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Nós e Karl Marx

Marx preferia a igualdade à liberdade. Todavia, a prática demonstrou não poder haver igualdade sem liberdade, ou, dito de outro jeito, sem liberdade, a igualdade só pode ser a baixo nível (...)

Arsénio Fermino de Pina*

Li a crítica do Dr. Casimiro de Pina à decisão de comemoração, na Livraria Pedro Cardoso, por um grupo encabeçado pelo Dr. Manuel Faustino, dos duzentos anos de nascimento do filósofo alemão Karl Marx, que achei pertinente, em grande parte, embora decisão perfeitamente escusada, por haver datas muito mais importantes para nós, cabo-verdianos, para relembrar e festejar, dado que a maior parte da nossa população pouco ou nada sabe de Marx. Inclusive, muito partidos socialistas retiraram do seu ideário a filiação marxista. Como terceiro-mundista, não me repugna essa iniciativa, por ter beneficiado das ideias de Marx. Essa ignorância colectiva da nossa população fez-me recordar a riola do trotskismo entre nós e o esclarecimento do Governo, que passou ao lado da população, por ser uma minoria insignificante a ter ouvido falar antes de Trotsky, e praticamente ninguém do entrismo. Publiquei um artigo parodiando um pouco o assunto, em que contava a história verídica de uma amiga da família cujo filho tinha sido detido por essa altura; foi à Segurança falar com o director, o amigo que conhecia desde a infância, Beitz, começando por lhe dizer que, graças a Deus, nem ela nem ninguém da sua família era toche. O Beitz lá a tranquilizou, informando-a de que o filho ia ser libertado, por já ter sido ouvido. Como trabalhava comigo e me sabia letrado, foi-me procurar para melhor se informar sobre a riola dos toches. Creio que a maioria da população pensava como ela, o que deve acontecer com o filósofo Karl Marx, que os frequentadores do extinto e saudoso Eden Park devem pensar ser os irmãos Brucho Marx.

Karl Marx

Presumo que a escolha da Livraria Pedro Cardoso, na Praia, se deve ao facto desse polemista, poeta, professor e nacionalista não chauvinista, formado no famoso Seminário-liceu de S. Nicolau, se ter referido a Karl Marx num dos seus poemas, no princípio do século passado, talvez o primeiro poeta de língua portuguesa a citar Karl Marx, assunto a que me referi num artigo de apreciação da sua obra Folclore Caboverdiano.

Essa iniciativa de comemoração por um grupo com tendência marxista não me parece pecado mortal, dado que o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Junker, se deslocou à cidade onde nasceu Marx para essa comemoração, o que levantou um grande clamor daqueles que não concordaram com essa participação.

O filósofo moral australiano, Peter Singer, defende que “a influência de Marx pode ser comparada à de grandes figuras religiosas como Jesus e Maomé, dado que 40% da população mundial viveram, durante o século XX, sob governos que se consideravam marxistas e reclamavam seguir as suas ideias”. Essas ideias estiveram na génese dos primeiros partidos sociais-democratas, socialistas e comunistas, do bolchevismo e radicalismo violento; formataram individualidades como Rosa Luxemburgo, Che Guevara, Álvaro Cunhal, Fidel de Castro, Mao Tzé Tung, Ho Chi Min, e permitiram a luta contra o nazismo, o fascismo e o colonialismo. Marx é odiado por alguns pelo seu desprezo pelas tradições, pelas religiões (“ópio do povo”), embora adorado por outros, pela sua luta pelos direitos dos trabalhadores e oprimidos e criação de outras perspectivas e alternativas para a Humanidade.

Os opositores de Marx denunciam o uso posterior do seu pensamento, o que foi uma subversão das suas ideias, na opinião do historiador e professor de Economia na Universidade do Porto, Manuel Loff. Escrevi em tempos que a teoria do comunismo era excelente, mas a prática ruim, no que também incluía o sistema de partido único com o seu centralismo democrático, tomado de empréstimo no comunismo; posteriormente, convenci-me de que quando a prática é ruim, a razão é a teoria já conter o vírus da ruindade bem escondido. As suas ideias que defendiam a abolição do regime capitalista, a supressão da burguesia e o fim da propriedade privada, só teriam êxito através de uma revolução, não pelo terror como usado por Estaline, Poll Pot e outros da mesma cepa. Todavia, a tomada do poder por meios violentos não lhe desagradava.

