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Então, adeus TACV!

Sempre achei bonito o gesto da companhia, que tinha sempre para oferecer aos passageiros, aqueles rebuçados embrulhados em celofane azul e que sabiam a fruta

Natacha Magalhães

É bom sentir saudades.  Saudades têm a ver com afetos. Com ligações. E com coisas que nos marcam pelos bons momentos que nos proporcionam.

Da primeira vez que viajei com os TACV não me recordo nada. Era pequena demais, estava distante demais. Tinha acabado chegar de um país diferente e a ligação entre as ilhas do Sal e da Boa Vista fez-se sem que dela guarde recordação alguma. Então, prefiro dizer que, para mim, aquela não foi a primeira viagem com os TACV.  Cerca de um ano depois, aconteceu. A mãe foi buscar-nos à Boa Vista e então pude, finalmente, experimentar a sensação plena de voar entre as ilhas. Que viagem! Ia como se fosse uma aventura.

Com o coração na boca, o peito ia se encolhendo a cada guinar do minúsculo aparelho, o twin otter, onde também iam não mais do que vinte pessoas. Perguntava-me como seria aquele pequenino aparelho capaz de levantar voo e ainda por cima carregando pessoas e carga? O twin otter parecia um pássaro que flutuava ao sabor do vento. Soube depois que era um avião seguro, próprio para ligar ilhas de distâncias curtas, pois caso o motor falhasse, ele planaria ao sabor do vento, até poisar. Dentro do aparelho, as pessoas estavam aparentemente calmas e eu as invejava. O que sentia era um misto de emoção e medo. Mais de medo, confesso. Não tirava da cabeça que a qualquer altura, o twin otter poderia se desprender do céu. O pânico e o nervosismo só aumentavam, porque o meu irmão, o kodé da família, ia no colo da nossa mãe – naquela altura, era permitido crianças grandes irem no regaço de passageiros – e não parava de gritar que o avião ia cair. Os outros passageiros acharam piada, mas eu só me apetecia espertar-lhe umas palmadas para que se calasse. Eu consegui frear o medo no peito, e adotei a técnica que anos mais tarde usaria e continuo usando nas viagens que faço: forço o pensamento a divagar por pensamentos bons, mas ainda assim, não consigo desligar-me dos movimentos das aeronaves.

E chegamos à cidade da Praia e o twin otter, por uns tempos, continuou a ligar-me à Boa Vista, para onde regressava em algumas das férias escolares. Dessa altura só guardo mesmo os twin otters. Nada de atrasos, nem avarias e cancelamentos de voos. Nem de bagagens deixadas para trás. As minhas chegavam sempre comigo. Aliás, nem me lembro de haver pessoas reclamando sobre isso. Também não me recordo de gente a reclamar do serviço dos TACV. Parecia tudo tão perfeito.

Anos depois, os twin otters desapareceram, sendo substituídos pelos ATR, o número de viagens entre as ilhas aumentou e mais pessoas puderam viajar a bordo dos TACV. Para fora, também a primeira viagem foi feita com a companhia de bandeira. Lembro-me que foi em dezembro, a partir do Sal. Iria partir para Portugal para prosseguir os estudos e, sete meses depois estava de regresso ao arquipélago e novamente a bordo da companhia de bandeira. A aeronave vinha cheia, tão cheia que, a certa altura, pareceu-me que vinha gente sentada na coxia. A excitação tomava conta dos passageiros, na sua maioria estudantes em férias e imigrantes que retornavam à terra para o ansiado descanso e o matar das saudades. As aeromoças eram simpáticas e os pedidos dos passageiros eram atendidos com simpatia e sorrisos. Eram tempos áureos para os TACV. Havia também mais cuidado e atenção para com os passageiros. Diz-se que nas pequenas coisas vê-se o valor dos grandes. Sempre achei bonito o gesto da companhia, que tinha sempre para oferecer aos passageiros, aqueles rebuçados embrulhados em celofane azul e que sabiam a fruta.

Depois tudo mudou sem que se percebesse quando e como. Tudo parecia andar bem, mas, afinal, não tão bem assim. Começaram os rumores de que a companhia não ia bem. Mas como não, se os voos iam sempre cheios e conseguir lugar para viajar entre as ilhas e para fora delas era missão complicada, particularmente em época alta? Ninguém sabia responder. E vieram os atrasos. E passageiros que não consigam chegar ao destino no tempo planeado porque os voos eram cancelados. Avolumaram-se as reclamações de passageiros, que chegavam ao destino sem bagagens. Os TACV não tinham respostas. O pessoal de cabine já não tinha tantos sorrisos e a paciência, notava-se, era praticada com muito artifício.

Mas o fim foi sendo anunciado por diversas vezes. E por várias vezes se ensaiou salvar a companhia com balões de oxigénio injetados aqui e acolá. Tudo em vão. Agora temos uma nova companhia para ligar as ilhas. Já não teremos os rebuçados de fruta, embrulhados em celofane azul. Hoje, só nos resta apreciar os sortidos de frutos secos e recordar o que de bom os TACV nos proporcionaram. E esperar que a nova companhia continue a fazer aquilo que os TACV bem ou mal, souberam fazer: ligar as ilhas, ligar-nos uns aos outros.

Então, adeus TACV.

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