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Do turismo, seus agentes e trabalhadores

Não podemos continuar a importar o que produzimos ou somos capazes de produzir. Há importações que são autênticos vícios mercantis que vêm impedindo o incremento da produção nacional industrial e agrícola

Arsénio Firmino*

Há alguns anos publiquei, no Voz Di Povo ou no Terra Nova – já não me lembro bem em qual deles – um artigo chamando a atenção das autoridades para as cautelas e exigências a ter em conta com os empresários interessados no financiamento do turismo, não fosse acontecer como em certas ilhas das Antilhas que sonhavam com o desenvolvimento através do turismo, o qual só teve benefícios para alguns empresários estrangeiros e poucos nacionais, e criou problemas enormes ao meio ambiente com lixeiras monstras a céu-aberto, drenagem dos esgotos para o mar sem tratamento prévio e bairros de lata e cartão, fora da vista dos turistas, para os trabalhadores nacionais das estruturas turísticas e de outros atraídos pelo turismo. Não disponho de cópia do artigo que ficou no meu velho computador da época irremediavelmente avariado e inutilizado.

Estas linhas vêm a propósito de um vídeo enviado por amigo que retrata a situação na Ilha da Boavista, e presumo que algo semelhante, talvez em menor escala, se passa no Sal, em que se vê a sabura de turistas gozando as delícias do mar, das praias, do sol, das piscinas, dos hotéis de cinco estelas, e, mais longe, bairros de lata e cartão sem o mínimo de condições higiénicas, sem água nem electricidade, em que uma chusma de adultos, crianças e porcos correm atrás de carros de lixo dos hotéis que o despejam em lixeiras monstras, disputando restos de comida para uso pessoal e de porcos, de latas, garrafas, etc., de interesse para pobres e miseráveis. A imagem fez-me recordar a lixeira da Ribeira de Julião, em S. Vicente, numa ocasião em que aí levei o ministro da saúde e encontrámos crianças assoprando, alegremente, camisinhas (preservativos) como se fossem balões.

Com a extensão do turismo nessas duas ilhas, devido às facilidades concedidas a empresas estrangeiras por carência de capitais nacionais, sem as contrapartidas (cautelas e exigências) assinaladas no citado artigo, que o bom senso recomendava, os trabalhadores nacionais passaram a ser simples serviçais nos restaurantes, hotéis, no mar, e presumo que até facilitadores do comércio sexual, por se ter desenvolvido esse tipo de turismo, vivendo, parte deles, nesses bairros de lata, juntamente com outros elementos atraídos pelo turismo vindos até de países africanos.

Sei que o turismo beneficia o nosso PIB, que poderia ser muitíssimo maior se tivesse prevalecido o bom senso, com reflexos na qualidade de vida e protecção dos que aí trabalham. Os hotéis importam praticamente tudo que consomem, quando se deveria exigir que consumissem os produtos locais disponíveis, o que traria como vantagem a promoção e incremento da nossa pequena e média indústrias com capitais nacionais, e para a agricultura local e de outras ilhas como S. Nicolau, Santo Antão e Santiago no abastecimento desses hotéis. É facto que o sector privado cabo-verdiano muito raramente aplica as suas poupanças e recursos em indústrias para o desenvolvimento do país, embora algumas empresas estejam a funcionar com lucros, que não investem, preferindo robustecer a sua liquidez ou colocá-los no exterior. Todavia, havendo possibilidades seguras, estímulo estatal em termos fiscais isentando-as de alguns impostos e de burocracias, garantia de lucros no abastecimento do turismo, iriam mudar de estratégia, investindo na pequena e média indústrias viradas para o turismo, e também na agricultura para o abastecimento das empresas turísticas, e, havendo excedente, de todo o país.

