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Stanley Jordan: “Precisamos relembrar a importância da liberdade”

Em exclusivo ao A NAÇÃO, o guitarrista Stanley Jordan, referência mundial do Jazz, participante do último Kriol Jazz Festival, abriu um pouco as portas do seu mundo. Falou do trabalho comunitário que desenvolve através da musicoterapia e contou de que forma a morte do pai o levou a criar a “master piece” dos seus álbuns. Stanley assume-se como um músico de integração, construtor de pontes através da música. Um ser humano que é uma caixinha de surpresas, conforme atesta esta entrevista.

Esta é a sua segunda vez em Cabo Verde, mas diz que se sente como se fosse a primeira. Porquê?

Sim, tecnicamente, esta é a segunda vez que venho a Cabo Verde, mas, de facto, sinto como se realmente fosse a primeira. Da outra vez, há dois anos, cheguei, toquei e fui embora. Não tive tempo para conhecer as pessoas e desfrutar deste paraíso tão bonito. Desta vez fiquei mais tempo (risos)… Tenho apanhado sol, falado com as pessoas que são fantásticas, sinto-me mesmo bem-vindo. Sinto que Cabo Verde é também a minha casa, agora.

Para além do concerto, que foi fantástico, sei que esteve no Liceu Pedro Gomes, a partilhar a sua experiência e a história do Jazz com os jovens. Sei que saiu de lá de coração cheio…

Foi uma boa experiência. Adoro falar com os mais novos, quando tenho oportunidade, e nem sempre tenho a oportunidade que tanto eu gostaria. Fiquei mesmo feliz, impressionado com a qualidade das perguntas dos alunos e pelo interesse demonstrado. Fiquei feliz pelo país, porque senti que este país está em boas mãos.

Que importância ou papel pode ter o Jazz para a juventude, neste mundo globalizado?

O Jazz é bom por várias razões. Quando ouvimos Jazz é preciso algum esforço para o compreendermos. Há uma sofisticação nele que apela à nossa inteligência interior e encoraja-nos a procurar o nosso potencial máximo e isso torna-se inspirador! Por outro lado, o Jazz representa liberdade. E mesmo nos países mais democráticos e estáveis, precisamos de celebrar e de relembrar a importância da liberdade.

Dou-lhe um exemplo: em 1991 toquei com a minha banda na antiga Checoslováquia, actual República Checa, e foi o melhor concerto desse ano. E foi a reacção do público que fez com que fosse o nosso melhor concerto. Depois do espectáculo, uma pessoa veio ter connosco e disse: “Ao longo dos anos têm-nos dito que as coisas vão melhorar, mas isso nunca aconteceu, sempre fui céptico se algum dia, com o fim do comunismo, as coisas iram realmente mudar para nós (checoslovacos). Mas quando vi a vossa banda a tocar, hoje, senti que realmente as coisas vão mudar”.

Graças ao Jazz eles sentiram que a liberdade existe realmente, não?

Sim. E não foi por acidente. A pessoa que nos levou lá sabia da importância da Cultura e, com o pouco dinheiro que tinham, fizeram questão de levar grupos como o nosso para inspirar o povo. Isto é uma dimensão real do Jazz.

E o papel do Jazz na América de Donald Trump continua o mesmo, enquanto símbolo de intervenção e liberdade? Ou há uma diferença?

Ao longo dos anos as pessoas têm dito que o Jazz ia morrer. Disseram isso há 20 anos, dizem isso agora. Mas a música sobrevive sempre. Sinto que agora é especialmente importante porque chegou o momento em que, nos Estados Unidos, precisamos de relembrar de onde vem o nosso ADN cultural. Ele tem tudo a ver com a liberdade. E precisamos de música, como o Jazz, para nos ajudar a lembrar disso.

 

Jazz é integração

Essa busca pela liberdade incessante que o próprio Jazz transparece, é também a sua própria jornada?

Sim. Sem dúvida. Mas há outra questão importante para mim e que está ligada a isso, mas que é diferente, o que realmente me deixa feliz e que me faz sentir vivo, e que é o propósito da minha alma, é construir “pontes”. Tenho estado exposto a diferentes culturas, já passei pela experiência de viver em diferentes níveis económicos, já vivi em diferentes sítios, e por isso sinto-me abençoado por essa diversidade de influências terem entrado na minha vida. Parte da minha função é pegar em toda diversidade e integrá-la, como um todo.

Isso tem sido um desafio, porque algumas dessas coisas são mesmo diferentes. Por vezes, dou-me conta que isso me ultrapassa porque o meu papel no mundo, em geral, passa por ajudar a criar essa integração. O Jazz é uma forma de integração. Como eu disse aos alunos do Liceu Pedro Gomes, no Jazz encontramos o que de melhor temos da tradição musical da Europa e de África. Para além disso, eu pego no Jazz misturo-o com rock, música clássica, e às vezes deixo-me levar e misturo-o com a música electrónica, funk e worldmusic. Parte da minha missão na vida é criar essa integração, com todas essas influências.

