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The Tower At The End Of The World: insularidade e crioulidade

A montagem destes pontos, para não dizer pontes, ajudaria a articular, de forma mais alargada, plural e diversa, para uma ‘plataforma universal’ obras que, pela análise epistemológica pura, ficariam na  periferia do cânone

Filinto Elísio

 As ilhas, sendo património mundial, são grandes repositórios da literatura-Mundo. Esta foi a tónica da minha participação no  evento  The Tower At The End Of The World, nas Ilhas Faroé, terra do grande escritor William Heinesen.  Coube-me refletir sobre os fazeres literários insulares e colocar foco na Literatura Cabo-verdiana, como especificidade, da Literatura-Mundo. Fazê-lo da perspectiva comparatista, valorizando a pluralidade das literaturas e das diferentes expressões literárias do mundo. O objeto era o de reposicionar conceitos de centralidade e de marginalidade, em prol de interlocuções das literaturas para abordagens de trans-localidade e rans-nacionalidade. E fi-lo na linha do pensamento de Homi Bhabba, porquanto nós também precisamos de nos libertar dos “olhos do império” e da “perspetiva do centro”, que nos impõem monolitismo epistemológico e do “cânone literário” ocidentalizado, algo que nos relega para o espaço de “literatura menor”.

Entrementes, a literatura das ilhas, de que a cabo-verdiana é apanágio e paradigma, tem em comum alguns aspectos geo-ambientais, como o mar oceânico, a insularidade, a diáspora das suas populações, assim como o isolamento, a solidão e visão existencial do cosmos. É perfeitamente identificável nas histórias de William Heinesen, por exemplo, os traços de escritas dos escritores cabo-verdianos de várias épocas. A título de exemplo, impõe-se dizer que o nobel Dereck Walcott (de Santa Lúcia), pela sua acentuada insularidade e crioulidade, pode ser percepcionado como um esteta que escreve, por mais intertextualidade com a literatura universal, em surpreendente paralelo com escrita dos cabo-verdianos. “O mar está sempre presente [quando se vive numa ilha]. Está sempre visível. Todas as estradas levam a ele. Considero o som do mar parte do meu corpo. Se se disser em patoá [dialecto que resulta de uma mistura do francês com vários dialectos africanos] ‘os barcos estão a regressar’, a batida dessa frase, a sua métrica, tem a ver com o som e o ritmo do próprio mar”, disse Walcott à revista The Economist, em 1990.

O mesmo paralelo poder-se-á fazer com os escritos de Aimé Césaire, da Martinica, de Nicolás Guillén, de Cuba, de Esmeralda Santiago, de Porto Rico ou em Jamaica Kincaid, de St. John’s, Antígua. Diante desta constatação, propõe-se trazer uma perspectiva mais holística e mais aberta para analisar o universo literário das ilhas ou como o caso de Cabo Verde, o universo “das ilhas africanas do mundo lusófono”, como se queira, estabelecendo pontos comuns e de convergência, mas também aqueles divergentes e dissonantes das obras tradicional e academicamente “canonizadas”. A montagem destes pontos, para não dizer pontes, ajudaria a articular, de forma mais alargada, plural e diversa, para uma “plataforma universal” obras que, pela análise epistemológica pura, ficariam na  periferia do cânone.

 Tal nova abordagem permitiria identificar casos paradigmáticos em cada um dos sistemas literários e exaurir passíveis e capazes de integrar escopo internacional no âmbito dos estudos de Literatura-Mundo. Assim, estando em curso o projeto de reunir um conjunto de textos de Literatura-Mundo traduzidos para Português, no quadro do website dinâmico, da Institute of World Literature/Universidade de Lisboa, torna-se imperioso identificar e selecionar textos literários escritos originalmente em Português, provenientes dos países africanos de expressão portuguesa, exaurindo destes os das Ilhas de Cabo Verde e de São Tomé e Príncipe, passíveis de integrarem The Tower At The End Of The World.

 Sem desmerecer outras análises, diria que quatro grandes realidades condicionam e marcam a Literatura Cabo-verdiana, impondo formas de ser e de estar dos escritores e criando entre si dinâmicas de “vasos comunicantes”, quais sejam a Miscigenação/Crioulização, a  Situação Geoecológica, a Insularidade e a Diasporicidade. 

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