Relativamente aos miseráveis bairros de lata – tanto na Boavista como no Sal e noutras ilhas -, é de estranhar que o Governo não se tenha lembrado deles aquando da sua política de Casa para Todos – mas com habitações simples e modestas -, que, afinal, vão para quem disponha de dinheiro para as comprar ou pagar a renda, portanto, não para todos, por não serem nada modestas, tendo custado uma pipa de massas – empréstimo de 200 milhões de euros para a construção de 5.920 casas, estando 3.872 em construção e 2.048 concluídas – política que ficou a meio caminho sem grandes hipóteses de continuidade nos tempos mais próximos, estando o actual Governo a negociar com Portugal o perdão de parte da dívida, já com uma despesa adicional em juros de mora e outros de dezoito milhões de euros.

Há poucos anos, a maior percentagem da população, cerca de 60% ou mais, vivia no meio rural. Actualmente, inverteu-se a situação, sendo o meio urbano a concentrar mais população, particularmente a Praia, tendo-se despovoado o interior do país, dadas as solicitações e recursos urbanos, visto o meio urbano ter sido beneficiado muito mais de meios que promoveram empregos e melhoria da qualidade de vida. Se se quiser fixar as populações no interior do país – o que me parece uma necessidade premente incontestável e inadiável – há que continuar a melhorar a qualidade de vida a esse nível e a discriminar positivamente indivíduos e empresas que queiram aí investir em pequenas e médias indústrias, por exemplo, de transformação e valorização de produtos agrícolas. Há que começar com as pessoas e empresas que ainda estão no meio rural; com o tempo, a informação das vantagens convencerá, a pouco-e-pouco, outras pessoas e empresas a investir ou a regressar ao meio rural. Isso contribuiria para o aumento da produção agrícola nacional e do chamado agro-negócio, virado, numa primeira fase, para satisfazer as necessidades do turismo, e, a seguir, numa onda de progresso, para todo o país. Não podemos continuar a importar o que produzimos ou somos capazes de produzir. Há importações que são autênticos vícios mercantis que vêm impedindo o incremento da produção nacional industrial e agrícola. Com as represas, os furos na pesquisa de água e técnicas modernas de rega com poupança de água, podemos estender a agricultura de regadio e produzir percentagem significativa do que agora continuamos a importar. É mesmo vergonhosa, para os nossos chamados operadores económicos e os últimos governos, a passividade quanto à produção nacional. Não entendo, por exemplo, porque continuamos a importar águas minerais quando as temos em quantidade e qualidade – água do Torno (do mesmo tipo da do Luso), do Vinagre (fluoretada, cuja produção pode ser aumentada com diques de retenção na ribeira onde ela brota), Trindade, da Nossa Senhora de Socorro, no Fogo, e águas alcalinas de Santo Antão. Também não entendo porque as vendemos ao mesmo preço das importadas, quando não mais caras, a não ser para justificar a importação e o não incremento da produção nacional.

A nossa culinária é boa e variada (cachupa rica, guisada com linguiça e ovo estrelado, djagacida, da Brava e Fogo, caldo de peixe, peixe grelhado e frito, modge de capado, de cabrito ou carneiro, de S. Nicolau, arroz de polvo, botchada, sanfana, feijoada, cachupinha, etc.), bem como a doçaria, queijos de cabra, manteiga de garrafa do Fogo, etc. Há que promover a sua introdução nos menus dos hotéis e restaurantes, dado que os turistas apreciam conhecer a culinária dos países visitados.

Afinal, o que espero, aliás, o que me move nas incursões periódicas jornalísticas? Tão-simplesmente que as urgências do cabo-verdiano e da sociedade civil, definitivamente tenham absoluta prioridade, o que, infelizmente, não vem acontecendo, por as prioridades serem pessoais e partidárias. Quem puder aguentar, sobrevive; quem não puder, padece lentamente e morre para atingir a paz de Deus. Até parece que os nossos partidos políticos, mais evidente no MpD, são de mobilidade social, mas descendente, particularmente quando o Estado se lançou, sem os devidos resguardos contra a economia de mercado e o dumping, na globalização neoliberal, tendo-se tornado mais evidente que os interesses particulares e partidários se sobrepuseram ao interesse colectivo, sob a patranha de se deixar o mercado funcionar, porque a chamada mão invisível de Adam Smith nos protegeria de explorações.

Parede, Fevereiro de 2017                                                             Arsénio Fermino de Pina

(Pediatra e sócio honorário da Adeco)

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