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BVCV comemora 20 anos: “Capitalização bolsista representa 40% do PIB”

A Bolsa de Valores de Cabo Verde (BVCV) celebrou na sexta-feira, 11, vinte anos de existência. Em entrevista ao A NAÇÃO, o presidente Manuel Lima fala do passado, do presente e dos desafios que a instituição tem pela frente, entre eles, maior liquidez para atrair mais empresas. Actualmente, a capitalização bolsista representa cerca de 40% do Produto Interno Bruto, equivalente a 70 milhões de contos.

Na sexta-feira, 11, a BVCV comemorou 20 anos. Que balanço é que faz desse percurso num país como Cabo Verde com uma economia tão adversa, assente na dependência de doadores e do investimento estrangeiro?

 A BVCV surgiu num contexto de privatizações para dar suporte ao mercado. Na altura, havia um conjunto de empresas que era necessário privatizar e que precisavam de um instrumento de apoio a esse processo. Antes da sua criação fez-se um estudo para ver a viabilidade de um mercado de bolsa num país pequeno, onde as pessoas não tinham a noção do que era uma bolsa. A ideia que se tinha de uma bolsa era de algo ligado a países desenvolvidos e grandes empresas. Mas, o facto é que estamos a funcionar e muitas empresas passaram por aqui. Para além das privatizações, tivemos novas operações com colocação pública e privada. Mas, o mais relevante é a confiança que conseguimos conquistar ao longo destes 20 anos. O mercado de Bolsa é feito de confiança. Confiança nas pessoas, nos serviços e nos produtos.

Se não houver confiança na Bolsa não há investimento?

Certamente. O mercado de Bolsa assenta em informações que devem ser credíveis, porque as pessoas criam expectativas de investimento na hora de comprar ou vender. A informação credível é o elemento essencial para haver confiança, mas também, é importante a questão da “governance” da administração das empresas que prestam informações de qualidade com transparência e que inspirem confiança. Mas, são muito poucas as empresas com alguma dimensão no mercado que prestam informações e que têm contabilidade organizada. Neste momento, a Bolsa reflete um pouco o tecido empresarial do país, de modo que temos poucas empresas cotadas.

Mas, hoje em dia, o mercado não é só para grandes empresas, sobretudo se tivermos em conta que mais de 90% das empresas nacionais são PME´S?

O que o tempo vem demonstrando é que o mercado, por excelência, para financiamento às empresas é o mercado de Bolsa, que é válido para grandes, médias ou pequenas empresas. Mas, estamos a falar de um mercado regulamentado e que, acima de tudo, faz confluir interesses de ambas as partes. Há empresas que têm mais riscos, mas que conseguem atrair investidores que são pouco avessos a riscos. No fundo, há um casamento entre o tipo de investidores e o tipo de produto e serviços no mercado e isso só se consegue através de um mercado aberto, onde as pessoas podem escolher onde colocar os seus recursos, conforme o seu perfil de risco. Por isso, hoje em dia não são só as grandes empresas que estão na Bolsa. Nesse sentido, queremos avançar para outras soluções.

Outras soluções  de financiamentos

Quais?

Por exemplo, o crowdfunding. Hoje em dia já há exemplo de pequenas empresas que começaram através do crowdfunding, que estão a crescer e que já estão no mercado de Bolsa. Outro exemplo é o mercado de listing para dar resposta às empresas de pequena dimensão e que não estão em condições de irem para o mercado principal.

Actualmente, quantas empresas estão cotadas na bolsa cabo-verdiana e dessas quantas são pequenas e médias empresas e quantas são consideradas grandes?

Praticamente só temos médias e grandes empresas, não temos pequenas.

Porquê?

Por duas razões. Primeiro, para as PME´s virem à Bolsa há que fazer uma alteração aos normativos legais. A segunda tem a ver com outra solução que já foi aprovada recentemente na Assembleia Nacional que é o crowdfunding, porque queremos começar a utilizar essa plataforma para disponibilizar financiamento às PME´s.

De que forma a política económica do Governo tem ou não afectado o desenvolvimento e a operação da BVCB?

O mercado da Bolsa está integrado na economia nacional e internacional. Isso é inevitável. É preciso ver, por exemplo, aquilo que se projecta para os próximos tempos. Há uma vaga enorme de privatizações e a ideia é que esses processos passem via bolsa, mormente quando se tratam de ofertas públicas.

Por outro lado, actualmente, o Governo pretende diversificar as fontes de financiamento aos municípios e não só. Temos a questão da alavancagem dos fundos do Turismo, Ambiente e Rodoviário, que, provavelmente, passarão pela Bolsa. A ideia é antecipar receitas futuras para financiar os investimentos necessários para atrair mais turistas.