Marx preferia a igualdade à liberdade. Todavia, a prática demonstrou não poder haver igualdade sem liberdade, ou, dito de outro jeito, sem liberdade, a igualdade só pode ser a baixo nível, isto é, uns, a minoria (a elite partidária e os ricos), no luxo, a grande maioria (o resto da população), no lixo.

Karl Marx tece uma vida atribulada. Iniciou os estudos universitários (Direito) em Bona, mas meteu-se na pândega e os pais decidiram enviá-lo para Berlim, onde se formou em Filosofia. Aperfeiçoou-se em economia política e começou a escrever artigos brilhantes num  jornal  berlinense, vindo a ser director do mesmo até este ser encerrado. Emigrou para Paris, já casado, onde conviveu com muitos revolucionários e extremistas como Bacunine e Proudon. Daí foi expulso indo parar à Bélgica, regressando a Paris em plena efervescência revolucionária, onde conheceu Frederich Engels, que havia de o acompanhar e apoiar durante toda a vida, até financeiramente, por o pai ser um industrial do algodão na Inglaterra. Depois da morte de Marx, ele já residindo em Londres, foi Engels que reuniu e classificou os papéis do espólio de Marx e os publicou.

Marx publicou o seu “Manifesto Comunista” em Fevereiro de 1848, o qual criou o espectro do comunismo na Europa. Faleceu, no entanto, antes da Revolução de Outubro de 1917, altura em que estava em execução um projecto comunista num país atrasado, e não, como previa, na Alemanha ou Inglaterra, onde a revolução industrial tinha criado condições mais favoráveis à implantação do comunismo. Foi Lenine que se encarregou de executar as ideias de Marx, expressas na sua obra monumental O Capital, a prática revolucionária capaz de fazer triunfar o marxismo. A escritora russa Ludmila Outirskaia, numa entrevista recente na revista La Revue, falando de Lenine, citou uma afirmação dele: “A intelligentsia não é o cérebro da nação, é a sua merda”. Esse desprezo pelos intelectuais é muito frequente entre os brutos que nos dirigem, acrescentou a escritora.

O filósofo Isaiah Berlin, um dos melhores especialistas do pensamento russo, explica-nos porque o comunismo foi implantado na Rússia e não na Alemanha ou Inglaterra: “desde os meados do século XIX, esse país era o ninho dos intelectuais mais intransigentes e mais impregnados de utopias da Europa. Por outro lado, a força das ideologias não tem relação com a sua verdade”. Dizia também Berlin que o Leninismo era uma das saídas possíveis de Marx, mas não a única possível. Ele era de opinião que o mundo portar-se-ia melhor se Marx não tivesse existido; poderíamos também prescindir de Wagner, Freud e Hannah Arendt, pois, na sua opinião, há certas coisas que não deveriam ser ditas, ou escritas, mesmo sendo verdadeiras.

Não obstante as críticas que podemos e devemos fazer aos executantes do Marxismo, pelos monstros que criou – e aqui Casimiro de Pina tem toda a razão na enumeração dos crimes cometidos pelos comunistas -, devemos-lhe algo: com a implantação do comunismo na União Soviética, o Ocidente ficou alarmado com a vaga revolucionária que assolou a Europa. O comunismo funcionou como o gongon que amedronta os meninos. As democracias liberais passaram a aplicar políticas sociais para esvaziar o descontentamento dos trabalhadores. Os primeiros passos do Estado providência foram dados na Alemanha no final do século XIX, em França e na Inglaterra, trazendo para a ribalta os direitos dos trabalhadores, passando a aplicar políticas públicas em benefício dos trabalhadores e menos favorecidos, como escreveu Manuel Carvalho num excelente artigo no Diário de Notícias, de onde colhi elementos para estas linhas.

Parede. Maio de 2018                

                                                   

* (Pediatra e sócio honorário da Adeco)

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