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Olhar 15

No Mês da Mulher e com tantos discursos sobre o que precisamos fazer mais pelas mulheres, uma jovem mãe, corre o risco de morrer por não conseguir tratamento para o problema que a afeta

Natacha Magalhães

E vai o março da água, da floresta, da poesia e da Mulher. E do pai. Estes são, em Cabo Verde, mais de seis mil que negam seus nomes aos seus filhos e filhas, o mais básico dos direitos. Estatísticas que nos envergonham e que nos mostram que o caminho para inverter o cenário passa pela Educação.

1E março termina. Não obstante os rituais do dejá vú, é de se reconhecer a importância do mês para uma reflexão sobre a condição da Mulher, que se deve traduzir em respostas e medidas sociais e de política que visem o empoderamento e melhoria da condição de vida das meninas e das mulheres. Muito já foi alcançado, mas muito ainda falta para ser feito. E uma das áreas que merece um olhar atento, empenhado e comprometido é o da saúde, mais precisamente, da saúde sexual e reprodutiva das mulheres. Há ainda mulheres que reclamam pelo direito à terem privacidade e garantia de sigilo profissional por parte de quem as atende nas estruturas sanitárias; há ainda mulheres sem acesso a serviços e ao atendimento de qualidade e centrado nas suas especificidades e necessidades: aqui falo particularmente de mulheres portadoras de deficiência e do VIH Sida, muitas delas alvos de tratamento desumano e discriminatório. Ler o Estudo sobre “Acesso aos Cuidados de Saúde Sexual e Reprodutiva das Mulheres com Deficiência e VIH” e saber que uma mulher ouviu qualquer coisa como “… depois da criança ter nascido, estavam a coser-me e a dra. disse-me que eu sou cega e tenho filhos, que é só “Kunfiadesa” é algo que nos mostra o quão longo e penoso é ainda o caminho de muitas mulheres nesse país, para verem os seus direitos assegurados e respeitados.

2Ainda sobre as mulheres e os cuidados de saúde reprodutiva. No Mês da Mulher e com tantos discursos sobre o que precisamos fazer mais pelas mulheres, uma jovem mãe, corre o risco de morrer por não conseguir tratamento para o problema que a afeta. Eloisa tem 37 anos, é mãe de dois filhos e precisa fazer uma operação aos ovários afetados por um cancro. A operação custa 500 contos, mas ela não pode pagar e cada dia de espera diminui as suas chances de sobreviver. Entretanto, o Movimento Safendetudora promoveu uma campanha para ajudar Eloisa. Pergunta-se: essa operação não poderia ou pode ser feita cá? O caso de Eloisa é apenas um em dezenas. Dezenas de mulheres que esperam, desesperam e engrossam as listas de espera apenas para terem um diagnostico primário; mulheres que acabam por perder a vida porque o tempo da doença não se compadece com o tempo de espera e de decisões superiores, sendo que muitas vezes, a culpa é da morosidade e ineficiência da Previdência Social que não é nem célere nem oportuno nas evacuações. Que politicas de saúde para estas mulheres sem condições de pagar consultas privadas e nem terem acesso aos exames preventivos em tempo oportuno? Mas nem tudo é mau e há que se realçar e parabenizar o trabalho que muitas ONG vêm fazendo para assegurar consultas de foro ginecológico para mulheres de baixa condição socio económica.

3Mulheres novamente. Um olhar de satisfação pelo seminário promovido pela Fundação Amílcar Cabral, em parceria com a Fundação Rosa Luxemburgo denominado “Papel das Mulheres nos Movimentos de Libertação dos PALOP”. De louvar pela oportunidade de nos darem a conhecer, a nós, gerações mais novas, do pós independência, do papel das nossas mulheres na luta pelas independências nacionais das ex colonias portuguesas. Do que foi mostrado, da desconhecida lista de mulheres cabo-verdianas, fica-se com a mais clara ideia de quão injustiçadas e invisibilizadas têm sido as mulheres na causa maior  dos PALOP. No caso de Cabo Verde, o esquecimento é gritante. Uma lista de dezenas de mulheres combatentes, esquecidas pela Historia cujo contributo faz delas verdadeiras heroínas na causa maior desta Nação. Já agora, quem, principalmente da geração pós-1975, ouviu falar de Lucete Andrade Cabral, Ana Maria de Sá, Henriete Andrade, Irene Fortes, Verónica Tavares e tantas outras? Pois não. Mas elas são as nossas heroínas. E merecem que se falem delas no 20 de janeiro, no 5 de julho, nas escolas e nas universidades. Cabe a cada um, na medida das suas capacidades e responsabilidades, atribuições e inerências, honrar e perpetuar o legado dessas mulheres, fontes de inspiração, de coragem e empoderamento para as gerações mais jovens.