Mais operações privadas do que públicas

Como está o mercado bolsista? É que há algum tempo que não se houve falar de grandes operações no mercado…

De facto, eu diria que não tem havido operações públicas. Antigamente havia mais operações com colocação pública e, quando assim acontece, é mais visível à sociedade. Só que, nos últimos anos, tem havido mais operações privadas. Em 2017, fizemos três operações de colocação privada, só que não vieram a público, na comunicação social, precisamente por serem privadas. Mas, posso garantir que, nos últimos anos, pós crise, tem havido mais procura pela colocação privada.

Essa colocação privada é nacional ou estrangeira?

São empresas nacionais de grande dimensão que procuram o nosso mercado para se financiarem através de um conjunto de investidores locais.

Qual é o top três das empresas cotadas na Bolsa?

Temos quatro empresas cotadas na bolsa: BCA, CECV, ENACOL e Sociedade de Tabacos e temos outras 11 empresas que estão no segmento de obrigações, como a ASA, a ELECTRA, Inpharma, Emprofac e Ecobank, entre outras. O nosso plano estratégico no horizonte 2020 vai no sentido de se aumentar a liquidez do mercado para termos mais empresas. Mas, em breve, vamos publicar o nosso relatório extensivo de 2017 e nele vão constar todas as empresas e o seu funcionamento.

Só quatro empresas, não é pouco para o nosso mercado?

Digamos que sim. Mas temos estado a negociar com algumas empresas para que venham a ser cotadas na Bolsa, porque há vantagens como o acesso a financiamento, etc. O nosso meio ainda é pequeno e o que noto é que ano, após ano, há mais interesse.

As empresas que já estiveram com títulos cotados na Bolsa voltam sempre e mesmo os investidores que já experimentaram a Bolsa, regressam. Precisamos apostar no marketing e permitir que empresas que já cá estão (na Bolsa) partilhem a sua experiência com outras de forma a atrair mais empresas.

Porque há a ideia de que não se quer investir na Bolsa. O que fazer para tornar a Bolsa mais atrativa, inclusive para os investidores estrangeiros?

Temos consciência que os investidores ainda tiram pouco proveito do mercado. É preciso apostar na informação e na literacia do mercado de capitais, mas também ter mais liquidez para atrair mais investidores e ter permanentemente no mercado um mecanismo de compra e venda para permitir que as pessoas possam fazer isso em qualquer momento. 

Nós já tivemos ofertas com investidores estrangeiros, tanto assim é que no nosso mercado não há nenhuma restrição (nem à entrada, nem à saída de recursos) para investidores estrangeiros investirem em Cabo Verde. Só que, também, não temos grandes empresas a desenvolverem grandes projectos e na prática há uma grande limitação que tem a ver com o próprio mercado.

Como assim?

Por exemplo, o ano passado tivemos pesquisas de investidores interessados em investir em Cabo Verde, mas muitos desses investidores colocam a fasquia a partir de 50 a 100 milhões de euros. No país existem muitos poucos projectos dessa dimensão, que atraem esses investidores, apenas dois ou três.

Capitalização bolsista de 70 milhões

Quantos milhões é que a Bolsa gere neste momento?

Temos uma capitalização bolsista que representa cerca de 40% do Produto Interno Bruto de Cabo Verde, equivalente a cerca de 70 milhões de contos. Uma parte substancial tem a ver com investimentos do Tesouro e o resto pertence às empresas.

Quais são as metas da BVCV a curto e médio prazo?

A curto prazo é preciso materializar os projectos de privatizações; avançar com a alavancagem dos fundos; avançar com a solução de crowdfunding; avançar com a questão da literacia financeira e do mercado de capitais; encontrar soluções para as PME´s, mas também, soluções de financiamento para grandes empresas. A médio prazo queremos inovar, trazer novos produtos e apostar em parcerias com outras bolsas, que é algo que leva mais tempo.

A privatização da TACV também vai passar pela BVCV. Tem ideia quando?

Em princípio, todas as empresas que estão em fase de privatização passarão pela Bolsa. Há uma análise a fazer para saber se essas empresas passarão por uma oferta privada, pública ou parceria público-privada. No caso da TACV, há um processo de reestruturação em curso de forma a aumentar o valor da empresa. Há um processo inicial de reestruturação da dívida e só depois é que se pretende privatizar. Mas, reestruturando e com uma boa “governance”, acredito que haverá procura para a admissão à cotação da TACV na Bolsa.

Para a BVCV, há alguma situação ideal para que a TACV possa entrar na Bolsa?

Para a Bolsa, qualquer momento é válido para uma empresa entrar. A Bolsa existe para fazer negócios, seja num momento positivo ou negativo, faz-se sempre negócios. Mas, da perspectiva de quem quer investir, quer fazê-lo numa altura em que tirará proveito. Podemos dizer que, como a TACV não goza de um bom nome no mercado, primeiro os investidores vão querer esperar, ver o seu comportamento e só depois investir. Mas, é preciso analisar bem as perspectivas de crescimento de mercado porque, no fundo, os mais espertos conseguem tirar proveito disso. 

Gisela Coelho

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