Não receia que toda essa integração lhe faça perder a sua identidade no Jazz?

Bem, se isso acontecer, é porque não é realmente uma integração. A integração é quando as coisas se juntam, sem perder a sua integridade. Por exemplo, se pegarmos em vegetais e os juntarmos numa salada, isso é integração porque conseguimos ver o milho, a alface, porque tudo continua como sempre foi. Mas, se os atirarmos para dentro de um liquidificador, isso é fusão.

Então podemos definir a sua música como de integração e não de fusão?

Insisto na ideia de integração. No mundo do Jazz, às vezes, fusão é uma palavra má.

Porquê?

Às vezes, as pessoas pensam que fazer fusões no Jazz é mau. Mas eu acho que isso pode ser relativo porque há muita boa música que vem dessa categoria (fusões), mas compreendo qual é o medo quando se coloca a questão das fusões. Há pessoas que têm medo que o Jazz perca a sua potência, quando misturado com outros estilos.

 

Jazz, universal

Toda essa liberdade que o Jazz permite e simboliza, faz dele uma música universal?

Sim, isso é verdade. Às vezes, actuamos em sítios em que as pessoas não conhecem bem o Jazz e o que fazemos é levar o Jazz até elas da forma mais poderosa que sabemos e quando essas pessoas entram em contacto com uma música realmente profunda, reagem a ela. Há uma frase que diz “as pessoas querem estar conectadas com a verdade”, acho isso positivo, pois, temos de ser nós próprios e não ter medo da forma como os outros nos vêm. Porque se nos apresentarmos autênticos, podemos confiar também na forma como as pessoas vão lidar connosco. Pode não acontecer logo, podemos não ter logo a resposta que estamos à espera, mas é bom para nós e é bom para elas. Como disse aos alunos, nós não estamos no mundo para nos encaixarmos, estamos aqui para dar uma contribuição.

E qual é a sua contribuição como músico e ser humano?

Mais uma vez, sinto que a minha contribuição principal no mundo é a integração. A forma mais simples de definir essa integração é que construo pontes com a minha música. Até agora, está a funcionar e sinto-me feliz por isso.

E constrói essas pontes também no trabalho social que faz, ajudando pessoas através da sua música?

Eu faço trabalho comunitário social, porque, enquanto músico, tenho uma oportunidade especial de fazer isso. Por causa do meu trabalho de musicoterapia, visito crianças com cancro no hospital, visito idosos nos lares, alguns deles já não comunicam, pois acham que foram esquecidos pelo mundo. Quando chego, tento tocar algumas músicas que penso que conhecem e tento criar uma conexão com eles. E é incrível a forma como as pessoas de diferentes idades respondem à música.

Mas, nem sempre é muito produtivo, porque não sou especialista, e nem sempre consigo estar bem informado da situação de cada um, nem das políticas especificas de cada área, mas o que tento fazer é direcionar as pessoas para um nível mais profundo através da minha música, porque acredito na humanidade. Acredito que parte do poder da música é de o de relembrar às pessoas de que cada momento é especial. Só o facto de estarmos vivos já é especial. Se conseguirmos acordar desse sono colectivo, vamos tomar as decisões certas.

Sente-se grato e privilegiado ao fazer esse trabalho?

Sim. Sinto que o mundo me está a dar tanto e quase que sinto que não é justo, comparando com aquilo que dou. Às vezes, sinto-me culpado por receber tanto em troca e sinto que tenho a responsabilidade de tentar retribuir da melhor forma que puder.

A par desse trabalho social incrível, como está a sua carreira, o que tem feito?

Tenho tocado muito na América, mas também a nível internacional. Já actuei em mais de 70 países e confesso que estou entusiasmado porque vou tocar esta semana, pela primeira vez, no Senegal. Mas, em termos discográficos, terminei agora um novo álbum, que se chama “Faether in the wind” (Uma pena no vento). As pessoas que me são mais próximas, como os meus familiares e amigos, dizem que é o meu melhor disco. Ainda estou à procura do melhor momento para o lançar… mas não sei quando vai sair, mas provavelmente até final deste ano.

Porquê “Faether in the Wind?”

É uma história grande… e não sei se tenho tempo para explica-la. Sem entrar em detalhes, eu diria que a mensagem, ou o tema principal, deste disco é sobre a forma como lidamos com a morte e a perda, e como encontrar continuidade neste mundo que está em constante transformação. “A Feather in the wind” simboliza essa impermanência, que é real e ao mesmo tempo libertadora.

A morte assusta-o?

