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O humor britânico do Governo

Num mundo cada vez mais global ficar preso a essa coisa de “companhia de bandeira” não faz nenhum sentido.

Paulo Mendes

O país está parado e das poucas vezes que temos as notícias da ação governativa, fico com a sensação de que andamos a navegar à vista e que as decisões são tomadas tendo por base, exclusivamente, as circunstâncias do momento. Comecemos pela TACV em que a solução que está a ser encontrada pelo executivo é, para além de muito questionável a nível financeiro, alicerçada num fato à medida para a companhia Binter. Começo o meu artigo com 5 evidências: a primeira é a existência de um consenso generalizado na sociedade cabo-verdiana que a situação da companhia é absolutamente insustentável, tanto do ponto de vista financeiro (100 milhões de prejuízo acumulado) como pelo péssimo contributo que tem dado na afirmação e consolidação de uma política mínima de transporte em Cabo Verde. A segunda evidência é que na verdade houve, por parte de anteriores administrações da companhia, uma gestão pouco competente onde perdemos oportunidades interessantes na conquista de outros mercados, como por exemplo, na costa ocidental africana. A terceira evidência é que a nossa realidade arquipelágica não nos deixa alternativas a nível de mobilidade inter-ilhas e, por conseguinte, a necessidade de haver uma rede de transportes aéreos eficazes é crucial para o processo de desenvolvimento do nosso país. A quarta evidência (parece-me a mais relevante) é que – sendo um assunto estrutural para o desenvolvimento de Cabo Verde) – a solução deveria ser encontrada com o mínimo de consenso político e não centrada numa lógica excessivamente partidária. O meu receio é que por ser uma solução ancorada numa lógica do bombeiro, daqui a meia dúzia de anos, andaremos a navegar na maionese a nível de transportes aéreos. A quinta evidência é que o governo atual teria uma excelente oportunidade para dar um contributo sério na estruturação do modelo de transporte aéreo em Cabo Verde e não está a fazê-lo.

Da minha parte, não tenho no presente qualquer relação sentimental ou patriótica com os TACV ( já a tive no passado). Quero viajar o mais barato possível e com segurança. Portanto, para mim é absolutamente irrelevante se é na companhia de bandeira ou não. Num mundo cada vez mais global ficar preso a essa coisa de  “companhia de bandeira” não faz nenhum sentido. A minha indignação tem a ver com a forma errada como o governo está a gerir o dossier.

A primeira questão de fundo é que este Governo não tem uma política de transporte para o país, sendo que qualquer solução a ser encontrada para a TACV deveria estar balizada por essa mesma política de transporte e não o contrário. O paradoxo deste processo todo é que todas as evidências apontam para uma decisão tomada para encaixar na situação específica de uma companhia, neste caso a Binter CV.

A segunda questão é a mania que temos de andar a inventar, de contratar consultores internacionais para tudo e para nada (os tais consultores engravatados, recém-licenciados e sem experiência) e às vezes soluções estão mais perto do que imaginamos. Nos Açores, por exemplo, os sucessivos governos regionais andaram muito tempo a discutir o modelo de transporte aéreo e, um ano depois da liberalização do espaço aéreo, houve um aumento de 30% no fluxo de turistas. Encontrou-se uma solução, que não sendo perfeita, pode ser estudada por nós: criou-se duas companhias, a SATA para garantir as ligações inter-ilhas e a Azores Airlines que faz as ligações dos Açores com o exterior.

Enquanto cidadão, acho que se deveria colocar em cima uma alternativa semelhante: reestruturação dos TACV, que passaria por criar duas empresas e com um forte emagrecimento da estrutura de custo. Uma empresa que garantisse os voos inter-ilhas e outra que faria as ligações de Cabo Verde com o exterior. A primeira empresa deveria merecer a nossa total prioridade no sentido de que a nossa realidade de 9 ilhas habitadas não dispensa uma companhia de aviação. Aqui poderemos encontrar uma lógica transparente de subsidiação da companhia com o objetivo de assegurarmos algum equilíbrio nos preços dos bilhetes entre as diferentes ilhas. A segunda empresa, cuja responsabilidade é assegurar as ligações externas, teria de operar numa lógica de mercado aberto e teria de sobreviver com os seus próprios meios e sem a ajuda estatal.

São soluções possíveis e vale a pena que o governo responda a outras questões, nomeadamente: qual é o ativo da TACV?  Qual tem sido o montante médio que todos os anos o Estado tem injetado na empresa? Faz sentido que o governo não tenha uma posição maioritária na Binter? A Binter, quando resolveu expandir para Cabo Verde, já tinha, de certa forma, este cenário em cima da mesa? Financeiramente, qual é o custo inerente da aniquilação da TACV? Como será feita e com que custos a Binter assumirá as linhas inter-ilhas que são deficitárias e como será garantido o serviço público de transporte?

Acho que estou a ver o filme. Daqui a uns anos, a Binter entra em ruptura com o Estado, a TACV já está morta e enterrada e os cabo-verdianos vão viajar entre as diversas ilhas…de carro. É sempre bom ter algum humor nisso.

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