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Saúde Psicológica dos Bombeiros – Parte 1 Cuidais da saúde Psicológica dos Bombeiros e não gastais em psicofármacos

O Bombeiro precisa de bem-estar físico, psicológico e social. Precisa de oportunidade para expressar suas emoções, elaborar as vivências das situações traumáticas, auxílio para gestão dos incidentes e mobilização de recursos cognitivos e comportamentais adequados.

Anilton Andrade*

Ora bem, o Homem que veste farda de Bombeiro e atua sob a égide do lema “vida por vida” é alguém que abraçou a nobre causa de salvar vidas e, fê-la um estilo de vida, resultado de uma escolha por que sente vocacionado. Atrás da farda, está um ser humano com a sua estrutura personalística: um ser consciente, pensante, com emoções e com capacidade reflectiva; um profissional cuja saúde e bem-estar é imprescindível para fazer face às demandas altamente stressantes e situações traumáticas que vivência no exercício da sua profissão.

De um modo geral, a realidade da prática dos Bombeiros impõe-se com alguma frieza e, por vezes, mesmo cruel. No desempenho das suas funções, estes, expõe-se continua e sistematicamente à situações imprevisíveis, críticas, hostis e emocionalmente desgastantes: arriscam suas vidas para salvar vidas alheias ou património da sociedade;  lidam todos os dias com a dor  e o sofrimento do outro; impossibilidade de salvar vítimas e de evitar a destruição do património social; e, vivem constantemente sob pressão em razão da responsabilidade profissional e da consciência de que a mais ínfima falha pode resultar em sérios danos ou perdas.

A exposição repetida a situações adversas pode constituir, por um lado, uma oportunidade para desenvolver estratégias adequadas de enfrentamento aos desafios da realidade profissional. Por outro, pode despertar uma malha invisível de emoções e sentimentos com impacto profundo na sua saúde mental, bem-estar e relações interpessoais, eliminando os recursos e tornando os Bombeiros mais vulneráveis e com maior propensão para o desenvolvimento de sintomatologia psicopatológica e doença mental, tais como: dificuldades de concentração, alterações do estado de ânimo, irritabilidade, agressividade, retraimento ou evitamento social, alterações do sono e do apetite, constante estado de alerta e vigia, fadiga, pensamentos irracionais, perturbação pós-stress traumático, ansiedade, depressão, burnout, abuso de substâncias psicoactivas, etc., claro está, com impacto negativo tanto para ele próprio, para o coletivo e na produtividade e rendimento laboral. – Não vai a tempo de ter gabinetes de apoio psicológico nos quartéis em Cabo Verde?

Se levarmos em conta, que a nobre missão dos Bombeiros, consiste no atendimento de solicitações da comunidade,  envolvendo  situações de emergência relacionadas com o combate a incêndio,  com  buscas/salvamentos,  atendimentos  pré-hospitalares, o socorro e transporte de sinistrados e doentes, o socorro a náufragos e buscas sub-aquáticas em colaboração com a autoridade marítima, socorro em casos de inundações, desabamento, catástrofes, calamidades, acidentes de trânsito, acidente/incidente no meio aeronáutico e náutico, desastres, prestar serviços de vigilância durante a realização de eventos, colaborar com autoridades sanitárias no levantamento de cadáver e em cada missão levar uma nova esperança, nitidamente percebemos que deverá haver uma visão especial sobre a sua saúde Psicológica. É hora, pois, de perguntar: o que se tem feito em prol da saúde Psicológica do profissional que lida com o sofrimento alheio?

Cuidando da saúde Psicológica do soldado da paz, ele certamente estará mais capacitado, primeiramente, para fazer fase aos processos transferênciais e só assim, aperfeiçoar a honra, integridade, o decore profissional, zelo, verticalidade moral, eficiência no fundo a consciência ética de um profissional que se preze. Pois, este transfere toda sua energia vital em prol de um trabalho árduo, de sucessivas situações traumáticas e incertezas, tudo em prol do bem-estar do outro (população), motivo pelo qual,  aos olhos da sociedade o seu trabalho é visto com um certo heroísmo.

O Bombeiro precisa de bem-estar físico, psicológico e social. Precisa de oportunidade para expressar suas emoções, elaborar as vivências das situações traumáticas, auxílio para gestão dos incidentes e mobilização de recursos cognitivos e comportamentais adequados para responder e adaptar as situações que a realidade laboral impõe, com vista a diminuir os riscos de desenvolvimento de perturbações psicológicas.

Pelo exposto, urge a criação de gabinetes de apoio psicológico em todas as Unidades de Bombeiros a nível nacional. Admitir que necessitamos de apoio psicológico não deve ser encarado como sinal de fraqueza nem perda de estatuto. É, sim, promover respostas adequadas às demandas da profissão; é, sim, promover actividades profissionais eficazes e eficientes.

Acredito piamente que pela manifesta necessidade, está cada vez mais próximo o dia em que os Bombeiros irão ter acesso à avaliação e intervenção psicológica pecoce nos seus quartéis, pois, já dizia o ditado popular: “antes prevenir do que remediar”.

*Psicólogo Clínico e da Saúde

Bombeiro Municipal e Aeronáutico

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