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“O Megafone do Poder”, o jornalismo segundo Carlos Santos

A obra reflecte “profundas inquietações” ligadas ao funcionamento do sector da comunicação no país.

O jornalista Carlos Santos lança esta quarta-feira, 12, o seu primeiro livro, “O Megafone do Poder”. Nele, o gestor executivo da Inforpress analisa quais têm sido as politicas públicas para a comunicação social em Cabo Verde e os seus desafios, num período que vai de 2003 a 2015.

“O Megafone do Poder” é o primeiro livro de Carlos Santos, jornalista e actual gestor executivo da Agência Cabo-verdiana de Notícias (Inforpress). A obra reflecte “profundas inquietações” ligadas ao funcionamento do sector da comunicação no país. Algumas dessas preocupações e inquietações foram partilhadas com os leitores, através de artigos nos jornais e no blogue do autor, “mas muitas nunca viram a luz do dia”.

Conforme diz também, em conversa com A NAÇÃO, com o presente trabalho pretende estimular o debate sobre a comunicação social. “Se conseguir atiçar e densificar esse debate acho que o livro cumprirá a sua função”, afirma.

O livro está estruturado em três partes, uma em que há textos que falam sobretudo sobre políticas públicas, da liberdade de imprensa e da regulação, outra em que o autor traça a história e importância social da rádio nacional, reconstruindo, também a história da televisão de Cabo Verde, e uma terceira parte em que há comunicações com uma personagem. “Nesta parte, criei uma personagem, uma aluna que dei o nome de Júlia, que me coloca questões sobretudo sobre os desafios da comunicação social e quais são esses desafios ao nível da formação dos jornalistas”, revela Carlos Santos.

No fundo, este livro é uma preocupação que o autor tem desde algum tempo, em relação aos caminhos que a comunicação social em Cabo Verde vem trilhando. Uma das constatações é que o país tem avançado, do ponto de vista tecnológico, na diversificação dos meios, mas nem tudo são rosas. “Hoje, por exemplo, temos mais rádios, televisões, jornais online, portanto, a pluralidade está a acentuar-se, muito embora, nos últimos tempos tenha havido o desaparecimento de alguns jornais, como o ‘A Semana’, o ‘Ocean Press’ e outros projectos editoriais que estão a desaparecer”, lamenta.

Desafios

Em “O Megafone do Poder”, Santos analisa os desafios da comunicação social, sem deixar de lado a questão da qualidade do serviço prestado. “Temos muitos desafios, apesar de uma reconhecida melhoria ao nível da modernização tecnológica, da qualificação dos profissionais, mas temos que melhorar em relação a qualidade do serviço que prestamos aos cidadãos”, avisa.

No entender daquele jornalista e professor, deve haver em Cabo Verde um jornalismo especializado, mas há que pensar em que investimento se deve fazer. “Infelizmente”, lamenta, em termos de políticas públicas, a comunicação social “não tem sido uma prioridade” dos sucessivos governos. “Os governos entram, apresentam algumas ideias, projectos às vezes eloquentes, mas não passam do papel. Há um distanciamento entre aquilo que é anunciado e o que é concretizado”, refere.

Em tom de desabafo ao A NAÇÃO Santos entende que falta uma vontade dos governos em pôr em prática uma política, uma visão ou uma estratégia para a comunicação social e que esteja alinhada com a ambição e os desafios que o país tem. Cabo Verde é um país que tem uma democracia ainda recente, que muitos já dizem estar consolidada, “mas que a comunicação social precisa, de facto, de estar a altura desse desafio”.

“Por exemplo, em termos de liberdade de imprensa, Cabo Verde já esteve na décima posição, mas depois caiu 16 posições e ninguém se dá ao trabalho de analisar o que está a falhar. O financiamento ao sector privado é uma grande dificuldade; aqui eu costumo dizer que enquanto não tivermos um sector privado forte, que encontre as condições de sustentabilidade, dificilmente nós teremos também um sector público forte”, explica.

A clarificação do papel do Estado no campo mediático é um dos temas abordados em “O Megafone do Poder”. Santos lembra que o anterior governo anunciou alguns fundos para o desenvolvimento do sector privado da comunicação social, estimado em 70 mil contos, não avançou.

“Tem que haver mecanismos para financiamento do sector privado, uma vez que, só pela via do mercado não é possível garantir a sustentabilidade, porque a publicidade em Cabo Verde é muito fraca. Por isso, é o Estado que tem que permitir que os privados tenham condições para desenvolver os seus projectos”, diz.

Jornalismo e política

Em “O Megafone do Poder” há um capítulo intitulado “Quem tem medo dos políticos?” em que Carlos Santos procura mostrar, através de vários exemplos, que os jornalistas cabo-verdianos “não têm medo dos políticos”. Há sim, “provavelmente”, segundo o autor, “alguma desconfiança” de parte a parte. Outrossim, o livro faz um mergulho na história para mostrar que “não tem sido fácil” o relacionamento entre os jornalistas e políticos cabo-verdianos. Esse sentimento de distanciamento, nota o autor, tem uma explicação na história.

“Estivemos séculos num regime colonial com a censura que conhecemos, depois vivemos 15 anos de partido único, a década de noventa foi de muitas promessas, com muitas reformas na comunicação social, sobretudo ao nível legislativo, mas na ponta final desse período tivemos atritos entre os jornalistas e os políticos. E tivemos, utilizando uma expressão do professor Silvino Évora, durante os três mandatos em que o PAICV esteve no poder, um período em que os jornalistas foram ‘amaciados’, não afrontaram muito o partido que esteve no poder”, justifica.

“O Megafone do Poder” é lançado na quarta-feira, 12 de Julho, às 18H00, no auditório da RTC, na Achada Santo António, Praia. A apresentação da obra estará a cargo do Reitor da Uni-Piaget, Wlodziemierz Szymaniak, e pelo jornalista José Mário Correia.

AN

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