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São Vicente – não a “SUFRI CALADU”, hora de dzê “BASTA

É hora de juntar forças e lutar pelo bem de S. Vicente, ultrapassando esse “bloqueio ” que reina e que convém ao actual contexto partidário. Há que adoptar novas formas e mecanismos de participação que dê vez e voz ao sentir Mindelense

Ricardino Neves

1.Introdução

O debate do Orçamento do Estado 2018 fez vir à discussão o modo como são distribuídos os recursos do País pelo Governo da República.

Questão habitual ao longo dos anos mais recentes em que o discurso do combate às assimetrias regionais não se traduz em resultados concretos e acaba por ser um simples exercício de oratória de conveniência.

Na elaboração do orçamento continua-se a observar as velhas práticas na sua preparação: ele é elaborado de cima para baixo, com o Governo Central a estabelecer, por si e segundo critérios exclusivos ,as necessidades e as prioridades nacionais.

Afinal o centralismo político e administrativo continua de pedra e cal apesar dos discursos e afirmações políticas sugerindo mudança desse quadro.

Dir-se-á que só pode ser assim porque cabe ao Governo Central essa tarefa. Mas todos estaremos de acordo que o andar do tempo impõem-se ajustes e mudanças nos métodos e nas formas de actuação.

A participação das populações é o elemento decisivo das transformações políticas e económicas que se desejam , sendo claro que quanto maior a participação mais possibilidades do desejável consenso nesta matéria.

A participação democrática na formulação dos destinos da Nação enquanto aprofundamento do sistema democrático cria mais condições para resolver os problemas com que o País se confronta de uma maneira mais justa, democrática e racional.

Aliás o Sr. Ministro das Finanças procurou inovar na formulação deste Orçamento 2018 ao procurar realizar um processo “participativo” na sua elaboração.

Ainda que não satisfatória no sentido de que essa participação não foi nacional como desejável,  regista-se contudo este primeiro passo na boa direcção.

Mas como dizia acima o resultado apresentado – Orçamento Estado 2018 – não pode ser entendido como satisfatório nomeadamente quanto àquilo que se pode pretender dum equilíbrio na distribuição dos recursos afectados a cada Ilha.

Convém dizer que ninguém poderá pretender distribuição “igual” dos recursos nem ninguém disso reclama.

Para esclarecer dou o exemplo da mãe e do vestido para as suas filhas. Cada filha terá vestido conforme  tamanho e massa corporal que variam duma para a outra. Até aí nada de anormal.

Anormal será a mãe vestir umas com seda e outras com sarja. E aí o desagrado vai necessariamente aparecer e não é aceitável pretender que cabe a cada filha receber e calar.

E com o tempo à medida que as filhas crescem e vão tomando consciência da situação de diferença de tratamento, crescerá o desagrado e a revolta acabará por surgir mais tarde ou mais cedo.

É assim que se pode entender este desagrado da ILHA S.VICENTE com este estado de coisas e é claro que este  Orçamento de Estado 2018 está longe de satisfazer os anseios da minha Ilha S. Vicente.

Claramente, esperamos ter mais e melhor do que temos . Nós reclamamos dessa situação e se outras ILHAS não o fazem, lá saberão das suas razões.

2. Não a “SUFRI CALADO”

Penso que cabe, a quem quer que seja, que não esteja satisfeito com o Orçamento do Estado, o direito de exprimir essa insatisfação ,na hora, no tempo, no lugar e no modo que achar oportuno e conveniente.

Vem fazendo escola neste nosso Cabo Verde, Estado de direito democrático, uma lógica de que basta ter-se maioria para se ter sempre razão.

A falta de argumentos e de abertura para discussão desliza rapidamente para a tentação de “impor” a  maioria inviabilizando o debate que, bem feito, deverá conduzir a uma escolha racional das melhores soluções.

Quando se levanta a voz contra a actual distribuição dos recursos pelo País e se reclama por melhor racionalidade e equilíbrio na distribuição dos mesmos é-se mimoseado com adjectivos de bairristas, com acusações de divisionistas, de se por ilhas contra ilhas, de se atentar contra a unidade nacional,  etc., etc.

Desde a Independência a esta data, com diferentes Governos, estas acusações foram quase sempre dirigidas contra cidadãos mindelenses, como se essa condição fosse particularidade de gente desta ilha.

É claro que esse é um expediente para a falta de vontade e de argumentos para a discussão, ou seja , representa a negação do debate. Não querendo discutir, passa-se à acusação.

Sem ofensa ocorre-me citar Einstein que dizia “Insanidade é fazer sempre a mesma coisa, várias e várias vezes, esperando obter resultados diferentes. Se você quer resultados distintos, não faça sempre o mesmo”.

E a insistência nas mesmas atitudes nos leva a pensar estarmos perante não a insanidade mas sim a um perpetuar de lógicas, estas sim  , atentatórias do espirito colectivo enquanto Nação que efectivamente somos.

S. Vicente, por natureza, é ilha de abertura de espírito e essa singularidade lhe confere uma condição particular no panorama ilhéu. O seu papel e a sua importância neste nosso Cabo Verde estão bem espelhados na história político-social, cultural e desportiva deste País.

Ficar calado não é nem nunca foi apanágio das gentes desta ILHA e como tal é e continuará a ter e a ser voz activa, expressando-se a bem deste Cabo Verde.

3. HORA DE DZÉ “BASTA”

Foi com alguma tristeza que assisti ao debate na Assembleia Nacional com acusações para travar a discussão.

Mais triste ainda fiquei ao ver deputados eleitos por esta ILHA levantar a voz para contestar e cobrar de colegas e não empenhados em defender “mais alguma coisa” para S.Vicente como é suposto.

Sendo este o cenário político instituído cabe-nos a nós, cidadãos desta ILHA, assumir um papel mais activo na defesa dos interesses desta ILHA ao invés de estarmos a assistir passivamente ao contínuo e progressivo atirar para depois e para quando for das possibilidades de desenvolvimento desta ilha. Se não for por nós será pelos nossos filhos e netos.

Chegou a hora das FORÇAS VIVAS desta ILHA saírem da mera procura de protagonismo individual que meio pequeno invariavelmente tende a provocar.

Mais, é hora de fugir ao divisionismo que todos os Poderes  Centrais invariavelmente e em toda a parte adoptam como estratégia de enfraquecer aqueles que pensem diferentemente.

É hora de juntar forças e lutar pelo bem de S. Vicente, ultrapassando esse “bloqueio ” que reina e que convém ao actual contexto partidário. Há que adoptar novas formas e mecanismos de participação que dê vez e voz ao sentir Mindelense .

A voz de S.Vicente tem que se levantar para dizer “BASTA” a um tratamento inadequado à sua condição e aos seus naturais anseios.

Há que empregar a natural capacidade organizativa e criativa das gentes da ILHA para se encontrar formas de se conseguir a necessária mudança da situação económica e social em que ela se encontra.

Cabe-lhe analisar e propor soluções adequadas para resolução dos seus problemas enquanto ILHA e dos problemas deste País.

Basta de só conversa para se passar à acção rumo à desejada mudança.

Sair da abordagem de fantasia que alguns sectores parecem querer cultivar para uma abordagem prática com metas concretas e realistas e acções práticas para as alcançar.

Tem que deixar de só ser e estar contra a situação para passar a pensar e conjugar colectivamente as acções que se impõe para mudar esta difícil realidade.

Ultrapassar o que nos divide como diferenças partidárias e abraçar o máximo denominador comum que nos une e que é a vontade de mudar o actual estado das coisas.

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