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Cabo Verde: A grande ruptura

A juventude mostra-se verdadeiramente devassa, desaproveitada e perdida num mar de desvirtuamentos e incompreensões, também sem projecto de vida que permita desafiar e interpretar o mérito e a excelência.

Rui Pereira

Em verdade, Cabo Verde pós-independente nunca deu importância ao pensamento do espaço com a sua comunidade, para o médio e longo prazos. O país não tem, no presente, e nunca teve, uma noção dos seus verdadeiros centros de interesses. As áreas de pensamento estratégico não existem: quer académica, quer política, quer militar, quer económica, quer empresarial, quer científica, quer tecnológica, quer cultural. O país não dispõe duma ordem daquilo que seja essencial e prioritário, daquilo que seja material e imaterial de longo termo e/ou marginal para os indispensáveis equilíbrios colectivos, de sobrevivência, ou, então, de afirmação e expansão em sólidas vagas de modernidade, sem clivagens.

Assim se pode compreender, em parte, a exortada percepção de Cabo Verde se encontrar, hoje, no exacto ponto de ruptura, de anulação do processo conducente à auto-afirmação das ilhas, na unidade dum projecto nacional progressivo.

Note-se que, nesta sociedade, mistura-se ´figuras populárias` com a notoriedade; e pessoas com algum verdadeiro interesse para questões de grande relevância, para as áreas em que o Estado é muito frágil, essas pessoas, ou são silenciadas, desprezadas ou não existem. Nisso, a massa crítica é cada vez mais não-reunida, e reduzida porque as competências são aniquiladas pelas funções. Por tudo isto, o Estado cabo-verdiano tem uma zona de enorme debilidade, que não consegue prever o mínimo de tempo na sua geratriz de valor geopolítico para hoje-e-amanhã – sequer sabe interpretar e antecipar o futuro, interno e externo.

Deste modo se vai perdendo – agora de forma mais acelerada – a completa noção da realidade entre o mal – o bem – a excelência – e o mérito, em quase tudo / para tudo, e em todos os domínios e subsistemas de vida e actuação nacionais. Não será difícil para qualquer comportamentalista dar conta do ´medo de existir`, para o mérito e a qualidade. As pessoas e a sua juventude, nas suas ilhas, pelas suas regiões e localidades, estão de toda a forma suscitadas a acorrer-se ao regressivo transe (inquietação/angústia/agonia) e a outras acções de esquizofrenia para mostrar, para reclamar, para insurgir, para se conflitualizar. O que se constitui, todas essas manifestações de doença psicológica-colectiva, no imparável caminho da hostilidade, do confronto e da insurreição (…), por ventura, de continuidade e inevitável quebra de laços de comunhão e partilha colectivas.

Por exemplo, quando se caminhou na fase de 2011 a 2016, de exigente reproblematização e reformulação da vida do país, em vez de esforços de aglutinação e abertura à sociedade civil para que se mexesse no sistema político nacional, queimou-se uma extraordinária etapa de convergências nacionais para o ciclo seguinte. Estava bastante à vista que o país precisava de preparar o novo tempo, abanar as amarras da implacável lógica de ´nôs cu nôs` imposta pela prática de gestão política e governativa, e fazer irromper um novo, longo e consistente ciclo de condução do Estado, numa base de medidas e consensos intergeracionais – fundamentais, para que o país pudesse/e possa assumir, neste preciso momento de trajectória colectiva, um rumo claro, mesmo com riscos de governação, desta feita reduzidos pela gestão de certas imprevisibilidades.

E aqui está Cabo Verde (!), sem novo projecto de sociedade, para seguir em frente com considerável margem de segurança em si, e de modo mais convergente possível. O arquipélago está embevecido num embaraço de incertezas, de ausência de recursos financeiros, de obesidade dum Estado que fez investimentos sem uma adequada programação dos retornos-garantes da estabilidade. A sociedade civil encontra-se embrenhada por conflitos de auto-estima, presa por uma ordem confusa de valores envelhecidos e de dominantes quanto aliciantes contravalores liberais. A juventude mostra-se verdadeiramente devassa, desaproveitada e perdida num mar de desvirtuamentos e incompreensões, também sem projecto de vida que permita desafiar e interpretar o mérito e a excelência. A economia não funciona para nenhuma escala de mercados, não tem (porque não se criou) modelo de organização para a suportar, não dispõe de estrutura produtiva industrial o mínimo sustentável que seja, e o exíguo tecido empresarial existente está sem condições anímicas reais para impulsionar contributos ao Estado na intenção de resolver, como um todo nacional, problemas urgentes, de sobrevivência, de alargamento da riqueza nacional, e para a competição quer interna, quer na relação com praças externas.

O povo (a maioria que se fez silenciosa, embriagada e sempre em festa) está sem um sonho nacional, ou senão, está sem forças para se embalar num novo sonho. Logo, a tendência das fracturas nacionais, para o reducionismo para ilha-região-local, caminha com as suas causas de divisão da comunidade cabo-verdiana (tal como Amílcar Cabral idealizou una, indivisível e progressista), sem suscitar um convincente exercício de diagnóstico cerebral projectivo, quanto estratégico explicativo e antecipatório.

