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A literatura para a infância em Cabo Verde: passado, presente e futuro.

Quando falo da literatura para a infância, podemos facilmente constatar que foi construída na oralidade, fazendo com que a oratura seja maior do que a produção imprimida.

Odair “Dai Varela” Rodrigues

Durante o “Morabeza – Festival Literário” estivemos a discutir o panorama da literatura para a infância na mesa de debate: «Stória, Stória», juntamente com a escritora Carmelinda Gonçalves e moderação da Curadora da Biblioteca Nacional, Fátima Fernandes e é com prazer que partilho aqui a minha visão. Infância, como sabemos, é aquela tempo que somos mesmo quando estamos também adultos. E claro, falarei também de livros, já que são eles que me trazem aqui.

Então vamos lá. O livro é das poucas estruturas físicas que aumenta o território espacial do espírito que se pode caminhar com a mente. É a ponte que nós somos, atravessada com o olhar, voltada para a criança que há em nós.

Quando falo da literatura para a infância, podemos facilmente constatar que foi construída na oralidade, fazendo com que a oratura seja maior do que a produção imprimida.

Basta lembrar que um dos primeiros veículos de transporte que o povo das ilhas conheceu foi a contação de estórias. E esta contação de estórias locomovia-se através de rodas de conversas e musicalidade como companheira de viagem.

E, por falar em musicalidade, a música é a forma de arte que mais trespassa a nossa literatura para a infância. Às vezes é na construção de frases com ritmo e uma cadência melódica outras na procura de uma harmonia através das rimas. É por isso que os nossos contos estão repletos da música na estória contada e povoados com personagens cantores e/ou tocadores. A música está sempre presente. Basta lembrar que antes do texto já a palavra oral imprimia-se nas pessoas e se exprimia sempre por contacto nos corpos-papéis.

Porém, para entendermos o presente e projetar o futuro do panorama da literatura para a infância em Cabo Verde precisamos revistar o passado. Ler os vivos e escutar os mortos com os olhos.

Comecemos pelo princípio: inicialmente as ilhas serviram como palco para a cristianização e para transmitir alguns princípios da língua, ou seja, ladinizar o negro. O período da colonização é também marcado pelo desinteresse total na escolarização dos residentes em Cabo Verde. Tanto é que apenas em 1817 é aberta a primeira escola primária oficial, na cidade da Praia. Refira-se, por exemplo, que a imprensa surgiu em Portugal em 1440, entretanto apenas chegaria ao arquipélago cerca de 400 anos mais tarde. Avançando nos séculos, em 1917, devido a uma percentagem de analfabetismo bastante elevada, a rondar os 93%, procedemos à primeira reforma do ensino.

Damos um salto maior e, após a independência nacional, a educação alcança uma nova maior dimensão. Mas, é bom relembrar que Cabo Verde alcança a Independência em 1975 com uma taxa de analfabetismo a rondar os 60%. Ou seja, um cenário sempre mau para a literatura e para os livros.

Pois bem. A Literatura Infantil e Juvenil africana de língua portuguesa teve seu início formal, com publicações em livros ou jornais, a partir de 1975, ou seja, ano do início das independências dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa conforme afirma a pesquisadora brasileira, Avani Silva[1] na sua tese de doutoramento. Porém, Cabo Verde é uma exceção porque fincou seu marco inaugural em 1936.

Pois é. Já em 1936 e 37 eram marcados os primeiros passos na Literatura Infantil e Juvenil Cabo-verdiana. Este ano de 1936 não vos desperta um “hey!!!”? É verdade, este é o ano do lançamento da Revista Claridade que veio revolucionar de um modo exemplar toda a literatura cabo-verdiana na senda do Movimento Claridoso.

Talvez não saibam, mas a literatura para a infância foi inaugurada em Cabo Verde por uma pessoa que hoje é referenciada como intelectual e fundador da moderna literatura cabo-verdiana, mas não como o percursor da literatura para os mais pequenos.

Quem reconhece esta passagem?

“Como quem ouve uma melodia muito triste, recordo a casinha em que nasci, no Caleijão.”

Ah pois… A publicação dos textos “Infância” e “Bibia” fazem com que o escritor referência em Cabo Verde, Baltasar Lopes da Silva, seja o pioneiro da literatura para a infância no nosso país. Estes textos, “Bibia” e “Infância”, que apareceram nos primeiros números da Revista Claridade, foram depois incluídos no primeiro romance moderno nacional, intitulado “Chiquinho”, publicado integralmente em Lisboa em 1947.

