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Estrangeiras

“‘Estrangeiras’ é um pequeno livro, de muita coisa. Lê-se em menos de meia-hora este pequeno livro de muita coisa. Em verdade, este pequeno livro é de muita causa

Filinto Elísio

O teatro e, por conta disso, o género dramático impuseram-se  ultimamente em Cabo Verde com grande desassombro e tende a afirmar-se como uma tradição afortunada. José Luis Peixoto, com “Estrangeiras”, traz-nos desta feita um texto dramático que, não sendo de genealogia cabo-verdiana, carrega suficiente Caboverdianidade para que se inscreva no universo dos dramaturgos e encenadores de e em Cabo Verde, campo espacial e temporal de Francisco Fragoso, Donaldo Macedo, Caplan Neves, Mário Lúcio, Abraão Vicente e João Branco, entre muitos outros.

“Estrangeiras” é um pequeno livro, de muita coisa. Lê-se em menos de meia-hora este pequeno livro de muita coisa. Em verdade, este pequeno livro é de muita causa. Antes de mais, por versar em exegese sobre uma cidadania global onde temas como a emigração, a mobilidade e o mundo como espaço humanitário comum fazem ou deviam fazer sentido.

Outrossim, por acontecer com as suas múltiplas faces, de poliedro crítico, diante de sentimentos espinhosos deste nosso tempo, em que seres humanos são condicionados pelo cerco do racismo, da misoginia e do hetero-patriarcado. Um tempo marcado pelo discurso do poder e pelo poder do discurso de recusar na hoje já clássica tríade – liberdade, igualdade, fraternidade – a incorporação semântica da participação, da equidade e da solidariedade. Este pequeno livro de muita coisa e causa, mais que uma “commedia della arte”, manifesta, sem nunca cair no panfletário, e manifesta-se contra contextos que nos desumanizam.

Como na peça “As Troianas”, de Euripides,  “Estrangeiras” é uma peça de mulheres migrantes diferentes entre si, com histórias singulares, com passados e futuros distintos, mas neste caso com uma língua comum, tal como aflitiva a situação da transposição de suas realidades. Se na peça de Euripides,  o sentimento das mulheres troianas era a da angústia, sob espectro das naus gregas, nesta peça de José Luis Peixoto as mulheres em viagem vivem a angústia de espera num aeroporto estrangeiro.

Efetivamente, a cena supõe-se na sala de espera dos Serviços da Imigração de um aeroporto americano, onde três mulheres aguardam o veredicto de entrada ou de deportação, enfim, um universo prestes a quebrar. Três mulheres, como na pequena novela “Virgens Loucas, de António Aurélio Gonçalves, três meninas da noite e do giro –  Nuna, Betinha e Domingas – no desespero da falta de petróleo para o candeeiro à noite, a saírem à rua em busca de luz, mas que terminam sob o aconchego do escuro e do abraço entre as mulheres, num quadro sublime de outra luz por dentro do breu e num ambiente de zero masculinidade.

Também nesta luz eureka, nesta  luz revelação, tal qual o Cubo de Rubik, Cubo Mágico, para quem gosta de brinquedo, em tridimensionalidade, eis as suas combinações:

– a cabo-verdiana e a brasileira versus a portuguesa;

– a cabo-verdiana e a portuguesa versus a brasileira;

– a portuguesa e a brasileira versus a cabo-verdiana.

Combinações que, como num jogo de quebra-cabeças, vão permutando arestas e enumerando arestas, contritos movimentos das três mulheres, num sala da imigração, pelas nossas contas, do Newark Liberty International Airport, em Nova Jersia.

Este arranjo espacial circunscrito e tridimensional opta por colocar as mulheres, com todos os seus apelos, perante o sentido da claustrofobia e da asfixia, apanágio de uma peça outra “As Troianas”, recriada por Jean-Paul Sartre, permitindo espaço ao ‘fora de cena’ e ao público, leitor no caso, a perfeita alteridade e alternidade com o texto.

Por conseguinte, tem de tudo, ou de quase tudo, “Estrangeiras”, enquanto texto dramático: solidão, angústias, preconceitos, conflitos, confrontações, conhecimento e reconhecimento,  enfim sensações múltiplas em combustão e que se querem inquietantes aos olhos do leitor.

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