4. Mudando de assunto, é visível os esforços que as autoridades policiais, criminais e judiciais do país têm vindo a fazer para comunicar melhor com a sociedade, prestando esclarecimentos quando assim é preciso, numa estratégia de não perpetuar boatos que podem dar azo a outras leituras. Dia sim, dia não são comunicados a dar conta de prisões e detenções efetuadas. Tudo muito bem. De facto, tais autoridades devem comunicar mais e melhor para irem dando sinais de que estão firmes no combate à criminalidade. Todavia, ainda não há informações concretas sobre o desaparecimento das crianças da cidade da Praia. A equipa de investigação conjunta, liderada pelo Ministério Público, apresenta o primeiro relatório intercalar, no qual diz que “foi realizado um conjunto vasto de diligências de prova que permitiram consolidar alguns meios de prova, recolher materiais e objectos que foram submetidos a exame laboratorial, recolha de informação e de elementos de prova com auxílio da cooperação policial internacional, buscas domiciliárias e identificação de pessoas com relevância para investigação”. Ou seja, nada de novo. Não sendo conclusivo, é, todavia, de reconhecer um aspeto razoável O MP vai dando “satisfações” a sociedade e mostra que o trabalho está sendo feito. Mas há perguntas que não calam como por exemplo sobre quem será a pessoa cujas ossadas foram encontradas em Achada Trás (cidade da Praia) e que mistérios rodeiam o desaparecimento do jovem Álvaro Soares Cardoso, localizado graças a investigação empenhada feita pelo grupo Fladu Fla, com auxilio da Policia Nacional, já na fase final. Não obstante ter sido encontrado com vida e do seu estado debilitado, há pontas soltas que importam ligar, mas que a PN não explicou ainda.

5. E reza assim a historia: segundo o comunicado da Escola Nova Assembleia, o Centro Comum de Vistos inviabilizou a participação no torneio de sub 12 de Andebolmania de 21 crianças cabo-verdianas que iam viajar em representação do País, com alto patrocínio do Ministro do Desporto de Cabo Verde e com a carta de conforto da Direção-Geral do Desporto. Processo devidamente submetido ao CCV, através dos serviços consulares de Cabo Verde do Ministério Negócios Estrangeiros, recolha de impressões digitais, e por fim, a comunicação de que os dossiês entraram tarde, isso quando os mesmos foram atempada e devidamente submetido ao CCV. Vamos a realidade das coisas. Existe uma Comunidade de países lusófonos onde o tratamento dado aos seus membros é claramente diferenciado.  Mais parece uma comunidade onde o que há é uma espécie de jogo de forças entre quem mais pode e quem não pode coisa nenhuma e vive na ilusão de que é coisa alguma.
Cabo Verde se prepara para acolher em julho, com pompa, circunstancia e alguma importância momentânea, a Cimeira da CPLP e assumir a presidência. Uma oportunidade de olhar para esta velha questão e acelerar mecanismos para se ultrapassar estas situações muitas delas, bastante indignas.                         

6Já é oficial e como se diz, agora o caminho é para frente. Cabo Verde formaliza entrega da candidatura da morna à UNESCO e mostra a sua grande ambição de pequena Nação orgulhosa e com parte importante na Historia da Humanidade. Depois da Cidade Velha agora é esperar que morna venha a ser declarada património imaterial da Humanidade. De ca para la, é não deixar a morna “amornar”, promovendo-a como género musical de ensino e investigação e o conhecimento da sua história e dos seus protagonistas entre a geração mais nova, mais “entada” por estilos musicais mais modernos e estrangeiros.

7. Nao há como terminar esse olhar sem esse olhar a esta figura impar da Igreja e da Humanidade. O Papa Francisco pede aos jovens que resistam à tentação dos mais velhos para os silenciarem.  Sabendo o Santo Padre do que se passa com as novas lideranças mundiais, diz que há “muitas maneiras de tornar os jovens silenciosos e invisíveis, muitas maneiras de os anestesiar e adormecer para que não façam barulho, para que não se interroguem nem ponham em discussão”. No fim, uma mensagem tão oportuna sobre as “várias formas de oferecer tranquilidade aos jovens para que estes não se envolvam, para que os seus sonhos percam altura”.

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