Outro escritor consagrado e pertencente a este importante período conhecido como “claridoso” a publicar para esta área para os mais novos foi Teixeira de Sousa. Em 1945 o médico Teixeira de Sousa publica o conto “Dragão e Eu”. Na estória, todo o enredo gira à volta de um menino que a pouco e pouco foi crescendo até que um dia, por vontade do pai, parou de estudar para cuidar dos negócios da família.

Contudo, o primeiro livro infantojuvenil genuinamente cabo-verdiano, nascido e crescido no arquipélago e escrito especificamente para crianças e jovens foi publicado em 1982 é “A história de Blimundo”, de Leão Lopes. Trata-se de uma reescrita literal de uma narrativa oral contada em todas as ilhas, com variantes entre elas, e que o autor vai também ilustrar.

 

O panorama nacional em números

Sei que estávamos para falar de literatura e livros, mas também é preciso falar de números. Se falarmos em termos de quantidades, e no que se refere às publicações temos uma situação interessante. Permitam-me partilhar. Tendo em conta os dados das minhas pesquisas, pese embora reconhecer não serem exaustivas por requerer um projeto de pesquisa, anotei o seguinte:

Na década de 1970 apenas consegui localizar duas publicações dirigidas ao público infanto;

As publicações aumentam para quatro na década de 80;

Na década de 90 há um aumento para 16 publicações lançadas ao público;

Porém, é na primeira década do ano 2000 que se dá o grande boom das publicações infanto-juvenis em Cabo Verde, com 45 publicações em 10 anos;

Chegando à nossa actualidade, do ano 2011 a esta parte conhecemos uma diminuição considerável das publicações, estando até agora lançados apenas 24 no mercado nacional.

No cálculo geral, o melhor ano até agora é o de 2009 com nove publicações lançadas. O pior período é entre 1983 a 87 quando não foi lançada nenhuma publicação infanto-juvenil em Cabo Verde.

Quanto ao local de edição, nota-se um predomínio da produção nacional: Cabo Verde representa 66 porcento das edições para a infância. Portugal representa 11 porcento, França oito porcento e Brasil 6%. Com representações irrisórias estão a Itália (dois livros), Alemanha e EUA (com um livro cada).

As edições de autor representam 23% das publicações lançadas.

A instituição não estatal que mais contribuiu para a promoção da edição de publicações para a infância é o Instituto Camões – Centro Cultural Português, tendo editado 10 livros até agora.

Em 42 anos de independência, o Estado de Cabo Verde (através das suas instituições como os Ministérios, Câmaras Municipais e Institutos de promoção cultural) esteve por trás de 20 edições de publicações para a infância.

Com 22 municípios espalhados por Cabo Verde, a única Câmara Municipal do país a assinar a edição do tipo é a de São Vicente: um livro com edição da Câmara Municipal (2005) e outro com edição da Biblioteca Municipal de São Vicente (2003).

Como é fácil constatar, o Estado não está a cumprir o seu papel de promover a edição de publicações viradas para a infância.

 

O papel da literatura para a infância

Quando falamos do papel da literatura para a infância, é notório que a produção literária infanto-juvenil de Cabo Verde tem, na sua maioria, procurado assumir um papel lúdico e de transmissão da herança folclórica, mas sem esquecer o lado educativo e pedagógico. Estas publicações não procuram ser uma extensão ou simulacro da escola, ao invés disso, nota-se uma preocupação do livro se apresentar como uma obra literária per si. Nossos livros infanto-juvenis não são pensados apenas na lógica do consumo e do entretenimento. Os livros não são apresentados ou usados como instrumentos didáticos de ensino, apesar de que muitos tentam despertar o interesse do Ministério da Educação para que o livro seja integrado na leitura curricular.

Uma das preocupações identificadas nas temáticas das obras nacionais é a de estimular a imaginação da criança-leitora através da identificação com nossos usos e costumes, valores e cultura.

Sendo um produto cultural, o livro infanto-juvenil tem nele contido parte do processo de transmissão da herança social. Do livro pode-se saber sobre costumes e valores da nossa sociedade, mesmo que através de fantasias, mas também da qualidade do traço dos ilustradores, do parque gráfico, das políticas sectoriais, do nível de literacia, ou mesmo da forma como expressamos e entendemos a vida.

Temáticas inventivas

Como já demonstrei, as edições de literatura infantil em Cabo Verde são em número reduzido, abrangendo diversos géneros, estilos e temáticas. Uma das características que conheceu menos mudanças é o formato do livro físico. É por isso que a oferta disponível ainda não inclui todo o leque possível, tal como livros ilustrados, álbuns, livros-jogos, livros-brinquedos, histórias (só) visuais, livros-objectos, pop-ups e livros interactivos.

