do que fizemos ontem.

3. AMOR PRÓPRIO

É fundamental que amemos a nós próprios, de forma sã e salutar, para podermos ter forças e não nos disperdiçarmos.

Assim, Viva para si e não para o mundo, pois as pessoas que não sabem amar-se procuram constantemente a aprovação dos outros e sofrem perante a rejeição. Para quebrar este ciclo de dependência, devemos admitir que não podemos agradar a todos. Por outro lado, Fuja das comparações. São uma fonte de infelicidade. Há muitas pessoas com qualidades e atributos que a si podem faltar, mas você também possui virtudes das quais outros carecem.

Portanto, Deixe de olhar para a galinha do vizinho e trace o seu próprio destino.

4. A PEDAGOGIA DA VISÃO

Mais uma vez chamo a atenção para a questão da humildade, pois vezes sem conta, ouvimos amiúde pseudo-políticos que não estudou e nunca leu um único livro na sua vida, a apelar as pessoas do alto do seu pedestal para terem visão. Veja se pode! É de bradar aos ceús. Mas compreendemos!

Infelizmente são os que lhe apontam o dedo e o criticam repetidamente, como se fossem donos da verdade, com ares de superioridade, tal qual extraterrestres iluminados. São ainda todos os que têm prazer em fazê-lo sentir-se “burro” e “ignorante”, inferior, desconfortável, envergonhado e muitos outros sentimentos negativos, pois essas pessoas, para sentirem que existem, precisam de “incapacitar”, repreender, castigar e fazer mal aos outros.

Em “O Crepúsculo dos Deuses”, Nietzsche refere que são necessários educadores para ensinar três tarefas: ensinar a ver, ensinar a pensar e ensinar a falar e a escrever. O objectivo desta aprendizagem seria, segundo Nietzsche, a “cultura distinta”. Aprender a ver significa “acostumar o olho à serenidade, à paciência, ao paulatino aproximar das coisas”, isto é, educar o olho para uma atenção profunda e contemplativa, para uma visão lenta e morosa. Este aprender a ver seria “o primeiro estádio preparatório para a espiritualidade”.É necessário aprender “a não reagir de imediato a um impulso, a fazer uso dos instintos que travam ou inibem as reações”.

Em vestes de síntese, a política é uma actividade que se pode melhorar mas, sobretudo, é algo inevitável. Os populistas ignoram ou ocultam esta inevitalidade, espalham a desconfiança em relação aos políticos como se fosse possível que a sua actividade passasse a ser desempenhada por quem não é político ou por aqueles que actuam como se não fossem.

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