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A um amigo que finalmente compreendeu que o pluralismo é quando várias pessoas têm a mesma opinião que a sua

Qualquer reflexão que olha para a que se lhe contrapõe com condescendência, como subordinada ou porque desinteressante, não passa da assunção, devaneada, de que é um homem total

João Santos

Ouvia deliciosa e repetidamente “Sentimentos”, do saudoso Emílio Santiago, enquanto fazia a barba; entrei para o meu banho e, de repente, da rua ergue-se um ensurdecedor barulho de um martelo pneumático que me fez esquecer “a VOZ”, como era conhecido no Brasil. Não sei porquê, mas, acto contínuo, dei comigo a pensar nas múltiplas reacções que têm surgido, do incómodo – limito-me a esse, pois já ouvi um ribombo de adjectivações várias – que a intervenção do Casimiro de Pina, meu amigo, terá causado a um boa parte dos circunstantes, a começar pelos conferencistas convidados, numa Conferência recentemente promovida pela Presidência da República, sobre “Revolução Russa, 100 Anos depois: sonhos, utopias, que legado? Qual a influência nos movimentos de libertação e nos líderes políticos de África?”.

Enquanto corria a água do chuveiro, senti vontade de fazer chichi. O bom jacto uretral fez-me recordar os inflados contra-argumentos feitos às contribuições que um dos convidados, Francisco Louçã, trouxe para a Conferência. Intelectualmente primaveris, diga-se de passagem, num desafio semelhante à costumeira competição que fazíamos, quando miúdos, de quem era capaz de ejectar o chichi mais longe. Quis certificar se não havia exagero nessa minha súbita lembrança, procurando ouvir os registos das gravações feitas. Ouvi com atenção o Francisco Louçã e o Casimiro de Pina.

Que melhor contribuição poderia trazer, para sinalização dessa efeméride, o eminente economista e analista político, Francisco Louçã, e que merecesse a aprovação do Casimiro de Pina?

Nenhum de nós, a começar pelos conferencistas, poderá arrogar a muita preguiça que Miguel de Cervantes dizia ter e que, por isso, “custava-lhe muito a andar à procura de autores que lhe dissessem aquilo que muito bem sabia dizer sem eles”. Em suma, falar da revolução russa, para nós, hoje, só pode ser feito com recurso aos historiadores, aos filósofos e mais quem sobre esse acontecimento escreveu. Portanto, preguiça à parte, procurei as (re) leituras de que disponho. Li Eric Hobsbawm, a sua “história breve ao século xx”, 1914-1991, Dietrich Schwanitz, “a revolução em Petrogrado”, Isaiah Berlin, “a inevitabilidade histórica”, Salvatore Veca, “Revolução”. Podia ler mais, em outros autores, mas, para além desses, e dando razão a Cervantes, seria para me dizerem o que já sem eles sabia.

Voltei aos conferencistas. Mas aqui, porque importante, uma nota prévia se impõe, ainda que para eventual desagrado do Casimiro de Pina:

– fui eu, João Santos, quem lhe apresentou muitos dos autores que se tornaram seus mestres; ou, para usar uma inflada consideração, apesar de forçada (não faz o meu estilo), fui eu quem lhe criou o gosto pela leitura dos intelectuais liberais. João Carlos Espada, por exemplo, que conheci pessoalmente, tendo tomado, na companhia do actual PR, J.C. Fonseca, n’altura Director da Revista Direito e Cidadania, um Five O’clock Tea, no seu Gabinete, na Uni.Católica, em Lisboa, e que depois viria a conhecer o Casimiro de Pina e convidado para conferências em Portugal, Isaiah Berlin e Karl Popper, duas das principais referências intelectuais do próprio J. C. Espada, entre outros.

Mas, voltando aos conferencistas, uma outra nota se revela decisiva:

– “para que uma pessoa encontre o seu próprio caminho, esta não pode depender das palavras do seu mestre, tem de se dissociar e desobedecer.” A exemplo disso, cito Konrad Lorenz que se distanciou do entusiasmo de alguns dos colegas da mesma idade que, depois de lerem Sigmund Freud, quiseram e vieram assumir-se como seus discípulos. Lorenz estudou medicina, sim, mas especializou-se em biologia animal.

