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São Francisco: Rallies nas praias ameaçam desova de tartarugas

A Associação Fauna e Flora (AFF), de São Francisco, está preocupada com o aumento de certo tipo de actividades humanas na praia dessa localidade. Nomeadamente festivais e rallies, com viaturas e motos, durante a época de desova de tartarugas.

A praia de São Francisco é uma das poucas em Santiago que é procurada, anualmente, para a desova de tartarugas. Ilse “Paula” Drescher, presidente da AFF, que actua no local, desde 2008, diz que nos últimos anos a campanha vem sendo prejudicada por diversos tipos de actividade humana realizados na praia de São Francisco, designadamente, festival de música, corrida de viaturas e motos no areal, entre outros.

“Para além da vandalização das placas que contêm informações de sensibilização pública, alguns indivíduos fazem queimas de pneus e rally de carros e motos na areia, pondo em perigo os banhistas, como também destruindo o nosso trabalho”, reclama aquela ambientalista.

Apesar disso, diz a mesma fonte, este ano, tudo aponta para um aumento de ninhos em comparação ao ano passado. “No período de um mês e meio da nossa campanha já foram registados 43 ninhos e esperamos chegar aos 70. No ano transato, durante toda a campanha, registamos 61 ninhos”.

Entretanto, Drescher alerta que se não houver mudança de comportamento e implementação de algumas medidas legais, e apesar do aumento de ninhos, a taxa de eclosão dos ovos deve diminuir, devido, precisamente, às referidas perturbações. “Desde que começámos a campanha de protecção em 2008, até 2014, as saídas de tartaruguinhas eram de 50 a 60%. Mas, na época 2015 e 2016, só saíram entre 11 e 16%, isto porque nesses anos começaram os festivais”.

Constrangimentos

Paula Drescher acrescenta que, na sua acção, a AFF é confrontada com várias actividades que prejudicam a desova de tartarugas, designadamente, ruídos e roubo de inertes como areia. “Aos fins-de- semanas, muitas pessoas vêm em grupos e trazem panelas e animais vivos para serem abatidos e cozinhados na praia. E nisso partem galhos das plantas para utilizar como lenha. Há também quem traga geradores e aparelhos de sons potentes, colocam o volume no máximo, provocando muito barulho, o que obviamente incomoda quem procura a praia para descansar tranquilamente”.

Para controlar a situação, a responsável da AFF defende o reforço da segurança e fiscalização em São Francisco, principalmente aos domingos. “Nas praias da Quebra Canela e da Prainha, por exemplo, ninguém entra com veículos, geradores, máquinas de sons, cães e panelas para cozinhar na areia, porque a polícia não deixa. Queremos também a mesma coisa aqui, isto é, a presença de agentes da Polícia, sábado e domingo, das 14 até 19 horas, para controlar o movimento em São Francisco. Até porque, no final do dia, muitos motoristas saem bêbados das praias, pondo em risco a própria vida, dos ocupantes do veículo e de todas aqueles que circulam pela estrada de São Francisco”.

Uma outra solução proposta por Paula é a colocação de uma portagem logo à entrada da praia, com guardas dia e noite, para controlar a entrada de pessoas. “Logo à entrada deve ser entregue aos visitantes um folheto com as leis e recomendações no sentido de sensibilizá-las. E os guardas devem fazer rondas para verificar se os visitantes estão a respeitar as regras. E se todos os frequentadores pagarem uma taxa de 10 ou 20 escudos isso daria para assegurar a limpeza e a manutenção da praia”.

Época tranquila

Paula Drescher afirma que este ano registaram duas tentativas frustradas de captura de tartaruga em São Francisco. “Na praia principal, que é vigiada pela nossa equipa, encontrámos uma, à beira da estrada, à espera para ser transportada; uma outra foi encontrada numa pequena praia em São Domingos, perto dos botes dos pescadores, também virada de costas, à espera de ser transportada. Mas graças à rápida intervenção dos nossos guardas, conseguimos devolvê-las ao mar”.

Sem mãos a medir, Drescher adianta que há rumores que numa outra praia, situada junto do farol de Moia a Moia, têm aparecido muitas tartarugas. “Há indícios que algumas são capturadas, uma vez que o local não é vigiado. Queremos fiscalizar essa praia, mas para isso precisamos da ajuda dos militares, dado que estas zonas estão a tornar-se perigosas à noite. As pessoas, quando são flagradas a capturar tartarugas, tornam-se agressivas”.

Necessidade de mais apoios

Paula Drescher revela que a AFF precisa de mais apoios para poder desenvolver as suas actividades, que incluem acções de sensibilização e formação de crianças e adultos da zona e não só. “Mas, no terreno, percebemos que as pessoas querem sempre algo em troca, e a Associação não tem dinheiro para oferecer, até porque não lucra com a protecção das tartarugas”.

Os guardas da AFF, segundo Paula Drescher, trabalham de forma voluntária, havendo momentos em que só isso não basta. “Gostaríamos de poder oferecer-lhes alguma gratificação, dado que alguns são chefes de famílias e estudantes. Normalmente, temos um apoio do Ministério do Ambiente, mas este ano disseram-nos que ainda não há verba para apoiar-nos, o que é lamentável”.

Apesar disso, a responsável da AFF diz ela e os seus colaboradores continuam a trabalhar para a defesa das tartarugas e de um ambiente mais saudável em São Francisco. “O dinheiro não é o mais importante, porque o foco maior é prevenção das tartarugas que já fazem parte da nossa família”, conclui.

SM

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