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O medo da morte

(...) a morte faz parte da vida, e é um privilégio de quem vive, porque é o único que pode morrer. Então não adianta ter medo daquilo que acontece naturalmente.

Olímpio Tavares*

O medo mais terrível que afronta o ser humano durante a sua vida é o medo da morte. O medo da morte é um fantasma que nos persegue diariamente e nos deixa profundamente angustiado aquando da morte de um nosso ente querido. É a morte dos outros que faz despertar em nós um sentimento de impotência perante a vida.

O homem tem medo de morrer porque não sabe o que vai acontecer após à sua morte. Os que morreram não voltaram para dizer como é que é. Os que estão vivos inventam um conjunto de soluções positivas, no sentido de minimizar esse medo. De entre muitos, encontramos os cristãos, para quem a morte constitui apenas um momento de passagem para uma vida feliz. Mas, para que tal aconteça o homem terá de fazer uma ascese, no sentido de relativizar os prazeres do corpo. Para além disso, terá de praticar boas ações. Tendo satisfeito essas condições, o homem não tem razões nenhuma para estar preocupado com a morte. A morte para este é algo que pode até ser desejado, uma vez que ele vai viver num paraíso eterno, onde reina a felicidade.

Apesar de o cristianismo e as outras religiões postularem a existência de uma vida eterna, que pode parecer à primeira vista uma ideia tranquilizadora, na verdade, quando as pessoas que professam uma religião qualquer se aproximam da morte, são aquelas que se sentem mais aterrorizadas nesse momento. Isso significa que as promessas religiosas de uma vida para além da morte, além de não serem verdadeiras de facto, como se sabe, não contribuem para que a maioria dos crentes não tenham o medo da morte.

Para além das promessas religiosas de uma vida para além da morte, existe ainda várias filosofias transumanistas que garantem ao homem uma vida que supera a própria morte. Como é óbvio, essa perspetiva é ilusória, na medida em que a morte aniquila o homem no seu todo, sem reservas. Tanto a perspetiva cristã com a perspetiva transumanista são tentativas completamente frustradas, apesar de-se-lhes reconhecerem uma certa criatividade na descrição e na argumentação dos pontos de vista que defendem.

O medo da morte pode ser dissipado em parte, se o homem encarar a morte de uma forma nua e crua. Isso implica deixar de lado as falsas esperanças religiosas e os transumanismos irrealistas. A realidade é esta: o homem nasce e morre como qualquer ser vivo; faz parte da lei da matéria. Não adianta tentar ressuscitar o homem, porque mesmo sendo possível, já se trata de homem, mas, sim, de um fantasma.

O medo da morte pode ser dissipado ainda se o homem viver uma vida desapegada dos bens materiais, dos prazeres e das paixões, das falsas amizades e amores, das ideias que desenvolvemos, por mais geniais que sejam. Se o homem conseguir libertar-se dessas coisas e colocá-las no seu devido lugar, não terá medo nenhum da sua morte. O ter e o ser são duas coisas que obrigam o homem a agarrar a vida, e, como é óbvio, quem está agarrado a algo que gosta tem medo de o perder, e assim, a morte aparece sempre como uma ameaça. Convém viver a vida com um certo despreendimento para não ficarmos atormentados e cheios de medo no momento da morte. Dizem os sábios que uma vida apaziguada destinada, fundamentalmente, à reflexão, à prática do bem e ao aperfeiçoamento moral, ajuda-nos a morrer com uma certa tranquilidade.

O ser humano deve dedicar algumas horas da sua vida para refletir sobre o medo em geral, e o medo da morte em particular. Porque ao refletir a sério encontrará um conjunto de motivos que não passam de condicionamentos sociais, que o impede de ver as coisas tal como elas são. A maior parte dos medos que temos, inclusive o medo da morte, foi-nos incutido consciente ou inconscientemente pela sociedade onde estamos inseridos. Devemos fazer uma certa desconstrução ou deitar abaixo todas essas “verdades sociais”, que aceitamos sem quê nem porquê, a fim de inspecionar os seus meandros e colher aquelas que são plausíveis. Tenho a certeza que se fizermos isso, conseguiremos ter uma vida apaziguada, porque muitos dos medos que nos atormentam foram deitados abaixo. E assim estaremos em condições de ter uma morte serena, uma vez que encaramo-la com a naturalidade que ela merece.

Afinal, a morte faz parte da vida, e é um privilégio de quem vive, porque é o único que pode morrer. Então não adianta ter medo daquilo que acontece naturalmente.

*Licenciado em Filosofia, pela Universidade Católica Portuguesa (Lisboa). Atualmente, leciona Filosofia na Escola Secundária “Olegário Tavares”, na vila de Achada do Monte (interior de Santiago).

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