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Relação Pedagógica em Contexto Educativo: Influência do Efeito de Pigmalião

Como é evidente, o ambiente educativo constitui um espaço privilegiado para a edificação de múltiplas relações interpessoais envolvendo vários atores.

Pedro Clóvis

Há pouco mais de um mês, e após um longo período de férias de Verão, milhares de alunos de diferentes níveis de ensino regressaram à escola para um novo ano letivo, 2017-2018, que se anunciou recheado de novidades curriculares (novos programas, manuais, disciplinas, metodologias, etc.) decorrentes da reforma curricular em curso desde o ano passado.

Dentro desse universo estudantil, uns vão à escola pela primeira vez, outros iniciam um novo ciclo de estudos, outros ainda entram para o ano seguinte e outros simplesmente reptem de ano. Por isso, no interior de uma classe deparamos com uma grande heterogeneidade de alunos com motivações e interesses diferentes, pois, há uns que gostam de estar ali e outros que não gostam, uns que estão atentos e outros que estão distraídos, uns bons e outros maus, uns mais agressivos que outros, enfim, uma diversidade muito grande de modos de ser e estar.

Geralmente, no princípio do ano letivo, os alunos, tocados pela euforia, começam, de forma consciente ou inconsciente, a (re) criar um conjunto de expetativas ou mesmo fantasias relativas quer a si próprios, quer aos colegas e professores, que se vão projetando, refazendo ou diluindo durante a trajetória escolar, à mercê de uma infinidade de situações que concorrem para a sua concretização ou falhanço. Todavia, é preciso ter em mente que a maior expetativa que qualquer aluno gostaria de ver realizada é, sem dúvida, o desejo de tirar boas notas e transitar de ano.

Como é evidente, o ambiente educativo constitui um espaço privilegiado para a edificação de múltiplas relações interpessoais envolvendo vários atores, direta ou indiretamente implicados no processo de ensino e aprendizagem, onde o grau de aceitação ou de apatia entre eles se vislumbra em função das afinidades que derivam, em boa parte, das características de personalidade de cada interveniente.

Em termos concretos, as relações interpessoais no contexto da sala de aula denominam-se de relação pedagógica. Este tipo de relação, que é mediada pelo saber, envolve dois principais agentes educativos: o professor e o aluno. É através dela que o aluno tem a possibilidade de assimilar um conjunto de conhecimentos, competências e valores considerados úteis socialmente. No entanto, o grau de sucesso do educando na apropriação do saber está na dependência da qualidade da relação pedagógica desencadeada pelo professor que é tecida por um leque variado de fatores, nomeadamente, a natureza do modelo de ensino escolhido pelo professor, a origem sociocultural, a cor da pele, a religião, a raça. Tais condicionantes geram, por sua vez, uma série de preconceitos e estereótipos, reflexos de pensamentos e sentimentos distorcidos, que se manifestam sob a forma de atitudes e comportamentos que podem inibir o crescimento do aluno.

Referindo ao tipo de modelo de ensino assumido pelo professor em situação educativa, reportamo-nos a um paradigma pedagógico ainda bastante comum na nossa realidade escolar, designado por modelo “transmissor de saberes” que, basicamente, pressupõe que existe um corpo de conhecimentos bem estruturado e definido que o professor deve passar aos alunos.

Por outro lado, temos o mais recente modelo chamado “aprendizagem interpessoal” que foi proposto e desenvolvido por Carl Rogers que tem a particularidade de estimular o desenvolvimento de relações humanas calorosas entre o professor e o aluno. Trata-se, no entanto, de um modelo de ensino em que a tarefa principal do educador consiste na criação de condições que promovam a aprendizagem experiencial. As condições a que se refere o autor, que ainda constituem um sério desafio aos vários sistemas educativos, traduzem-se em três pilares fundamentais: empatia, aceitação incondicional positiva e congruência ou genuinidade.

Perscrutando atentamente a essência de cada um desses modelos, podemos verificar que o primeiro paradigma parece oferecer um campo mais propício ao surgimento do Efeito de Pigmalião, uma vez que, havendo uma forte tendência de todo o processo ser excessivamente controlado e dirigido pelo professor, as possibilidades de interação entre o professor e o aluno são escassas e limitam-se à transmissão de conteúdos, muitas vezes, esvaziada de relações afetivas que são fulcrais para que a aprendizagem possa fluir com maior facilidade.

De facto, a expressão “Efeito de Pigmalião” foi estudada e popularizada pelo psicólogo norte-americano Roberto Rosenthal durante a década de 60, com a tese de que as expetativas do professor afetam não só as realizações escolares do aluno, mas também o seu desenvolvimento intelectual.

Uma das experiências desenvolvidas por esse autor e a sua colaboradora Lenore Jacobson foi testar um conjunto de crenças e atitudes pedagógicas de um grupo de professores de uma escola primária, informando-lhes que alguns alunos foram identificados, numa série de testes, como «em desenvolvimento rápido» e outros sendo «menos espertos». Na verdade, porém, os dois autores passaram falsas informações aos professores, já que a seleção dos alunos foi feita aleatoriamente, sem qualquer tipo de teste que pudesse diferenciá-los em termos de potencialidades de aprendizagem.