Estes são alguns aspectos de um tempo que não deveria ser de determinadas inquietações e reformas, mas sim de implementação de fundamentais medidas de políticas já mutualizadas, nesta etapa, entre a classe política e a sociedade civil. Porque, este é, também, o momento em que a nova fase de governação poderia estar a impulsionar acções evolucionistas, sem choques e roturas sociais.

E o concreto é que, o país deixado em 2016 não terá cuidado das condições de rigor estratégico, para que a governação das ilhas avançasse em alinhada direcção dum salto de interligados ciclos com a equipa da oposição concorrente que viesse a conquistar o governo da república seguinte. Terminado o ciclo de poder de JMN, o país não foi deixado numa favorável posição organizativa e política também de condições económicas e financeiras para imediata viragem, para realizar novas ambições. E a questão que se põe, da nova formulação é: para onde deve mesmo ir Cabo Verde, para lá chegar, com um sucesso minimamente calculado?

Hoje, é de não se confundir: o crescimento na infra-estruturação do país fez-se acompanhar duma dimensão empobrecedora da superestrutura (o Estado), e duma outra dimensão anémica das estruturas produtivas, económica e social. O que contribuiu a que as linhas de fractura da comunidade nacional estejam eriçadas e a funcionar, no presente ponto de confluências, em sentido contrário à vontade das forças de disputa política, outrossim num movimento de sobreposição às condições de funcionamento desejável e eficiente do Estado, sob a posse da classe política dominante da sociedade. Nesses passos, os partidos políticos mostram-se de todo desactualizados nos seus pressupostos de produção de ideias diferenciadas, de organização e de relacionamento com a sociedade de cidadãos, levando a que sejam eles próprios produtores de excitantes percepções como sendo dos mais importantes focos de indução da apatia, da desconfiança, do descomprometimento colectivo e da nova conflitualidade nacional face aos patrimónios e riquezas do Estado republicano.

Não é possível que não se tenha dado conta, ainda, que a gestão do poder político mudou, o que participa, sobremaneira, na visão e tese de que todas as sociedades têm um potencial de conflitos imanentes, onde se funda, como exigência de que quem governa o Estado, se confronta com o problema duma vigia e fiscalização sempre presentes. São tantas coisas que estão a concorre para essa circunstância de tensão nacional imanente em progressão, que não se percebe como se vai deixando que a regionalização ganhe uma inevitável construção de tema fracturante inadiável, quando deveria ser, com as devidas responsabilidades de preservação de interesses da soberania do Estado, a um primeiro tempo, e no imediato, uma forçosa matéria de referendo popular. Pelo que não se pode fazer as coisas sem uma discussão aprofundada, sem ter-se identificado as alternativas para o modelo mais de acordo com a vontade colectiva – e não com aquilo que possa avolumar o estrito jogo das vantagens dentro e para a classe política. O que vai (e está a ir) na linha de crescente amplificação da desconfiança e do desapego para com a política no interior da nação: o que está a ser feito servirá a quem, de entre que amigos, para se servir os interesses particulares de quem?

Com efeito, é preciso voltar ao destino político colectivo e concentrar a actividade política do Estado para esta conjuntura em curso (em cada momento) na questão das causas e das respostas às insatisfações que podem degenerar, logo a seguir, em posturas desagregadoras do todo da gestão política e governativa do arquipélago.

Para já, pergunta-se: será que Cabo Verde está mesmo em condições de assumir uma agenda com imediatos e globais efeitos de mudanças estruturais?

Está-se a sentir que Cabo Verde ficou, em 2016, no seu limite de sustentamento, sendo inviável o prosseguimento da governação no modelo político que não seja inovador em resposta aos desequilíbrios sociais, nacionais e regionais que se estenderam no tempo, até chegarem à porta do presente momento anunciador duma grande e incalculável ruptura no interior do arquipélago?

À vista desarmada, parece estar a manifestação de São Vicente, a 5 de Julho passado, no ponto dessa prefigurada degradação da coesão nacional. O resto é esperar que a bagatela social se instale, em definitivo, para que o sonho duma sociedade mais justa, mais humana, mais séria, mais criativa, voltada para a valorização do mérito e da excelência humana, política, institucional e criadora sejam a razão superior para a desintegração de cada cidadão em qualquer dinâmica de realização nacional. Porque na convivência colectiva não se tem semeado, entre outras situações, na auto-estima, em vez da caminha peregrino da depressão de todos – mais cedo, ou mais tarde.

Contrariamente ao que não se deu atenção, nos últimos quinze anos de poder político, é um imperativo do poder público, fomentar, com solidez, a transferência duma continuada perspectiva de esperança no novo amanhã de Cabo Verde. Assim se imporão mobilizadores compromissos com o amanhã do País, em que o trabalho pelo sacrifício, pela dedicação, pelo rigor à utilidade pública, pela realização individual material seja, em todos os níveis de desempenho, reconhecido inatacavelmente como algo de valor.

É para isso que a macro política deve estar voltada, com governantes dedicados à promoção dum cada vez mais avançado sentido de projecção de sentimentos, ideias, causas e projectos em louvor ao mérito e à qualidade.

Está tudo num ascendente plano de incertezas, também de escusada malvadez, até que a fractura social aconteça, de vez. E parece que ninguém está interessado que o sentido de rumo seja outro.

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