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Da indisciplina e comportamentos aberrantes de crianças e adolescentes

As crianças não devem fazer aquilo que lhes apetecer, mas sim o que é razoável, correcto e saudável para elas, sem necessidade de os pais usarem de violência

Arsénio Fermino de Pina*

Referi-me recentemente, em artigo publicado, ao assunto a propósito da educação, tentando explicar uma das razões da indisciplina, falta de respeito e temeridade dos jovens, nos nossos dias, responsabilizando o laxismo de certa pedagogia dita revolucionária, na educação dos jovens. A criança e o adolescente necessitam de respeitar certas normas consideradas universais ou tradicionais, de firmeza e referências seguras que encontram nos pais, educadores e pessoas mais idosas respeitáveis, a fim de poderem ir construindo a sua personalidade e orientar o comportamento, não deixados em liberdade total, como defende certa pedagogia, dita moderna, por a prática vir demonstrando que, sem freios sensatos firmes, criamos autênticos malcriadões que não respeitam nada nem ninguém, guiando-se tão-somente pelos seus impulsos e emoções. E isso é assim devido a um condicionalismo físico e funcional dependente de certas regiões da parte anterior do cérebro, lobo frontal, que só atingem a maturidade completa entre os 23 e 25 anos de idade do indivíduo, facto irrefutável comprovado pelos progressos tecnológicos da visualização do cérebro em função utilizados actualmente em Neurociência. Já se suspeitava disso mas não havia confirmação indiscutível. O neurocientista português Prof. António Damásio descreve no seu famoso livro, O Erro de Descartes, as qualidades normais e morais de um indivíduo que tinha por função fazer furos na rocha de pedreiras com uma alavanca de aço para introduzir dinamite, que teve o azar de ter havido alguma faísca enquanto acamava a dinamite no furo, que projectou a alavanca como uma bala que lhe entrou pelo maxilar inferior indo sair na fronte. Não faleceu do traumatismo, mas as lesões sofridas no lobo frontal (exame detalhado, tempos depois, após a sua morte) modificaram completamente a personalidade do homem, que passou a ser conflituoso, preguiçoso, irreverente, imoral, entre outros defeitos que não tinha antes, precisamente por a região de controlo desses defeitos ter sido destruída.

O córtex (células nervosas ou neurónios da superfície cerebral) pré-frontal é o chefe de orquestra do cérebro, também chamado área do pensamento sóbrio; é a última parte do cérebro a amadurecer, sendo a região que alberga as chamadas funções intelectuais e executivas – planeamento, estabelecimento de prioridades, organização do pensamento, de repressão ou supressão de impulsos danosos, de ponderação das consequências mais prováveis dos actos, em resumo, a região responsável pela decisão, bom senso, e até, pela moral e ética. Por esta razão é que referimos no referido artigo que as falhas e exageros de comportamento dos jovens antes dos 23 aos 25 anos de idade se devem à imaturidade de neurónios dessa região. Tal imaturidade impede as crianças e adolescentes de conseguirem controlar tentações e impulsos. Compreendemos, assim, certas reacções infantis relativas a birras e não acatamento de conselhos, ordens, normas, compromissos assumidos e promessas feitas por crianças e adolescentes. Uma criança ou adolescente pode prometer fazer, ou não fazer algo e não o cumprir por a tentação de não o fazer, ou de o fazer, não encontrar o controlo, a ponderação que existe no adulto onde essa região já atingiu a maturidade total.

A acrescentar a essa imaturidade devemos ter em conta que a memória da criança só começa a funcionar em pleno, particularmente a de longa duração, a partir dos seis a sete anos de idade, o que justifica o início da instrução primária a partir dessa idade. Antes funciona a memória de curta duração, o que quer dizer que as crianças esquecem-se, rapidamente, das coisas.

Não se deve, portanto, negociar com crianças porque não compreendem a razão de terem de respeitar compromissos ou promessas, preferindo a satisfação, irresistível para elas, de tentações, impulsos e gostos, visto os centros cerebrais de controlo dessas emoções ainda não estarem operacionais. As crianças não devem fazer aquilo que lhes apetecer, mas sim o que é razoável, correcto e saudável para elas, sem necessidade de os pais usarem de violência; basta serem firmes nas suas directrizes, inspirados no amor aos filhos e guiados pelo conhecimento, como aconselhava Bertrand Russell.

Na puberdade, além da chamada grande crise hormonal sexual e modificações do corpo, a imaturidade dessa região cerebral e consequente inexistência ou debilidade dos sistemas de controlo dos impulsos, de tentações e da moral, podem provocar uma maior insensibilidade ou indiferença relativamente à de idades mais baixas e de adultos, certa confusão, frustração e propensão para correr enormes riscos escusados, isso por haver nessa idade uma intensificação de ramificações dos neurónios entre si, e, consequentemente, maior perturbação na transmissão de estímulos sonoros, visuais, olfactivos e tácteis, o que explica a confusão e os exageros típicos dessa idade. Devido a esses factos, o adolescente não controla ainda a sua personalidade, manifestando alternância de alegria e energia, tristeza e apatia, pelo que o apoio e orientação de adultos sensatos e responsáveis se tornam indispensáveis.

Métodos modernos de pesquisa das funções cerebrais detectaram ser muito baixa a nula a actividade dessas mesmas regiões que controlam as emoções, a socialização e a moral nos psicopatas, os quais, como sabemos, não sentem ansiedade, nem medo ou tristeza e não reconhecem isso nos rostos das pessoas. A crueldade nos psicopatas, de que temos conhecimento através de filmes e da actuação de ditadores, parece ser uma modalidade da sua insensibilidade, indiferente face ao sofrimento dos outros, sem o radar que detecta a agonia humana. O remorso e a vergonha, o constrangimento, o sentimento de culpa e o orgulho, são emoções sociais e morais que o psicopata desconhece. No restante o psicopata é aparentemente normal, sendo muito difícil ou impossível de descobrir a anomalia porque se comporta como as outras pessoas, disfarçando muito bem o seu mal. O perigo maior dos psicopatas é quando atingem postos elevados na governação, por provocarem danos em grande escala, como aconteceu com Hitler, Staline, Chauchesco, Poll Pot, Idi Amin, Kadafi, Nero, Calígula e outros ditadores e imperadores.

Presumo que estas informações fornecidas pela Neurociência e suas técnicas de pesquisa e de visualização do cérebro em função convencem-nos da necessidade de uma abordagem mais adequada da educação da criança e do adolescente, que valorize a paciência e tolerância para lidar com crianças e adolescentes, tolerância que não deve ser confundida com permissividade, e firmeza no que a criança pode e deve fazer, dado que elas desconhecem os limites da maioria dos actos e, bem orientadas, adoptam as referências apreciadas ou encontradas nos pais, educadores e pessoas que admiram, estimam ou amam. É também inquestionável a urgência de restituição do estatuto de que os professores gozavam no passado, de educadores e autênticos substitutos dos pais na escola, reciclando os professores deformados pela pedagogia de obediência a princípios partidários promovida no sistema de partido único da pós-independência, tão em voga nas décadas de cinquenta a fins de oitenta do século passado em vários países.

S. Vicente, Junho de 2017                                                            

  *(Pediatra e sócio honorário da Adeco)

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