Por que razão trago este exemplo? Do Francisco Louçã, ouviu-se a citação de um único livro, apenas. Lembrou da importância do “Estado e a Revolução” de Lenine, um livro, recorde-se, com seis capítulos, tendo dele destacado três aspectos, do seu ponto de vista, verdadeiramente fundamentais.

Casimiro de Pina fez questão de citar um sem-número de autores e suas obras, para além das dele, numa perspectiva, tão supérflua quão vãs foram as tentativas de impressionar os conferencistas ou de lhes “fazer impressão”, de lhes criar um certo temor, como que a afirmar uma pretensa superioridade intelectual.

É que quem tem a pretensão de afirmar os seus pergaminhos de asceta, de se auto-elogiar, exibindo os seus escritos e dotes de intelectual merecedor de respeito, devia deixar-se nortear pelo dever de informar ou incentivar ao conhecimento, o público que atentamente o escuta. Qualquer reflexão que olha para a que se lhe contrapõe com condescendência, como subordinada ou porque desinteressante, não passa da assunção, devaneada, de que é um homem total. Pensando que pode assumir essa qualidade, é porque julga, invertendo o célebre provérbio chinês, que não perdeu, antes, “recebeu esse mandato do céu”. 

Bizarria absoluta foi dizer, “alto e bom som”, que se trata de uma falsidade afirmar que a tomada do poder pelos bolcheviques, não se tratou de uma revolução mas sim de golpe de estado. É que estava ali para denunciar uma impostura, o impressionismo intelectual manifestado nas falácias histórico-filosóficas do que é uma revolução, socorrendo-se de Hannah Arendt como referencial primeiro, queria combater as mitologias preocupantemente reinantes, em suma, só não deixou escapar a expressão catártica, diria o próprio num silêncio introspectivo, o que viria a ser dito, também alto e bom som, pelo Embaixador cubano, ao abandonar a sala de conferências.

Estranho é ter afirmado depois, nas explicações histórico-filosóficas do que é uma revolução, sem novidade – Louçã enfatizara antes que a revolução russa era filha da francesa -, de que “existe uma ligação muito forte entre a revolução francesa e a revolução russa”. Pode-se dizer que o entusiasmo na afirmação dessa “falsidade” o tenha traído nas palavras. Aceito! Mas podia corrigir, bastando-lhe recordar que Lenine se tinha aproveitado das três reivindicações básicas dos pobres, operários e agricultores, respectivamente, para depois as erigir no slogan “Paz, Pão, Terra” que fez com que entre Março de 1917 e o início do Verão os bolcheviques passassem de um pequeno grupo de poucos milhares para um quarto de milhão de membros, relembra-nos Eric Hobsbawm. Sempre se soube que a propaganda soviética viria a estilizar a tomada do poder como um levantamento de massas, onde o assalto ao Palácio de Inverno devia fazer as vezes da tomada da Bastilha e, em concordância com o calendário russo, chamaram-lhe “Revolução de Outubro”. Eric Hobsbawm, mais uma vez, e a este propósito, recorda como equivalente ao sistema métrico francês, consequência da Revolução Francesa, as reformas do calendário russo e da ortografia russa, pela profundidade dos impactos que semelhantes mudanças provocam, exigem terramotos sócio-políticos. E essas não são revoluções?

Quem arma uma peixeirada, atacando outros, com recurso a palavras e gingação inapropriados por causa de um pormenor de secundária importância para o contexto, é sinal de que, lamentavelmente, nada tinha a adiantar relativamente às questões essenciais que os reuniu em debate. 

Pode-se sempre combater as ideias sem combater as pessoas. Creio que desta feita faltou piada ao Casimiro de Pina. Fazer passar um intelectual de elevadíssima craveira como é Francisco Louçã, uma mente superior, como também é o Casimiro de Pina, por um comediante analista político, para além de deselegante, é tudo menos morabe, se é que a morabeza é-nos, de facto, de índole.

Mas, recorro-me a Isaiah Berlin para, deslocando um importante conceito para o campo da intelectualidade, lembrar ao Casimiro de Pina, o que seguramente sabe:

– “a noção de grandeza, ao contrário da de bondade, maldade, talento ou beleza, não é uma mera característica dos indivíduos num contexto mais ou menos privado, mas, tal como é usada comummente, está directamente relacionada com a eficácia social, a capacidade de os indivíduos alterarem as coisas de modo radical e em larga escala”.

Santosjfb@gmail.com

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