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Quem pode concluir por mim? Sobre a prova produzida dos crioulos

Devemos ter a decência moral de obrigar as pessoas que executaram e geriram o golpe de estado cultural (complô ilegítimo historicamente, sem legitimidade na história e cultura cabverdianas) a responder publicamente

José Gabriel Mariano

“Nos últimos tempos tem crescido muito o número de convites de universidades e, sobretudo, de escolas secundárias, de todos os cantos do país, para conversas abertas (chamam-lhes, pomposamente, «aulas magnas») com estudantes e professores.

E sobre quê?

Na esmagadora maioria dos casos, pretendem que fale e dialogue sobre a Constituição, a democracia, os direitos fundamentais ou a história político-constitucional de Cabo Verde. Um sinal claro, muito claro, do caminho ascendente que se vai edificando para uma cultura constitucional, vale dizer, democrática, no nosso país” (Comunicação do Excelentíssimo Senhor Presidente de Cabo Verde, 03/03/017, FB). “Como resultado do novo projecto educativo, ambicionamos um perfil de jovens com fortes competências em línguas, ciências e tecnologias e uma profunda formação em história, cidadania e cultura, formados do pré-escolar ao universitário”, salienta Correia e Silva, para alertar que “isso exige elites intelectuais, lideranças e uma base alargada de homens e mulheres com níveis elevados de educação e formação” – In Jornal A NAÇÃO, de 06/03/017.

Então, é de dizer que já é possível estudar a História de Cabverd abertamente, sem restrições e sem complexos de inferioridade ou de qualquer outra espécie, e observando o rigor do método e da investigação científicas.

Pode, finalmente, Cabverd começar a descobrir-se!

O mesmo é dizer que no plano linguístico o povo de Cabverd já pode ter acesso ao estudo científico de uma das suas línguas, diacrónico e sincrónico, de modo a poder conhecê-la com honestidade e verdade e assim também as suas origens.

Nesta sequência, devo concluir que os direitos fundamentais à Educação, ao Conhecimento, à Investigação Científica e à Informação – cujos direitos, até ao presente, ainda se não encontram assegurados -, foram alertados aos alunos e professores pelo seu profundo e longo tempo de incumprimento e sistemáticas violações.

Alguém em Cabverde conhece a quantidade de textos escritos em crioulo no século XIX: poesia e prosa, contos, preces religiosas, moral religiosa, provérbios, regras gramaticais do crioulo – morfologia, sintaxe, léxico -, publicados e divulgados no Facebook?

Por exemplo: será que é conhecido o “Dialecto Indo-Português de Damão”, da autoria de Monsenhor Sebastião Rodolpho Dalgado, ou o “Dialecto Indo-Português de Ceylão, do mesmo autor, ou o “Dialecto Crioulo de Cabo Verde”, de Baltasar Lopes da Silva, ou o “Glossário Luso-Asiático”, autoria daqueloutro autor?

Apenas alguns casos exemplares.

Pergunto, conhecem: escola primária, ensino liceal, universidade?

O que se fez em Cabverd foi muito grave. Gravíssimo. Foram crimes. Crime (crimes) contra a Humanidade. Amputaram gerações e gerações, já não contando com o tempo de Salazar, o grande amigo de Nhô Balta. Penso, quase tenho a certeza, as pessoas, naquele tempo de obscurantismo político, não o eram culturalmente: eram mais unidas, solidárias, lúcidas e muito informadas e conhecedoras.

Brilhantes!

Quiseram matar uma Geração de Ouro de Cabverd. Como aquela, outra não haverá! Temos o enorme dever de lutar por ela, extrair e expandir os seus doutos conhecimentos: a espinha dorsal de Cabverd.

Devemos ter a decência moral de obrigar as pessoas que executaram e geriram o golpe de estado cultural (complô ilegítimo historicamente, sem legitimidade na história e cultura cabverdianas) a responder publicamente.

O dever fundamental da Educação foi claramente violado, como igualmente, dentre outros adjacentes, o dever de informar e o dever de prestar conhecimento idóneo. As anteriores e as atuais autoridades cabverdianas sabem-no perfeitamente, como acima vem demonstrado pelas declarações do Senhor Presidente e do Senhor Primeiro-Ministro.

A primeira pessoa a ter que responder, por razões e motivos invocados na Acusação Pública, é o Senhor Professor Doutor Manuel Veiga. Por ter sido governante, por ser professor universitário e doutorado por universidade francesa, matriz linguística. O senhor Professor tem informação valiosa e conhecimento de mais realidades sobre o Crioulo. Na apresentação do seu livro: “O Dialecto Indo-Português de Damão”, Monsenhor Sebastião Rodolpho Dalgado dá a informação da realização de trabalhos sobre os crioulos em curso e outros a concretizar, por ele e por outro investigador (Hugo Schuchardt).

Indica, igualmente, a proveniência de vários crioulos (Cochim e Mangalor, por exemplo) e sua raiz comum. O próprio dá também a perceber, mais uma vez, sobre o caráter universal do Crioulo. Inclusivamente, Monsenhor Sebastião Dalgado invoca e refere-se a Leite de Vasconcelos, insigne Professor, como autor obrigatório para qualquer aluno de linguística e que verse, especialmente, sobre os crioulos.

Julgo que está provado e demonstrado à sociedade que o Senhor Professor Doutor Manuel Veiga nada fez em e por Cabverd de decente e de útil. Nada informou, nada ensinou (ensinamento académico idóneo), nada de válido deu a conhecer em prol do Povo e Cultura Cabverdianas.

Julgo que está demonstrado que o Senhor Professor Doutor agiu com grave dolo – agravado ao facto do conhecimento de que Manuel Veiga pertence a um grupo fechado do Facebook de investigação linguística sobre o crioulo falado em Korlai, Índia -, com intenção de prejudicar a criança e o jovem na sua formação académica, científica e cultural, o Povo e a República de Cabo Verde.

Com o advento da República em Portugal, o ímpeto de investigação crioulística abrandou bastante e que Baltasar Lopes da Silva tentou recuperá-lo, mas foi completamente abafado por Salazar e, depois, desrespeitado, destronado do seu árduo e profundo trabalho histórico, cultural e linguístico e, fundamentalmente filosófico – como que deitado ao lixo -, em prol das gentes da sua Terra, pelos seus próprios conterrâneos.

Destronaram Baltasar e a Claridade, para assumirem um poder cheio de nada e levarem Cabverd ao abismo de um país sem raízes, sem História, supérfluo, superficial e leviano.

Persistir até que o cancro desapareça.

Se se considera que, devido à censura velada instalada no arquipélago, iremos desistir de perseguir criminalmente o Senhor Professor engana-se! O golpe de Estado Cultural irá ser julgado!

A conduta para ser criminalizada deve ser uma conduta tipificada. A conduta deve estar prevista, identificada em tipo de crime, para, assim, poder-se enquadrar o comportamento humano.

Posso garantir que a Instituição que defende e protege os interesses e direitos do Estado, da criança e do Povo de Cabo Verde já está completamente inteirada, com completo e integral conhecimento da nossa Acusação Pública.

Agora é investigar.

O Senhor Professor Doutor Manuel Veiga não tem autoridade, por falta de idoneidade moral e/ou científica e académica, para discutir seja o que for sobre o Crioulo, sobre a História e sobre a Cultura Cabverdianas.

A única discussão possível com este senhor é jurídica e judicial.

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