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Claridosidade

É impossível olharmos para a Claridade e ficarmos indiferentes. Olharmos para os Claridosos e não nos posicionarmos. Quem a percebe, pela primeira vez, não tem como evitar a convicção de estar perante a mais vibrante e, quem sabe, a mais determinante, afirmação da Caboverdianidade

Filinto Elísio

 O livro “Claridosidade – Edição Crítica”, lançado em Julho deste ano, no Festival de Literatura-Mundo do Sal, visou assumir a Claridade, para além da literatura nacional cabo-verdiana, mas algo que, assumindo plenamente a caboverdianidade, se permite a diálogos mais alargados e a dialogismos mais instigantes.

Estamos no ano do octogésimo primeiro aniversário do surgimento da Revista de Artes e Letras Claridade, um fenómeno que tem margens cronológicas múltiplas e que vai para além do enraizamento literário cabo-verdiano. Pensando em Edouard Glissant, pressente que a árvore claridosa tem tanto de raízes como de rizomas; a crioulização, diferentemente do multiculturalismo, produz identidades que vão para além das raízes e que crescem, como rizomas e transcendendo territórios e ancestralidades; por isso, é mais do que Claridade, mas sim, e sobretudo, Claridosidade.

 Diga-se que o projeto Claridade não é apenas um marco da produção cultural e literária, e de enraizamento crioulo às ilhas, mas um núcleo importante do pensamento crítico da intelligentsia da época, gerações sucessivas que não estavam alheios aos fundamentos do modernismo português (primeiro, em torno da Orfeu, e, depois, mais nitidamente, em torno da Presença) e do modernismo brasileiro (decorrente da Semana de Arte Moderna em São Paulo, em 1922, e dos sucedâneos regionalistas, especialmente dos nordestinos).

Instigantes também os questionamento de toda a produção em lacto senso. Na  criação e na trajetória (um total de nove números, sem qualquer regularidade ou periodicidade) da revista, criada na cidade do Mindelo, em 1936, e nas participações dos seus vários colaboradores até 1960. No mérito de se questionar se é um movimento iniciado nos anos vinte e anos trinta (com o “Círculo Cultural”, em Fonte Cónego (1922), seguindo-se-lhe a fase da “Tertúlia”, na Praia (1928) e, finalmente, o aparecimento da revista Claridade, no Mindelo (1936)) e que se mantém cintilante, em afrontamento dialético com várias gerações, atravessando inclusive o marco histórico de 1975, ano da Independência de Cabo Verde, e para dar sinais de vigor estético nalguns estetas cabo-verdianos contemporâneos e de emergência critico-literário no estudo da processo histórico da escrita cabo-verdiana.

 É impossível olharmos para a Claridade e ficarmos indiferentes. Olharmos para os Claridosos e não nos posicionarmos. Quem a percebe, pela primeira vez, não tem como evitar a convicção de estar perante a mais vibrante e, quem sabe, a mais determinante, afirmação da Caboverdianidade. A Claridade foi um arranque decisivo de uma literatura de alcance “nacional” e tudo nela (poesia, ficção, ensaio, recolha etnográfica, referência bibliográfica e intertextualidade) é determinação de ser Cabo Verde, de forma mais telúrica possível, umas vezes por exclusão de partes da formação antropológica – como o “nem África, nem Europa; Cabo Verde” -, outras vezes, pelo fincar os pés na terra para a reelaboração dos dramas históricos comuns das estiagens, das secas, das fomes, do abandono, do êxodo, da busca (muitas vezes existencialmente angustiosa) da dispersão migratória – como o dilema partir querendo ficar e o ficar querendo partir.

 Creio que não é preciso ser-se especialista ou estudioso em literatura e cultura cabo-verdianas para constatar que a revista Claridade – nas opções das letras (poesia, ficção e ensaio) e ideias – tenha despoletado novas dizibilidades artísticas e outras proposições temáticas não totalmente compagináveis com o estatuto colonial das ilhas de Cabo Verde. Por isso, não nos alinhamos no pensamento de que os fundadores da revista estivessem alheios à crítica da realidade colonial do arquipélago e que os mesmos conotavam uma espécie de orfandade política, ideológica e combativa.

 Entretanto, um olhar mais complexo sobre o fenómeno, permite-nos inferir que o movimento de fincar os pés na realidade insular mais do que uma estratégia para se apreender as especificidades de um modelo colonial de sucesso, é uma exégese, primeira, de consequente autonomia cultural e, segunda, de recomposição dos ethos genéticos de Cabo Verde, seja europeu como africano, seja a resultante mestiça que, ao invés de diluir a Europa e a África, assume-as, nem sempre pelo viés proclamatório, mas pelo viés de conteúdos que proclamam uma re-existência literária autodeterminada.

 Em verdade, definidora da Claridade, no meu modesto entender, terá sido a sua capacidade de ser local e trans-local, mantendo inteira a identidade de origem, e haver interposto – nos poemas, contos e trechos de romance, bem como nos ensaios e apontamentos, dados e informações sobre a história social e económica das ilhas e esquadrinhar a psique cabo-verdiana que apresenta – um retrato epocal de/para Cabo Verde e de/para o mundo, a “paramundialidade sigular”, sendo em muita dimensão o que se caracterizaria hoje por Literatura-mundo.

 A força e a transcendência da Claridade está também na sua dialética, pois é antes de mais provocativa da época em que ilumina e sugestiva (e quase premonitória), posto que dá pistas e referências para sua ultrapassagem histórica, como no-la provaremos em ler as análises das estratégias culturalistas dos letrados cabo-verdianos, de fundo colonial-regionalista e feição lusitano-crioula, de José Carlos dos Anjos (“Literatura, Intelectuais e Poder”) ou de apagamento da componente africana da crioulidade, como a qualifica Gabriel Fernandes (“A Diluição da África —A Saga identitária Cabo-verdiana”).

 Com esta edição crítica, quisemos instigar todos em relação ao fenómeno. Ir para além da revista e “das suas nove edições que abalaram o mundo cabo-verdiano” e do movimento mantém ressonâncias literárias, culturais e académicas ainda hoje. Escrevem no livro oito estudiosos – um conjunto alargado  e poliédrico que (termos não nosso, mas risco nosso) intitulámos de Claridosidade. Quisemos que o fenómeno não se resuma à Revista de Arte e Letras, reconhecendo amiúde a sua enorme importância, escrutinando-se seu campo cultural, antropológico e histórico no que seja a complexidade dos olhares.

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