Essa é uma pergunta interessante. Às vezes, sim, às vezes não. Quer dizer, há momentos em que sinto que transcendi do meu corpo físico, onde não existe o medo da morte. Mas também há momentos em que me sinto muito dependente do meu físico e questiono sobre o que faria sem o meu corpo físico?

É assustador. Durante o tempo em que estava a fazer o álbum, muitas pessoas que foram importantes para mim, faleceram, incluindo o meu pai, que na altura era a pessoa do meu sangue mais próximo, e que morreu… Há coisas que fiz com a música para tentar me agarrar ao que podia, com essa perda. Em face das perdas que experienciei, criei esse lindo álbum, que considero o meu melhor até agora.

O álbum é uma homenagem ao seu pai?

Sim. “Feather in the win” é-lhe dedicado…

Ao mesmo tempo é um álbum de renascimento?

Exactamente. É como no cemitério, as flores mais bonitas são azuis…

 

Fã de música electrónica

Mas como disse a música é alegria, falemos pois de coisas mais alegres. Para além de Jazz, o que é que ouve na sua playlist?

Ultimamente, tenho ouvido muita música electrónica, tentando encontrar o meu próprio nicho nesse mundo. Aliás, tenho feito música electrónica, há muito tempo, desde os anos 70. Muitas pessoas não sabem disso sobre mim, porque quando me tornei um músico profissional, concentrei-me na guitarra e no Jazz, o que foi uma espécie do meu eu tradicional, conservador.

Mas também tenho essa outra metade de mim que é a música electrónica. Não são tanto as ferramentas electrónicas, em si, que me atraem, mas as possibilidades que elas abrem para a música. É o que me anima. Sinto que hoje estamos num momento incrível no mundo do EDM (Electronic Dance Music) onde os sons que estão a ser produzidos são enormes e sublimes, muito poderosos e moventes. Mas, ao mesmo tempo, os acordes que estão a ser tocados são os mesmos de sempre, nada de novo ou de especial.

Por outro lado, temos música como o Jazz onde não há nada de novo nos instrumentos, mas as notas são muito criativas. Portanto, quero trazer um pouco dessa sensibilidade do Jazz para o som enorme e sublime da música electrónica.

O que é que o inspira?

As ideias. Quando algo me parece interessante, eu quero persegui-lo. Quando encontro algo de novo nas minhas músicas, tento encontrar todas as variações possíveis. É como abrir uma porta, tenho que dar uma olhada lá dentro. Quero entrar e explorar todo o espaço. Portanto, a ideia é como um caminho para outras dimensões. Nos concertos, às vezes, as pessoas dizem que a minha música é mais do que simplesmente música. Quando dizem coisas assim sinto que está a resultar.

Qual o seu livro preferido?

Eu amo livros! Na verdade, eu tinha uma loja de livros e música. Foi um período maravilhoso na minha vida, porque eu adorava a oportunidade de servir a minha comunidade local, onde vivo, no Arizona, ao disponibilizar livros interessantes. Na altura, eu ficava sentado e observava a reacção das pessoas na loja descobrindo os livros e era fantástico. Mas, um dos meus livros preferidos é “Music and soulmaking”, de Barbara Crow. Fala da terapia musical e isso é algo que me interessa muito. Este livro é o número um sobre terapia musical que posso sugerir a todos aqueles que querem perceber o que é a terapia musical e perceber como se pode curar através da música.

E a sua música de eleição?

Diria que é o “‘Concerto for orchestra’” de Bela Bartok! Bartok é um dos meus compositores preferidos. Gosto particularmente da última composição dele, feita em 1944/45. Já estudei muito essa peça por mais de 20 anos e me inspira muito. Estou a trabalhar numa peça de orquestra de guitarras e me inspira muito o ‘Concerto for orchestra’ do Bartok.

Uma cidade?

A primeira cidade que me vem à cabeça é o Rio do Janeiro. Não sei porquê, talvez porque vou fazer um tournée de um mês no Brasil agora em Maio. É uma das minhas cidades preferidas. Notei que o povo de lá é muito parecido com o povo de Cabo Verde. Não conheço toda a história mas é como se vocês compartilhassem a mesma ancestralidade. E vejo muitos brasileiros nos festivais, e aqui em Cabo Verde e sinto-me muito familiar com eles e agora com os cabo-verdianos. Do pouco tempo que cá estou dá para perceber essa afinidade entre vocês, cabo-verdianos, e os brasileiros.

Uma cor?

Azul…

Azul é a cor do Jazz?

Podemos dizer que sim por causa das notas “azuis” do blues usadas no Jazz, mas acho que o lilás é um cor mais interessante para dar aquele “Jazz” e aquele brilho…

Mas, o azul é a cor do fundamento, relacionado com o masculino, como o rosa representa a feminidade. Isso sempre me interessou, porque gosto de associar a serenidade da cor azul às mulheres e a masculinidade com a vibração do rosa…

Gisela Coelho

 

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