Os assuntos dos nossos livros passam pela contemporaneidade, como é o caso de “SAARCI, o último gafanhoto do deserto” de Luísa Queiroz; também transmitem as tradições orais – algumas já perdidas – caso de “Stória, stória”, de Helena Centeio; outros abordam o folclore, como na obra “Blimundo”, de Leão Lopes, ou “Estórias de Encantar”, de Hermínia Curado Ferreira; algumas têm abordagens educativas como “A Tartaruguinha”, de Orlanda Amarílis e ainda “A Cruz de Rufino”, de Fátima Bettencourt; passam também pela expressão da sensibilidade dos autores, mergulhando no texto e imagem puramente estéticos e poéticos, como “O Monstrinho da Lagoa Rosa”, de Graça Matos Sousa, e ainda “UNINE”, de Leão Lopes. Há também alguma preocupação na habilidade da leitura, como é o caso de “1, 2, 3” da autora Marilene Pereira; ou do fantástico da ficção extraterrestre do “ET” da Carmelinda Gonçalves, e ainda o livro “SOLRAC no planeta terra”, de Carlos Araújo, ou mesmo a vertente formativa do “Vamos conhecer Cabo Verde”, João Lopes Filho.

Como podem ver, são diversas temáticas e formas de abordagens que merecerão uma análise mais demorada.

A língua da estória

Cabo Verde possui uma sociedade baseada na oralidade. Como já referi, tivemos um contexto ágrafo (ou seja, não baseada na escrita) por via da colonização, mas com algumas referências nos contadores de estórias. Muitas das narrativas orais caboverdeana (e mais concretamente as estórias) são basicamente testemunhos de uma oratura nascida do tipo de povoamento que se processou no arquipélago.

Uma leitura das publicações infanto-juvenis mostra-nos que nós somos melhores falantes na língua caboverdeana mas nos expressamos mais na escrita com o uso da língua portuguesa. Por isso que, historicamente, a folha em branco tem produzido estórias na língua portuguesa, mesmo quando retrata práticas sociais ou tradições expressas na oralidade usando o nosso crioulo.

Situação do mercado

Por termos poucas publicações e muitos autores ou putativos autores leva a que não exista nenhuma editora especializada no género infanto-juvenil. Este é um facto que vai contra a corrente porque é basta estar-se atualizado com os dados internacionais para saber que quem impulsiona fortemente as vendas do livro impresso é o público jovem. Por exemplo, a coleção “Harry Potter” já ultrapassou a venda de 400 milhões de exemplares vendidos, “O Senhor dos Anéis”, “O Pequeno Príncipe”, a saga “Crepúsculo”, a série “Diário de um Banana”, ou “Alice no País das Maravilhas” são outros exemplos de vendas aos milhões.

E no nosso país?

Bom, Cabo Verde dispõe de 526 estabelecimentos de educação ou ensino pré-escolar, 420 unidades de Ensino Básico e 50 do Ensino Secundário; Porque é que não se consegue alcançar este público com os livros infantis? Talvez porque falta um plano nacional de hábitos de leitura para incentivar o descobrir dos autores nacionais. Falta investir em mais projetos de leitura e, consequentemente, na disponibilização de livros e contacto com os autores, contadores e ilustradores.

No nosso país, recentemente estimavam-se cerca de 525 mil pessoas residentes. Destes, o número de jovens (pessoas entre os zero a 14 anos de idade) era de 155 mil pessoas. Com um público-alvo deste tamanho, porque é que editamos tiragens de 500 exemplares e temos dificuldades em vender livros?

Eu vou procurando dar a minha modesta contribuição para estas e outras respostas. É por isso que apresento propostas que podem ser encontradas na minha intervenção no livro “Anais do VI Encontro de Escritores de Língua Portuguesa – Literatura e Lusofonia” recentemente apresentado na cidade da Praia e com edição da UCCLA.

Em jeito de conclusão, continuo a defender que é preciso olhar-se para o livro infantil como um intercâmbio de emoções e sentimentos que precisa de espaço económico para produção de saberes e arte. Arte de representar as conversações letradas. Continuo a defender que a literatura para a infância não precisa de apoios, mas sim de uma política pública sectorial que tenha um projeto a longo prazo e com orçamento definido. Não “apoio” que é uma figura subjetiva e sujeita a critérios momentâneos.

Por fim, precisamos olhar para trás sim, mas mantendo a visão no futuro. Um futuro no qual a literatura infantil, nova no território das publicações, terá de ultrapassar desafios de, primeiro se constituir como processo literário nas ilhas, depois tem o desafio de se impor como uma contribuição válida e necessária, até chegar ao ponto de se destacar no interior da cultura gráfica.

Até lá, votos de muita criatividade para os autores.

[1] SILVA, Avani Souza. Narrativas orais, Literatura Infantil e Juvenil e identidade cultural em Cabo Verde. São Paulo, 2015

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