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A pegar delírio

Que a lucidez não me permita a cegueira | perante o ecocídio | nem me queira ela em estado de negação | face à tragédia humana

Filinto Elísio

14. SAB | Cidade como verbo a pegar delírio

A Praia precisa de cidadania aplicada | de poemas que levem pessoas à rua | e que suas metáforas se metamorfoseiem em sonhos plausíveis | A cidade precisa de palavras-chaves | que rompam a inércia coletiva | e despoletem vontades latentes | Afinal todo o querer manifesta uma poética | e sugere (no vaticínio de Manoel de Barros) o verbo a pegar delírio…

 

16. SEG | De uma estação no inferno

Dantesco | o atentado terrorista do dia 14 | em Mogadíscio | Somália | Mais de 280 mortos e 300 feridos | Uma desumanidade que não se pode silenciar e invisibilizar | Onde estarão os comentaristas de serviço? | E as correntes de solidariedade do tipo “je suis”? | Não será também terror uns serem “menos iguais” que outros? | Revolta que se descrimine tanto | e sistematicamente | até no inferno…

 

16. SEG | E há poemas que só vão no meu moleskine

À hora desta nota | ainda a TSF anuncia as vítimas mortais dos incêndios | Lamento por tantas vítimas | e não posso ficar indiferente à tragédia | Um comentarista | desses encartados | diz como pode ser | e como pode não ser | Eu só lamento o infortúnio das pessoas | e compreendo que o terror não se limita aos atos desesperados.


*****
Calha-me agora estar de vistas para o quintal | a matutar a madurez das laranjas (no pé) | e dos limões (da árvore do vizinho) | Chamo a isto trabalhar com vistas | Ciente de que a poesia é também seu silêncio | e de que não vale contar os aviões nos céus desta segunda-feira | Ciente também do esplendor da Ponte 25 de Abril que se descortina distante | e do gato que assume a arrogância do seu giro | escrevo no meu moleskine.


*****
E o tanto que me incomoda a indiferença | Não a indiferença filosófica | de Albert Camus | em sua personagem (sem que lhe ousasse protagonista) | narrador de “O Estrangeiro” | nestes termos: “Hoje morreu a minha mãe. Ou talvez ontem, não sei bem” | Ou de Franz Kafka | que anotara no diário: “A Alemanha declarou guerra à Rússia; à tarde, piscina.” | Incomoda-me a indiferença que nos torna apáticos à barbárie | e nos mantém em cima dos muros | na espessura dos estranhos-no-ninho | Alinho proposições no meu moleskine | e destas enumero duas para aqui postar: | a primeira soletrar cada ínfima sílaba da madurez das laranjas e dos limões | e a segunda extirpar (até nas frestas da poesia) esse gato puro e duro que | passeando sua beleza no quintal | exaspera o cão do vizinho (de nome Sá Pinto)…

 

17.TER | Canción Extranjera

Que a lucidez não me permita a cegueira | perante o ecocídio | nem me queira ela em estado de negação | face à tragédia humana | Que as palavras mantenham peso | e ocupem espaço semântico do inferno | ou proclamem a subserviência zero às coisas instituídas | Sejam elas matéria em determinada frequência | capazes de atravessar as cortinas de fogo e de fumo | qual grafito incendiado num muro pintado de fresco.


*****
Cedo | mal me rompe esta manhã nublada | Outonal | agora que o sol se impõe mais tarde | balbucio (num espanhol a reclamar revisão) poemas | Deixo-vos estes versos de Luis García Montero:

 

Pero las cosas han cambiado.
Míralas
en su desconocido firmamento.

Esta lámpara joven.
¿Qué soledad descubre su luz en el espejo?

Este vaso de agua.
¿Qué noche de verano comprende sus secretos?

Estas vigas azules.
¿Qué araña tejerá el dolor de sus cuentos?

El idioma dormido de las cosas
exige un corazón subtitulado
para contar los sueños.

Míralas,
hablándote despacio, igual que a un extranjero.

— 

www.albatrozberdiano.blogspot.com

www.beiramardesmedido.blogspot.com

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