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Desporto. que mentalidade!

Com a independência não se registou nenhuma mudança nem no significado, nem na forma, nem na substancia do nosso campeonato

José Manuel Araújo

Em primeiro lugar deve-se enaltecer a atitude e o comportamento do Sporting da Praia ao longo de toda esta época. A nível futebolístico segundo julgo saber, a equipa não perdeu nenhum jogo nem no regional de Santiago Sul, nem no Nacional. Mas isto não é o mais importante no desporto. Teve um discurso coerente do início ao fim. Objectivo claramente definido e foco permanente no objectivo. A equipa decidiu dar todo o protagonismo ao seu treinador Lito em detrimento da própria direcção, o que se revelou uma estratégia ganha. Mas sem dúvida o que mais chamou a atenção foi a atitude do seu colectivo que em bloco decidiu abrir mãos das suas remunerações para apoiar o clube até quando fosse necessário. Um exemplo a ser seguido no futebol cabo-verdiano.

Entretanto como se costuma dizer, no melhor pano cai a nódoa. E foi em paralelo com esta actuação tão exemplar do Sporting, que presenciámos a inversa do Conselho jurídico.

A actuação deste órgão deixou muitas sequelas não só na FCF e no Mindelense, como também na imagem do futebol cabo-verdiano enquanto todo. Porém, ainda há mais uma potencial vítima da sua acção que pode ser precisamente o Sporting da Praia que tanto fez para conseguir este título.

Não sei o que o Mindelense pretende fazer nem se pretende fazer alguma coisa entretanto, se decidir fazer, o que seria mais do que legítimo e natural, a sua iniciativa pode acabar por pôr em causa o título já conquistado pelo Sporting. Dito por outras palavras, parece que ainda temos um campeão à condição. E tudo depende do Mindelense pois, tem entretanto a sorte de ver ainda reservado e intocável o mais importante para a sua defesa. O caso relevante que não foi investigado nem julgado.

Não domino o vocabulário jurídico mas parece que o Mindelense tem todos os elementos para solicitar a nulidade das decisões do Conselho Jurídico que foram tomadas com base num facto que não tem qualquer relação nem interferência sobre o campeonato, nem peso para orientar as decisões tomadas pelo referido Conselho.

Assim, com essa nulidade o campeonato retomaria o seu curso normal a partir do momento em que a Ultramarina fica penalizada nos termos da lei por comportamento anti-desportivo do seu adepto/jogador, por ter escondido a chave e impedido a realização do jogo, o que tem consequências na lei diferentes daquelas retiradas pelo Conselho Jurídico, com base no facto que inventou para investigar, isto é, as declarações do presidente da Ultramarina.

Após a eliminação por castigo da Ultramarina nas meias-finais e o apuramento do Mindelense para a final com o Sporting e, caso por problemas financeiros ou outros derivados deste momento fora de época, não seja possível agora a realização dessa final, tanto o Mindelense como o Sporting ficariam na mesma condição, isto é, sem o título pois, previamente já se teria declarado nula a decisão do Conselho Jurídico.

Isso tornaria também nulos os jogos da final entre a Ultramarina e o Sporting, considerando que a partir da data em que se escondeu a chave, permitiu-se a continuidade de campeonato numa situação de ilegalidade, cujo desenrolar dos acontecimentos acabaria por barrar o percurso ao Mindelense sem que o facto que alterou a verdade desportiva tivesse sido investigado e julgado. A derrota do Mindelense perante a Ultramarina também não interessa para o caso pois, aconteceu na referida situação de ilegalidade.

Na sequência da reposição da justiça, ou teríamos um campeão Nacional saído da final entre o Mindelense e o Sporting ou, caso essa final não se realizasse, 2016-17 passaria a constar como uma época sem campeonato Nacional.

