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Autonomia: -Uma pequena explicação

A Praia é hoje um buraco negro e de nada adianta contar a quantidade de matéria que ela vai querer engolir. A única solução que nos resta é a de travar a nossa nave e salvarmo-nos dele

Carlos Araújo

Como temos vindo a falar da necessidade de autonomia para às ilhas, e como ao logo dos tempos os poderes e as pessoas interessadas e estudiosas não têm poupado esforços em trazer experts para nos pregarem sobre o seu conceito e a sua forma de ver as coisas, eis que, de momento, nos parece válido retirar a carga académica dessas palavras de forma às poder utilizar, sem o perigo de não serem entendidas.

É assim que essa pequena explicação é dirigida aos académicos, analistas de boa formação, governantes e políticos bem como aos prisioneiros partidários.

A sabedoria é concisa e muitas vezes parca de palavras. Ela vem de dentro e traz informações da consciência. Isto é, traz à verdade.

E tu, sabes o que estás pedindo? Autonomia, claro qum sabê! Mim um precisa dautonomia paquê ainda um tita vivê ma nhá mãe e diazá q´el tita expolram.

E de forma tão simples nos é explicado que a nossa dependência da Praia, de uma CAPITAL, nos retira a nossa capacidade e liberdade de autodesenvolvimento. É ela, a mãe capital que com seu manto pressupostamente protetor, não só nos impede de crescer como também nos sufoca.

De onde és? Di Santiago, di Orgãos. E vieste manifestar? Claro, mi ê mindelensi, é li Kim ta sufri. Diz a mocinha que vende bananas na banheira e sabe fugir da fiscalização.

E de forma tão simples nos é explicado que o São-vicentino se define, tenha ele nascido em alguma das 10 ilhas, incluindo São-vicente, na diáspora ou mesmo vindo de outras paragens, como sendo um São-vicentino consciente da sua pertença a um conjunto maior a que se da pelo nome de Cabo-verdiano.

Essas duas senhoras, simples e pouco eruditas nos trazem a filosofia toda: a necessidade de liberdade e a de pertença.

E a manifestação de 5 de Julho nos informa que o São-vicentino não se sente livre e muito menos incluído, pelo que começou a sua luta para que cada ilha dentro da estrutura do país seja vista como um todo onde, longe de uma parte dominar a outra, se procura um estado de equilíbrio dinâmico onde a integração e a autoafirmação, duas tendências opostas mas complementares, possam ser respeitadas para que através da autoafirmação a ilha seja capaz de preservar a sua autonomia individual necessária a manutenção da ordem estratificada do sistema, sem deixar, no entanto, de se submeter às exigências do todo através da tendência integrativa e viabilizadora do governo do pais.

Esclarecendo melhor, o que os São-vicentinos querem é:

. Ser o autor do seu próprio desenvolvimento.

. Delinear o seu futuro e resolver os seus problemas internos.

. Pagar os serviços de um governo central para fazer a integração correta das ilhas e defender os interesses de Cabo Verde, quer interna como externamente.

Se os dois primeiros pontos são passivos de entendimento pois não trazem qualquer novidade e são até questões de bom senso, quero, no entanto, chamar a atenção por este ponto três já que não se trata de algo fácil de engolir, mas que vai ter de ser engolido, já que tudo indica que é nesse sentido que a arte de governar vai evoluir.

Estamos falando de um governo pago para governar. Uma entidade que presta um serviço a população, e que o deve fazer com qualidade e a baixo preço. Um governo pago pelas ilhas que contribuirão de acordo com a sua capacidade e receberão de acordo com as suas necessidades e as necessidades do país, dentro de uma organização solidaria que visa o bem-estar e a felicidade de todos.

Apesar do sacrilégio que o que acabo de escrever representa para os estudiosos e presidiários do status-quo, não é difícil ver o futuro apontando nessa direção e imaginar essas ilhas como um bom laboratório de ensaio.

Mas como conseguir chegar a tal organização se ela, apesar de ser, provavelmente, a que mais sentido faz, está longe de conseguir a simpatia dos partidos e ainda não se encontra escrita nos manuais académicos?

E é aí que o povo entra. Enquanto se espera pela intelectualidade ele sai à rua e dita a sua lei. Foi sempre assim e assim vai continuar a ser, já que lendo o tempo de hoje nos apercebemos que os sinais de fumo, que chamavam a atenção para a possibilidade de fogo, se transformaram em incêndios devastadores.

A Praia é hoje um buraco negro e de nada adianta contar a quantidade de matéria que ela vai querer engolir. A única solução que nos resta é a de travar a nossa nave e salvarmo-nos dele.

É assim que nas próximas eleições autárquicas, antecipadas ou não, os São-vicentinos vão ter de se posicionarem de modo a que uma equipa verdadeiramente capaz possa assumir os destinos do Município. Essa equipa levara consigo algumas missões importantes e prioritárias:

. Contratar por concurso público um administrador para a CM.

. Lutar para que o presidente escolhido pela equipa se transforme no presidente da ilha.

. Dar corpo a todas as possibilidades corretas de desenvolvimento que a ilha apresenta.

. Dar voz a ilha em todos os assuntos de caráter nacional através do seu ou dos seus senadores eleitos.

. Negociar com o governo central a percentagem do montante produzido que deve ficar na ilha, a percentagem que deve ir para o governo central e a que deve ser posto ao serviço dos municípios mais pobres.

É obvio que estamos perante uma proposta de luta que encontrara os seus detratores principalmente a nivel dos partidos que se sentirão ameaçados, dos governantes de um poder central quase absoluto e, principalmente, daqueles que vivem às custas da capitalidade.

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