Logo, no final do ano, constataram que os alunos inicialmente considerados como pertencentes ao grupo de desenvolvimento acelerado conseguiram um desempenho muito superior ao do grupo de controle em vários testes. Tal diferença entre os dois grupos deve-se ao facto de os alunos apresentados como «desabrochantes» em potencial eram melhor tratados pelos professores. Ou seja, os resultados indicavam que os professores davam-lhes mais atenção, explicavam-lhes mais e chamavam-lhes mais vezes ao quadro para resolver exercícios e recebiam mais comentários elogiosos.

Sendo assim, o fenómeno do Efeito Pigmalião costuma, geralmente, aparecer no início do ano letivo, quando o professor ainda não conhece bem o aluno. Por isso, com base nas variáveis elencadas anteriormente, o professor, nessa altura, começa a observar, ainda que superficialmente, determinados alunos, sobretudo, aqueles que exibem uma aparência física que não se enquadra dentro dos padrões considerados normais. Os possíveis cenários são, por exemplo, um aluno que venha para escola mal trajado, sem cuidados básicos corporais, outro que traga um brinco na orelha, outro proveniente de uma cultura diferente, etc. A partir daí, o educador vai formulando certos juízos de valor e esforçando-se para que os mesmos sejam cumpridos.

Neste âmbito, o Efeito de Pigmalião interfere negativamente no tecido da relação pedagógica em sala de aula, contribuindo para a existência de dois grupos de alunos tratados de forma desigual, em que um recebe afeto e atenção do professor e outro rejeição e hostilidade. Nota-se aqui que o professor tende a estabelecer uma relação pedagógica apenas com uma parte da turma, aquela, à qual dispensa mais agrado e admiração, conduzindo-a ao sucesso, em detrimento de outros que sofrem na pele a discriminação e o fracasso escolar.

A face mais crítica desse fenómeno prende-se com o facto de que os alunos, em relação aos quais não se esperam um bom resultado, resolvem contrariar as expetativas do professor. Ou melhor, se tais alunos estão a progredir aos olhos do professor, este continua a encará-los negativamente, esforçando-se ao máximo para que as suas profecias se efetivem.

As expetativas, quer positivas ou negativas, são comunicadas pelo professor ao aluno através do seu comportamento verbal e não-verbal. Estudos realizados mostram, no entanto, que a maior parte das expetativas são veiculadas pela linguagem não verbal, principalmente através do canal da expressão facial.

Conforme Good (1981) e vários outros autores, os comportamentos que, normalmente, o professor manifesta ao aluno em relação ao qual não tem grandes expetativas traduzem-se no seguinte: coloca esse aluno sentado longe dele para evitar interagir com ele ou orientá-lo na realização de tarefas; presta-lhe menos atenção, sorrindo menos para ele e estabelecendo menos contactos visuais com ele; chama-lhe menos para responder questões relacionadas com o conteúdo da aula; espera menos tempo pelas respostas dele; critica-lhe mais frequentemente pelas respostas erradas; elogia-lhe menos frequentemente por respostas certas; dá-lhe menos feedback; exige-lhe menos esforço e menos trabalho; interrompe mais frequentemente o seu desempenho.

Como se pode calcular, as consequências do Efeito de Pigmalião podem ser devastadoras para a vida emocional e cognitiva do aluno ou grupo de alunos que o experienciam no contexto de sala de aula. Pode destruir a sua autoestima, a sua capacidade de correr riscos, os seus sonhos, a sua esperança, a sua confiança, a sua criatividade, enfim transformar o aluno num ser alienado, angustiado, frustrado e odioso.

Entretanto, se é verdade que a escola é uma extensão do meio familiar e os pais depositam nela grande confiança, enquanto instituição melhor capacitada para preparar os seus filhos para o futuro, então nunca devia ser um espaço de exclusão, opressão e sofrimento.

O estreitamento da relação pedagógica entre o professor e o aluno é a condição sine quo non para que haja diálogo, compreensão, respeito mútuo, convivência e aprendizagem. Porém, isso só será possível se o professor estabelecer e promover uma relação de empatia com o aluno tratando-o com respeito, sem preconceitos, estereótipos e sem nenhuma forma de discriminação.

Por isso, o Efeito de Pigmalião, sendo um fenómeno escolar, implica que o professor pratique a reflexão e tenha um diálogo constante com os outros agentes educativos, para que possa mudar o seu comportamento e atitude em relação a determinadas características do aluno ou parte da turma. Neste caso, o fracasso escolar do aluno deriva, muitas vezes, de construções mentais do próprio professor. No entanto, se o aluno reagir de forma positiva poderá superar essa hostilização e desfazer o nó das profecias do professor.

 

 

 

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