Mudando de assunto, há cerca de dez anos atrás escrevi um artigo no qual manifestava a minha surpresa pela forma que se inventou para contabilizar o número de campeonatos ganhos pelas diferentes equipas. Parece que se criam novas fórmulas de cálculo, só para adulterar as informações reais que são efectivamente as necessárias.

O que me surpreende agora (já não devia) é ver de novo esta ideia que depois destes dez anos adormecida e adormecendo-nos, ser de novo repescada este ano para contabilizar separadamente campeonatos antes e depois da independência. Parece uma ideia fixa.

A notícia que eu escutei na TCV foi a seguinte: O Sporting conquistou o seu décimo título depois da independência, menos dois que o Mindelense. E me pergunto o que foram feitos dos restantes títulos de ambas, que indicariam que o Sporting conquistou o seu décimo segundo (e não décimo) título, menos nove (e não menos dois) que o Mindelense.

Quando se quer obstinadamente inverter uma realidade, não há nada que o possa impedir pois vai-se persistir até mais não em encontrar por todos os meios, a forma de o conseguir.

Neste caso parece que se quer à força ou a jeito, encontrar e usar uma famigerada diferença entre os campeonatos antes e os depois da independência, para assim poder diminuir o grande número de títulos ganhos pelo Mindelense.

Só que essa diferença entre o antes e o depois da independência, não tem qualquer suporte lógico pelo seguinte:

Com a independência não se registou nenhuma mudança nem no significado, nem na forma, nem na substancia do nosso campeonato. Antes da independência tínhamos um campeonato de Cabo-verde, que já era completamente autónomo, independente e diferente do Campeonato português e assim se manteve depois da independência.

O problema é que a fixação com a coisa é tal, que se vai rebuscar e esgravatar a ideia de que antes da independência teríamos um campeonato dum Cabo-verde, mas que não era um campeonato Nacional porque éramos uma província/colónia. E esquece-se também que nesta província/colónia já existia a Nação cabo-verdiana bem antes da independência e que portanto nesta outra óptica também, tudo continuou na mesma.

Portanto, se nos referimos a campeonatos de Cabo-verde ou a campeonatos Nacionais de Cabo-verde, o Mindelense tem mais nove títulos que o Sporting.

Mas esta ideia fixa de encontrar uma forma artificial para se poder (re) contar o número de títulos duma forma que permita diminuir a distância que separa as duas equipas nesta matéria de nove para dois é tal que, ainda um dia há-de aparecer alguém a inventar um outro campeonato, com outro nome, outro significado e claro, outra finalidade, que é esta de adulterar a realidade.

Quiçá, contar o número de títulos antes e o depois da abertura política? Ou o antes e o depois do Cavala fresque feeastival? Ou o antes e o depois da regionalização?

Ou quiçá, que se inventasse um outro nome para o nosso campeonato? Que se lhe chamasse por exemplo, campeonato Estadual de Cabo-verde?

Assim sim, pode-se separar os títulos conquistados em duas realidades diferentes, isto é, os do Campeonato da província de Cabo-verde (antes da Independência) e os do campeonato do Estado de Cabo-verde (depois da independência), pois, foi essa a única mudança que teve lugar efectivamente. Cabo-verde deixou de ser província e passou a ser Estado.

Mas convenhamos duma vez por todas. Manteve-se o mesmo Cabo-verde, portanto com o mesmo “CAMPEONATO DE CABO-VERDE” (quando assim o quisermos chamar) antes e depois da independência, e a mesma Nação portanto com o mesmo “CAMPEONATO NACIONAL” (quando assim o quisermos chamar) antes e depois da independência pelo que, não há razões para os separar a não ser, a vontade de separar.

Repare-se por exemplo que a Madeira ou os Açores, diferentemente de nós quando também éramos Portugal, o seu campeonato está integrado no campeonato Nacional português e aí sim, se hoje se tornassem independentes, teriam de começar uma nova contagem visto que teriam de começar do zero com um campeonato açoriano ou madeirense respectivamente, diferente do que acontece até agora em que o seu campeonato é o português.

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